Copa 2018

Antes da Copa, japonês jogou no Brasil e ficou fã de Thiaguinho e miojo

Benjamin Cremel/AFP
Hiroki Sakai, lateral-direito da seleção do Japão na Copa da Rússia, defendeu o Mogi Mirim em 2009 Imagem: Benjamin Cremel/AFP

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

23/06/2018 21h00

O lateral-direito Hiroki Sakai é um dos jogadores mais prestigiados da seleção do Japão. Aos 28 anos ele carrega experiências por Kashiwa Reysol, Hannover 96 (ALE) e atualmente o Olympique de Marselha (FRA), em que é titular, além da participação nos Jogos Olímpicos de 2012, Copa das Confederações de 2013 e Copa do Mundo de 2014. Em 2018 ele atuou os 90 minutos da vitória por 2 a 1 sobre a Colômbia na abertura do Mundial da Rússia e deve estar em campo novamente neste domingo, às 12h (de Brasília), contra Senegal. Toda a história já é bem conhecida, mas há um capítulo na vida de Sakai pouco explorado. Esse capítulo aconteceu no Brasil.

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Há nove anos, Sakai estava longe do alto nível dos clubes europeus que vive atualmente ou do sonho de disputar uma Copa. Quanto mais duas! Há nove anos, Sakai era jogador do Mogi Mirim Esporte Clube, tradicional equipe do interior de São Paulo. A aventura durou um semestre da temporada 2009 e foi importante no aperfeiçoamento técnico do lateral-direito, que ficou no banco de reservas em oito partidas da Copa Paulista, treinava diariamente com jogadores brasileiros e teve convívio com ídolos do futebol nacional, como Rivaldo (presidente do clube), Cléber (gerente de futebol), César Sampaio (diretor de futebol) e Velloso (técnico).

Reprodução
Hiroki Sakai e Kosuke Taketomi, os dois japoneses que atuaram pelo Mogi em 2009 Imagem: Reprodução

Em contato com o UOL Esporte, o ex-goleiro lamentou não ter muitas lembranças do tempo em que treinou Sakai no Mogi Mirim, mas o ex-volante tem essa época ainda fresca na memória. "Lembro, sim, do Sakai. Ficou com a gente entre seis e oito meses. Ele veio para um período de estágio ao lado de outro japonês através de um contato que eu tenho no Japão chamado Kimura  Kiyotaka. Ele era do Kashiwa Reysol nessa época, cresceu muito aqui", conta César Sampaio.

Sakai, então aos 18 anos, atuava na base do Kashiwa Reysol quando foi cedido ao Mogi Mirim e depois voltou direto para o elenco profissional do clube japonês. Ele viveu essa aventura no Brasil ao lado do atacante Kosuke Taketomi, um ano mais novo, e que hoje defende o Urawa  Reds, clube dirigido pelo técnico brasileiro Oswaldo de Oliveira. Taketomi, conhecido no elenco do Mogi como Kai, não foi relacionado para nenhum jogo no futebol brasileiro, enquanto o amigo não jogou, mas esteve no banco várias vezes com a camisa 13 ou 14.

"Todo dia era uma surpresa", diz ex-companheiro

Jason Cairnduff/Reuters
Sakai divide com colombiano Izquierdo no primeiro jogo da Copa do Mundo, em 19 de junho Imagem: Jason Cairnduff/Reuters

Léo Paraíba jogou com Sakai no Mogi Mirim. Formado nas categorias de base do Botafogo-PB, ele também vivia a primeira experiência longe de casa aos 19 anos. Ainda que não fosse tão longe quanto Sakai, se sentia um estranho no ninho e ficou próximo dos garotos japoneses que também moravam debaixo das arquibancadas do estádio do Mogi. O brasileiro é cheio de lembranças do convívio com o atual lateral da seleção do Japão. "Nossa relação era tipo uma aventura, porque todo dia era uma surpresa", diverte-se o jogador hoje sem clube.

Sakai e Taketomi aprenderam português de duas maneiras, principalmente: pela música e pelos palavrões. O jogador da seleção japonesa, de acordo com os relatos, gostava muito de ouvir Exaltasamba e o cantor Thiaguinho, que na época bombavam com o hit "A Gente Bota Pra Quebrar", que diz "Lê, lê, lê, lê, lê, lá em casa, lê, lê, lê, lê, lê, na cama". Os companheiros ensinavam os versos e os japoneses saíam cantando nas concentrações, treinos e viagens. 

"Eles aprenderam muito palavrão também. Às vezes nós dizíamos naturalmente nos treinos, tipo "Porra, acerta o passe", "C...,  Sakai!". Depois eles vinham perguntar o que era e a gente respondia. Com o decorrer do tempo eles foram pegando também e sacaneavam: "Porra, Léo!", para criticar mesmo. Eles se soltavam", conta o ex-companheiro.

Sakai era dependente, mas viciado em... supermercado

Os japoneses também passavam boa parte do tempo em que não estavam treinando dentro do quarto no alojamento, geralmente mexendo no computador e se comunicando com a família e os contatinhos no Orkut. Pela dificuldade da língua, eles só saíam do clube quando tinham companhia. E adoravam ir ao supermercado. "Ô dois carinhas para ir no mercado!", ri  Léo Paraíba. Sakai era um consumidor voraz de macarrão instantâneo, mas só comia do picante, do sabor tradicional acrescido de pimenta. 

"Ele tinha no quarto aquela panela que esquenta água e deixa o miojo pronto, não precisava fazer nada. Só tinha miojo no quarto dele. Aí comia com os palitinhos e não sofria nada", diz o ex-companheiro, que lembra de  várias idas de Sakai e Taketomi às praças de Mogi Mirim para tomar sorvete: "Ele dependia da gente para tudo, mas ajudávamos com gosto."

Boris Horvat/AFP
Lateral-direito foi titular do Olympique de Marselha nas duas últimas temporadas e vive boa fase Imagem: Boris Horvat/AFP

Sakai e Taketomi deixaram o Brasil em 2010. Deixaram presentes para os amigos brasileiros, como chuteiras e roupas de marca, e iniciaram trajetória entre os profissionais do Kashiwa Reysol valorizados. Léo Paraíba nunca mais teve contato com nenhum deles, mas sonha com o reencontro: "tenho esperança de encontrar ele um dia de novo. Não sei se vamos bater um papo, porque não sei como está o português dele, mas éramos amigos aqui, ele vai se lembrar de mim."

Talento desenvolvido que encantou Muricy no Santos

Sakai, de acordo com relatos de quem conviveu com ele no Mogi Mirim, era um jogador muito dedicado nos treinos, de boa marcação e chegada à frente. O problema eram mesmo os fundamentos técnicos: não tinha muita condução de bola, drible ou qualidade de passe, mas foi aprimorando ao longo da passagem pelo futebol brasileiro. Tanto é que voltou ao Japão já no elenco profissional do Kashiwa, um dos clubes mais tradicionais do país. E dois anos depois de jogar no Mogi, Sakai esteve perto de voltar ao Brasil. Desta vez com outro status, para defender o Santos.

Sakai foi titular do Kashiwa no Mundial de Clubes de 2011, quando os japoneses foram eliminados pelo Peixe nas semifinais. Durante o torneio, no entanto, o lateral-direito chamou atenção do técnico Muricy Ramalho, que indicou a contratação ao Santos. O conhecimento da língua portuguesa e o passado no futebol brasileiro convenceram o Santos a apostar em sua contratação para o lugar de Danilo, negociado com o Porto. Sim, o mesmo Danilo que está na Copa do Mundo pela seleção brasileira. 

O Kashiwa Reysol recusou a proposta do Santos por Sakai pensando que ele, então aos 21 anos, poderia se valorizar nas Olimpíadas de 2012. Acertou. Depois de um ano ele foi vendido ao futebol alemão e em 2016 comprado por 2 milhões de euros pelo Olympique de Marselha. E tudo começou no Mogi Mirim...

Toru Hanai/Reuters
Mundial de Clubes de 2011 opôs santista Neymar e Sakai, que chegou a negociar com o Peixe Imagem: Toru Hanai/Reuters

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