Copa 2018

Por que o choro do Panamá emociona, mas o do Brasil é criticado?

Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Ao lado de Jaime Penedo, o capitão do Panamá Román Torres chorou durante hino do país na estreia Imagem: Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

23/06/2018 21h00

O choro é uma descarga emocional que pode ter diversas razões. Também são muitas as interpretações possíveis para o choro de uma pessoa. As lágrimas de Neymar depois da vitória da seleção brasileira contra a Costa Rica nos acréscimos, por exemplo: fraqueza emocional ou desabafo comovido? E o choro de Román Torres, capitão do Panamá, durante a execução do hino do país que disputa sua primeira Copa do Mundo: nervosismo ou honra? No Brasil, especialmente dentro do universo das redes sociais, Neymar pode ser visto como frágil e a seleção, como chorona. Enquanto isso, a emoção de Torres é simbólica para o torneio.

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"É um momento único, não tem explicação. Não há como manter-se neutro. Eu sei que todos os panamenhos agiram assim também", diz, ao UOL Esporte, Miguel Angel Remon, outro personagem do Panamá que foi às lágrimas - seu choro viralizou durante a Copa do Mundo.

Remon é comentarista esportivo da RPCTV, do Panamá, e chorou ao lado do narrador David Samudio nos estúdios da emissora que transmitia a primeira rodada da Copa do Mundo quando o hino do Panamá começou a ser tocado na Rússia, antes da partida contra a Bélgica, em 18 de junho. A dupla de jornalistas se emocionou, vibrou, se abraçou e desabafou ao mesmo tempo em que os jogadores também mostravam sinais de emoção em campo. É um choro "mais relevante" que o choro do brasileiro?

Em relação à seleção brasileira, o choro está estigmatizado. Na Copa de 2014, Júlio César, Thiago Silva, David Luiz e Neymar foram muito criticados por derramarem lágrimas em momentos cruciais, como antes e depois da disputa de pênaltis com o Chile nas oitavas de final e durante a execução do Hino Nacional que antecedeu a goleada de 7 a 1 sofrida para a Alemanha na semifinal. Os gestos foram vistos como demonstração de fraqueza emocional da seleção e criticados por personalidades do esporte como o alemão Lothar Matthaus, que disse nunca ter visto "nada tão nefasto quanto a linguagem corporal desta equipe."

Para 2018, o estado emocional dos jogadores do Brasil seguiu em discussão. Na primeira rodada, contra a Suíça, a câmera da transmissão oficial da Copa do Mundo focalizou o rosto de Thiago Silva por mais tempo que o restante dos jogadores da seleção. O zagueiro não chorou. Na segunda rodada, a dramática vitória sobre a Costa Rica, com dois gols marcados nos acréscimos, levou Neymar aos prantos. "Ney, levanta. Vambora. Parou, parou", disse o lateral-esquerdo Marcelo ao camisa 10 da seleção, quando o viu desabado no gramado.

Reuters
Autor do segundo gol contra a Costa Rica, Neymar chorou copiosamente após o fim da partida Imagem: Reuters

"Há o choro que emociona, de atribuição de sentidos e de conexão com a pátria, o sentimento de nacionalismo. E há o choro que desequilibra emocionalmente, que gera uma sensação de ansiedade, que diminui os fatores e padrões de concentração. Tudo isso deve ser trabalhado psicologicamente para que esse choro seja uma reconexão importante e tranquila, equilibrada, com aspectos da pátria, de representatividade de uma nação. E não uma associação com pressão, com algo que vá gerar um componente emocional negativo e destrutivo para a performance do atleta", diz o psicólogo esportivo João Ricardo Cozac, que vê diferenças entre o significado do choro panamenho e do choro brasileiro, especialmente em 2014.

"Na Copa do Brasil, percebíamos que o choro dos atletas era de medo, ansiedade, pavor em alguns momentos, enquanto o choro do Panamá e da Tunísia têm uma representatividade mais forte em termos de nação, de orgulho. O hino naquele momento, para as equipes que não têm tanta expressão, é a possibilidade de apresentar teu país, ter um sentimento nacionalista de orgulho, de representar um país que nunca foi a uma Copa do Mundo e se conecta com a nação, o esforço daquele grupo de jogadores para chegar lá. É uma emoção de conexão com os fatores culturais, nacionais, de origem e de alegria de representar o país. É uma sensação bem mais leve do que como foi aqui no Brasil quando a seleção escutou o hino e as emoções foram muito mal trabalhadas", acrescenta, Cozac, presidente de Associação Paulista da Psicologia do Esporte.

A citação à Tunísia diz respeito aos momentos que antecederam a partida contra a Bélgica neste sábado, pelo Grupo G. O técnico da seleção africana, Nabil Maaloul, chorou copiosamente durante a execução do hino tunisiano e centralizou a atenção das câmeras antes do jogo que terminou 5 a 2 para a seleção da Europa. Maaloul abraçou os companheiros da comissão técnica, manteve-se emocionado até o fim da melodia e depois baixou a cabeça e enxugou as lágrimas para se concentrar para a partida. Ele classificou a Tunísia para a Copa do Mundo pela primeira vez desde 2006.

Outro que chorou foi o atacante mexicano Chicharito Hernández, um dos destaques da vitória sobre a Alemanha na primeira rodada do Mundial. Foi uma cena parecida com a Neymar contra a Costa Rica. Uma descarga emocional após meses de críticas sofridas por ele e seus companheiros da imprensa e torcida.

Kai Pfaffenbach/Reuters
Imagem: Kai Pfaffenbach/Reuters

O choro (e a vitória que o precedeu) faz parte de uma reprogramação mental que o México passou sob o comando do técnico colombiano Juan Carlos Osório. O time sempre marcado pelo "jogou como nunca, perdeu como sempre" fez trabalho com um profissional de coaching espanhol que inseriu na mentalidade dos atletas que eles eram, sim, capazes de vencer qualquer time. Em entrevistas prévias, inclusive, Chicharito confrontou um jornalista que o dizia que o México não estava no nível de seleções campeãs mundiais. "Por que não podemos pensar em coisas positivas, c...?", respondeu com um xingamento.

Será que o choro de Neymar foi motivado pelo mesmo pensamento positivo?

A Copa das lágrimas divide opiniões.

Grigory Dukor/Reuters
Nabil Maaloul chorou durante a execução do hino da Tunísia antes de jogo contra a Bélgica Imagem: Grigory Dukor/Reuters

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