Copa 2018

Professora tirava do próprio bolso para passar prova na escola de G. Jesus

Arquivo pessoal
Professora Rita de Cássia e Gabriel Jesus em escola paulista Imagem: Arquivo pessoal

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

21/06/2018 21h00

Há quatro anos o camisa 9 da seleção batalhava para se formar no ensino médio. Uma foto publicada pela professora Rita de Cássia, que dava aulas de filosofia para Gabriel Jesus, circulou na semana passada e realçou a precocidade do caçula do time brasileiro. Nesta sexta-feira, Gabriel ajudou a seleção a vencer a Costa Rica por 2 a 0 na segunda rodada do Mundial.

Na legenda da imagem, Rita desejava sorte ao pupilo na estreia da Copa e lembrava do sonho de Gabriel de jogar “igual o Ronaldo”. Quatro anos depois, o sonho garoto de estar em uma Copa se realizou mais rápido do que todos na escola estadual Guilherme Almeida imaginavam.

“Estávamos no término de uma aula, no final do semestre”, disse a professora em contato com o UOL Esporte. “Ele precisava se formar no ensino médio, senão não poderia jogar no time principal do Palmeiras.” Rita lembrou que o jovem atacante perdia aulas por conta das viagens que fazia com o time de base do Palmeiras: “Ele ficou um período fora da escola por causa de campeonatos. Mas depois tinha que correr atrás do conteúdo e das provas.”

Reprodução
Imagem: Reprodução

A foto foi tirada em 2014. Na época, Gabriel estava ajudando os professores na preparação de uma feira de ciências, na qual os estudantes debatiam temas relacionados à cultura africana. Gabriel colou ele mesmo os cartazes preparados pelos alunos nas paredes do local.

Formada em pedagogia e filosofia, e com pós-graduação em história, relações sociais e cultura, Rita tem uma década de experiência em sala de aula. Ela lembra que a situação da escola de Gabriel não era a ideal e refletia a qualidade da educação pública no Brasil.

“Era bem precarizada”, diz a professora, que hoje trabalha no Rio de Janeiro. “Quando queríamos fazer algo diferente, tínhamos de tirar do nosso bolso. Às vezes não tinha giz para o quadro, às vezes não podíamos usar laboratório e fazer pesquisa porque os computadores não funcionavam. Até papel higiênico chegou a faltar.”

Arquivo pessoal
Rita de Cássia, professora de Gabriel Jesus (ao centro) Imagem: Arquivo pessoal

Rita lembra que na preparação para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) precisava pagar do próprio bolso a xerox das provas simuladas. “Eu tinha mais de 500 alunos e como eles estavam estudando pro Enem e não tinha uma provinha preparatória, nós professores fazíamos a prova em casa e negociávamos preços camaradas na xerox.”

Apesar das dificuldades, e talvez até por causa delas, alguns professores se aproximaram muito dos alunos, a ponto de conversarem sobre projetos pessoais de cada um. Gabriel contou a Rita que não faria faculdade porque já sabia que viveria na Europa em pouco tempo. A professora recomendou que ele nunca se deslumbrasse com a fama e confiasse nos amigos mais próximos.

“A gente conversava sobre a vida e lembrava de exemplos de pessoas que, como nós, cresceram na favela, e uma favela muito perigosa, mas não viraram uma estatística”, lembra a professora, que convivia com os amigos de Gabriel do bairro Jardim Peri, na periferia de São Paulo.

Gabriel era bom em educação física e participativo em outras disciplinas

A professora conta que a disciplina preferida do jovem atacante era, obviamente, educação física.  

“Quando era aula de história, sociologia, geografia, o Gabriel dava risada. Quando ele fica nervoso, ele ri muito. Trabalhávamos a questão política, social, o machismo, feminismo. Nas rodas de debate, ele era muito participativo, apesar desses assuntos não serem muito presentes no cotidiano deles.”

Tendo feito parte da vida de milhares de alunos ao longo de dez anos no magistério, Rita se sente satisfeita quando vê um antigo estudante prosperando. Ela soube, através de amigos em comum, que Gabriel estava na concentração na Rússia quando viu sua postagem, que teve mais de 93 mil curtidas no Facebook. Ele adorou.

“Outro dia, uma ex-aluna postou no Facebook dizendo que o sonho dela era ser fotógrafa e agradecia que eu tinha incentivado. Tenho alunos que viraram manicures, cabeleireiros e estão bem. Tenho alunos como o Gabriel, que virou jogador. Assim como tenho alunos que infelizmente se envolveram com o tráfico. As oportunidades não são iguais pra todos.”

Hoje, morando no Rio, a professora dá aulas na Casa Nem, um coletivo de acolhimento a transexuais, travestis e transgêneros e em um cursinho pré-vestibular.

A reportagem tentou contato várias vezes com a escola Guilherme Almeida, mas ninguém atendeu as ligações.

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