Copa 2018

Na contramão da elite dos clubes, bola parada reina na "Copa das defesas"

 REUTERS/Carl Recine
Cristiano Ronaldo, artilheiro da Copa com quatro gols: três vieram da bola parada Imagem: REUTERS/Carl Recine

Leandro Miranda

Do UOL, em São Paulo

21/06/2018 21h00

Se havia uma expectativa de que a tendência ofensiva da elite do futebol de clubes da Europa se transportasse para a Copa do Mundo, isso tem passado bem longe de acontecer. O que tem se visto predominantemente em gramados russos é uma demonstração de como o jogo das seleções prima pela organização defensiva e pela concentração em negar espaços ao adversário, o que faz com que o Mundial 2018, até aqui, tenha a segunda pior média de gols da história.

Em 23 jogos até o momento, foram 51 gols marcados, o que dá uma média de 2,22 gols por jogo. Só a Copa de 1990, na Itália, famosa pelo futebol defensivo, teve marca mais baixa, com 2,21. Além disso, o número de gols originados de jogadas de bola parada é altíssimo: 26, ou 51% do total. O dado engloba pênaltis, faltas diretas ou indiretas, e lances ocorridos imediatamente na sequência de uma dessas situações, quando a defesa adversária ainda está organizada em função da bola parada.

Mas por que o futebol envolvente e versátil do Real Madrid tricampeão da Europa, o ataque baseado em pressão e velocidade do Liverpool ou o "jogo de posição" do City que amassa defesas não tem mais seguidores na Copa do Mundo? O principal torneio de seleções do planeta não deveria ser onde o nível de excelência do futebol desfila no maior palco de todos?

Não mais. Atualmente, a vanguarda do futebol está nos clubes. Uma primeira mostra disso, bem clara, é que a maioria dos treinadores considerados entre os melhores do mundo não comanda seleções: Guardiola, Klopp, Conte, Mourinho, Simeone, Zidane... O ex-treinador da Espanha, Julen Lopetegui, havia acabado de renovar com a seleção, mas preferiu aceitar um convite do Real Madrid e acabou demitido a dois dias da estreia. O topo do jogo, hoje, está mais na Liga dos Campeões do que na Copa do Mundo.

Isso também decorre de outro problema: criar sistemas ofensivos mais complexos e fazer com que uma equipe tenha um jogo sofisticado a ponto de abrir defesas adversárias demanda muito tempo de treinamento. Nos clubes, existe o convívio diário com os atletas. Nas seleções, como essa vantagem não existe, a maioria aposta em um plano mais "básico": organização defensiva, estratégia montada para contra-atacar e, claro, muita importância dada à bola parada.

François Nel/Getty Images
Irã protegeu a própria área com uma linha de seis jogadores durante vários momentos contra a Espanha Imagem: François Nel/Getty Images

Com tanta ênfase na organização defensiva, é natural que abrir os "ferrolhos" seja cada vez mais complicado. Não basta apenas ter um time mais talentoso: a movimentação coordenada de adversários em superioridade numérica perto do próprio gol é muito difícil de ser vencida. Assim, times inferiores tecnicamente como Irã, Islândia e México complicaram campeões mundiais como Espanha, Argentina e Alemanha. Nenhum dos 51 gols até agora, por sinal, nasceu de uma jogada individual em que um único atleta desmonta a organização do rival sem se associar com um companheiro.

É claro que nem todas as equipes baseiam seu jogo na defesa e na bola parada. A Espanha e a Alemanha gostam de jogar com a posse de bola, por exemplo, e seleções como Bélgica, Peru e Marrocos também apresentaram uma proposta ofensiva. O Brasil também evoluiu na organização ofensiva com Tite, apesar de ainda parecer mais confortável quando tem espaço para acelerar. Mas esse tipo de jogo vem sofrendo bastante para ser efetivo na Copa do Mundo.

Até aqui, em oito jogos o time com maior posse de bola venceu. Só que seis dessas vitórias foram decididas por lances de bola parada (no caso de Espanha 1 x 0 Irã, o gol saiu em uma sequência de cobrança de escanteio, com a defesa iraniana ainda retornando à sua organização natural de bola rolando). Ou seja: mesmo quando o vencedor tem mais a bola, a maioria esmagadora dos resultados positivos vem não de jogadas trabalhadas, mas da eficiência em faltas, escanteios ou pênaltis.

Por outro lado, em dez partidas o vitorioso foi quem ficou menos com a bola. Nesses casos, cinco jogos foram decididos por jogadas de contra-ataque ou roubadas de bola na frente, com a defesa rival desorganizada, e três por bola parada. Já no único jogo com posse igual até aqui, Sérvia 1 x 0 Costa Rica, novamente a bola parada foi crucial, com o golaço de falta de Kolarov tirando o zero do placar.

Ter menos a bola, forçar os erros de passe, explorar o espaço deixado pelo adversário e maximizar o aproveitamento na bola parada. Se estiver à frente no placar, controlar o jogo e esperar uma brecha em vez de forçar para tentar ampliar. Essa tem sido a tônica da Copa do Mundo e, com a chegada do mata-mata se aproximando, a tendência é ela se manter até o final.

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