Copa 2018

Gesto político em campo: neutralidade da Suíça e chances do time em xeque

Xhaka e Shaqiri: comemoração polêmica pode prejudicar a Suíça na Copa do Mundo

Do UOL, em São Paulo

24/06/2018 21h00

Faces de uma Suíça contemporânea, que abrigou imigrantes de diversas procedências, Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri serão julgados pelo Comitê Disciplinar da Fifa em razão da polêmica comemoração de gols na partida contra a Sérvia. Assim, a dupla de jogadores de origem albanesa pode comprometer uma reputação nacional de séculos, baseada na neutralidade política, além de desfalcar uma das seleções-supresas da Copa, em caso de punição. 

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Xhaka e Shaqiri marcaram gols na virada da Suíça sobre a Sérvia na última sexta-feira e comemoraram com o mesmo sinal de mãos – simbolizando a águia de duas cabeças da bandeira da Albânia. Os dois jogadores têm relações familiares com o Kosovo, região que tem a população de maioria com origem albanesa, compreendida no território sérvio e que reclama independência há mais de uma década.

No domingo, a Fifa anunciou que estendeu a investigação ao lateral Stephan Lichtsteiner, que acompanhou os dois colegas de time ao comemorar também usando o gesto da águia de duas cabeças. 

A Fifa não tolera atos de conotação política dentro dos torneios que organiza e, assim, julgará o comportamento dos três suíços. O resultado da avaliação disciplinar será divulgado nesta segunda-feira, e Xhaka, Shaqiri e Lichtsteiner podem ser suspensos das próximas partidas. A Suíça, que luta pela classificação para as oitavas no Grupo E, enfrenta a Costa Rica na quarta.

Após o jogo com a Sérvia, Shaqiri confirmou que o gesto foi uma atitude política, mas preferiu não polemizar. "Não quero falar sobre isso. No futebol, você tem emoções à flor da pele. São só emoções. Não é nada mais que isso, não precisamos falar disso", afirmou o atacante, que costumar usar a bandeira do Kosovo em uma de suas chuteiras.

A independência é reconhecida por 111 dos 193 membros da Organização das Nações Unidas (ONU), como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França. O Brasil não reconhece Kosovo como país, assim como Rússia e China. Na seleção suíça que disputa a Copa, além de Xhaka e Shaqiri, o meia Valon Behrami também tem origem kosovar/albanesa.

Neutralidade política é a base do estado suíço

As manifestações de cunho político de Xhaka e Shaqiri contrastam com a identidade histórica do estado suíço. O país tem uma longa tradição de neutralidade em questões internacionais complexas, em postura que permite que a nação seja sede de uma série de entidades e organismos multinacionais, incluindo a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional (COI).

A neutralidade suíça se consolidou principalmente em razão do Congresso de Viena, em 1815, quando quatro potências europeias vitoriosas sobre a França de Napoleão Bonaparte se reuniram para reorganizar o continente: Rússia, Inglaterra, Prússia e Áustria. Naquele momento, o continente vinha de um período complicado de revoluções e conflitos. Neste encontro, estabeleceu-se a identidade neutra suíça como chave para as relações das nações da região a partir dali.

Um século depois, apesar da posição geográfica estratégica no mapa do continente europeu, a Suíça conseguiu se manter neutra durante as duas grandes guerras mundiais. Mesmo assim, cercada de países envolvidos em ambos os conflitos, o território suíço foi palco de intensa atividade de espionagem e diplomacia durante os dois períodos em questão.

Reprodução
Shaqiri exibe bandeiras da Suíça e do Kosovo ao comemorar um título quando defendia o Bayern Imagem: Reprodução

Xhaka e Shaqiri: o melhor da Suíça em talento individual

Dentro de uma seleção consagrada nos últimos tempos pelo poder de se defender, Xhaka e Shaqiri se destacam pelo talento técnico e capacidade de chegar na área adversária. Foi através da individualidade da dupla que a Suíça conseguiu reverter uma partida dura contra a Sérvia na segunda rodada. Caso sejam punidos pela Fifa, os dois suíços serão baixas sensíveis para o time, que também conta com o zagueiro Fabian Schar como liderança técnica. 

Granit Xhaka é membro da seleção que venceu o Mundial Sub-17 de 2009, na maior façanha da história do futebol suíço, em campanha que incluiu uma vitória sobre o Brasil de Neymar, Casemiro e Philippe Coutinho. Desde 2016 o meia suíço de origem kosovar defende o Arsenal na Premier League. 

Já Xherdan Shaqiri acumula passagens por gigantes da Europa como Bayern de Munique e Inter de Milão e atualmente defende o Stoke City na Premier League inglesa. Pela seleção, se gaba de ter feito quatro gols em Copas, incluindo os três na vitória sobre Honduras em 2014, no Brasil. O atacante anotou ainda um dos gols mais bonitos da Euro de 2016, com uma bicicleta de fora da área diante da Polônia.

Após o empate com o Brasil e a vitória sobre a Sérvia, a Suíça soma 4 pontos e aparece no segundo lugar do Grupo E. A seleção de Xhaka e Shaqiri assegurará a classificação para as oitavas de final em caso de triunfo sobre a Costa Rica – neste caso sem depender do resultado do duelo de brasileiros e sérvios, no mesmo horário.

Sobre a mesma partida em análise, o Comitê Disciplinar da Fifa decidiu também investigar distúrbios e mensagens políticas e ofensivas por parte da torcida sérvia. Por isso, a entidade também abriu procedimento contra a Associação de Futebol da Sérvia. Já o técnico Mladen Krstajic é alvo de investigação preliminar devido a supostas declarações políticas que teria feito após o jogo. Na ocasião, o profissional comparou o uso do árbitro assistente de vídeo à Corte Internacional de Justiça, que condenou líderes iugoslavos por ocasião dos conflitos nos Bálcãs nos anos 90.

A Fifa que vai analisar a presença de Xhaka, Shaqiri e Lichtsteiner na sequência da Copa é dirigida atualmente pelo suíço Gianni Infantino. 

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