Rússia

Hoje embalada, Rússia foi presa fácil de times brasileiros na época de URSS

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Soviéticos fizeram sete jogos no Brasil entre janeiro e fevereiro de 1966, com quatro derrotas Imagem: UOL

Emanuel Colombari

Do UOL, em São Paulo

24/06/2018 21h00

Anfitriã da Copa do Mundo de 2018, a Rússia começou o torneio sob desconfiança internacional em campo. Afinal, era dona do pior ranking entre as 32 seleções do torneio (70ª posição), vinha de sete jogos sem vitórias e da eliminação na fase de grupos da Copa das Confederações 2017. Mas bastaram duas vitórias nas duas primeiras partidas do Mundial e a vaga antecipada às oitavas de final para que os anfitriões se empolgassem.

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O cenário é novo para a Rússia após o desmembramento da União Soviética. Nas três edições de Copa do Mundo que disputou como país independente (1994, 2002 e 2014), foi apenas uma coadjuvante eliminada ainda na fase de grupos. Um retrospecto bem distante dos tempos em que a seleção da URSS entrava em campo, certo?

Bem, sim e não. A seleção da União Soviética disputou sete vezes a Copa do Mundo, e só foi eliminada na fase de grupos na última delas, em 1990. Em todas as outras, passou sempre de fase, tendo como melhor resultado o quarto lugar na Copa do Mundo de 1966, disputada na Inglaterra.

Mas o que pouca gente sabe – ou se lembra – é que boa parte da preparação soviética para aquele Mundial foi realizada por aqui, jogando contra clubes brasileiros. E o que a imprensa da época registrou parece surpreendente hoje em dia: Lev Yashin e companhia relaxadamente perdendo para Palmeiras, Corinthians e...Grêmio Maringá.

Primeira parada: São Paulo

O desembarque da delegação soviética ao Brasil foi capa do jornal A Gazeta Esportiva em 22 de janeiro daquele ano. Na primeira página, a publicação destaca o encontro de Lev Yashin, goleiro da URSS, com Vicente Feola, técnico da seleção brasileira. No encontro, segundo o jornal, Yashin disse a Feola que “jogar no Brasil é aprender futebol”.

A seleção europeia chegou ao Brasil no início da tarde de 21 de janeiro, em um voo da Swissair que pousou no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Recepcionados por dirigentes brasileiros, os visitantes foram no mesmo dia ao estádio do Morumbi. Lá, Vicente Feola e Lev Yashin conversaram amistosamente, graças à ajuda preparador-físico da União Soviética que falava – nas palavras da matéria de A Gazeta Esportiva – um “português acastelhanado”.

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No bate-papo, Yashin se queixou do cansaço após um voo de 30 horas. Comentou ainda do frio que fazia em Moscou e perguntou do “amigo Bellini”, então zagueiro do São Paulo – os dois haviam estado nas Copas de 1958 e 1962, enfrentando-se na primeira.

“Está bem. Ficou contundido durante algum tempo, mas agora já está recuperado”, disse Feola.

“Está em forma? É um bueno jogador”, respondeu Yashin.

A chegada dos soviéticos a São Paulo teve ares de turismo. Logo no dia 21, a equipe jogou basquete no Morumbi e foi ao cinema assistir ao filme A corrida do século, com Tony Curtis, Jack Lemon e Natalie Wood. Dois dias depois, os soviéticos assistiram a 45 minutos de Palmeiras 3 x 2 Flamengo. A partida abriu um torneio quadrangular de pré-temporada, do qual fariam parte também Corinthians e a própria seleção soviética.

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E a estreia europeia não poderia ter sido mais feliz para os times brasileiros: no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, o Corinthians enfrentou os soviéticos no Morumbi e venceu por 3 a 1. Detalhe: em dezembro de 1965, a convite do jornal iugoslavo Sport, 14 jornalistas esportivos europeus elegeram a seleção da União Soviética como a mais forte do continente.

É bem verdade que a equipe poupou boa parte de seus principais nomes diante do Corinthians. Lev Yashin não jogou, dando lugar a Anzor Kavazashvili no gol. Já o atacante Slava Metreveli começou no banco de reservas e entrou no segundo tempo, substituindo Oleg Kopayev. Mas como o Corinthians não tinha nada com isso, venceu com autoridade. Marcou com Tales, aos 7 min do primeiro tempo; Dino Sani, em pênalti que ele mesmo sofreu aos 20 min do segundo tempo; e Rivellino, aos 40 min do segundo tempo. Aos 43 min, Valeri Voronin recebeu o passe de Metreveli e diminuiu.

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O segundo jogo dos soviéticos aconteceu em 29 de janeiro, no Pacaembu, contra o Palmeiras. Desta vez, o técnico Nikolai Morozov escalou força máxima. Resultado? Nova derrota, também por 3 a 1, com gols marcados todos no segundo tempo. Dudu abriu o placar aos 3 min, antes que Mikhail Meshki empatasse aos 6 min. Ademar recolocou o Palmeiras em vantagem aos 24 min, antes que Rinaldo convertesse um pênalti aos 27 min, dando números finais ao jogo.

Em 31 de junho, ainda pelo torneio, Corinthians e Flamengo empataram sem gols no Pacaembu. No mesmo dia, a seleção soviética embarcou para Minas Gerais, onde daria sequência a sua preparação. O Fla ainda tentou agendar um jogo contra os soviéticos, mas não conseguiu.

Desta forma, representantes de Palmeiras, Corinthians e Flamengo se reuniram na sede da Federação Paulista de Futebol para definir os rumos do torneio. Em 1º de fevereiro, o Palmeiras foi declarado campeão, com zero pontos perdidos em dois jogos. Corinthians (um ponto perdido), Flamengo (três pontos perdidos) e União Soviética (quatro pontos perdidos) completaram a classificação.

Próxima parada: Minas Gerais

Em fevereiro, a União Soviética chegou a Minas Gerais para a disputa de mais um quadrangular amistoso. Desta vez, o torneio previa jogos contra Cruzeiro e Atlético-MG – o Flamengo, presente à competição, mais uma vez não enfrentou os europeus.

O primeiro amistoso contra o Atlético-MG foi realizado na noite de 3 de fevereiro, uma quinta-feira, e a URSS finalmente mostrou força: vitória por 6 a 1, com cinco gols antes dos 30 min do primeiro tempo. Oleg Kopayev (4 min e 16 min), Galimzyan Khusainov (5 min) Igor Chislenko (20 min) e Mikhail Meshki (27 min) marcaram. No segundo tempo, Kopaiev marcou de novo aos 12 min, antes que Toninho descontasse aos 15 min.

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“A seleção das ‘neves’ atuou em velocidade, procurando sempre as penetrações do ponteiro esquerdo, ao tempo que Metrevelli ficava para lançar Kopayev, que esta noite jogou no comando do ataque, e soube prevalecer-se de seu arremate violento e colocado”, descreveu matéria de A Gazeta Esportiva do dia 4 de fevereiro de 1966. Também no dia 3, o Cruzeiro venceu o Flamengo por 6 a 2.

No domingo (6), a URSS enfrentou o Cruzeiro e voltou a vencer, mas com um placar mais magro: 1 a 0, gol de Valentin Ivanov. Os soviéticos encerraram o torneio de novo sem enfrentar o Flamengo, mas com o título desta vez.

Após os jogos em Belo Horizonte, o time comandado por Nikolai Morozov recebeu o convite para jogar em Uberlândia contra o time da casa. Assim, em 9 de fevereiro, a URSS foi ao estádio Juca Ribeiro e venceu o Uberlândia por 2 a 0 – Dunga (contra) abriu o placar aos 25 min do primeiro tempo, enquanto Eduard Malofeyev ampliou pouco antes do intervalo, aos 42 min.

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Última parada: rumo ao Sul

Na sequência do tour soviético, veio o jogo que soa mais inusitado nos dias atuais: contra o Grêmio Maringá, que vinha dos títulos de 1963 e 1964 no Campeonato Paranaense. Em 13 de fevereiro, encarou a União Soviética... E venceu por 3 a 2.

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Naquela partida, apitada pelo árbitro carioca Antonio Viug, o Grêmio Maringá entrou em campo com Maurício; Oliveira, Edson Faria, Pituca e Roderlei; Haroldo e Zuringue; Luis Roberto, Edgar, Célio e Vanderlei. Já a URSS do técnico Nikolai Morozov jogou com Yashin; Ponomariov, Chesterniov, Atonin e Guetsmanov; Voronin e Geisainov; Metrevelli, Ivanov, Banishevski e Meshki.

Diante da empolgada torcida maringaense, o time da casa abriu 2 a 0 no primeiro tempo: Luis Roberto inaugurou o marcador aos 17 min, enquanto Edgar ampliou aos 21 min. Só que os ilustres convidados empataram ainda antes do intervalo, graças aos gols de Banishevski aos 27 min e aos 44 min. No segundo tempo, aos 13 min, Edgar voltou a marcar e deu a vitória aos paranaenses, que celebraram levantando um troféu oferecido aos vencedores do amistoso.

Na despedida, em 16 de fevereiro, a URSS foi a Porto Alegre e perdeu para o Grêmio por 2 a 0, graças a dois gols de Alcindo. Assim, fechava sua pré-temporada no Brasil com sete jogos, sendo três vitórias e quatro derrotas. Para efeito de comparação, os soviéticos venceram seus quatro primeiros jogos na Copa do Mundo de 1966, perdendo para a Alemanha Ocidental nas semifinais. No jogo pelo terceiro lugar, diante de Portugal, foi novamente derrotada.

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Na Copa do Mundo, URSS foi até as semifinais; na disputa do terceiro lugar (foto), perdeu para Portugal Imagem: Bippa/AP Photo

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