Copa 2018

Longe da fama, "showman" da Copa de 86 faz documentários no interior de SP

Eduardo Carneiro e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

24/06/2018 04h00

Os mais velhos devem se lembrar de “Arakem, o showman”. Mas se você é mais jovem e não conhece, este é o nome de um personagem que, usando um termo atual, “viralizou” na década de 80. Seu auge foi quando estrelou as vinhetas que a Rede Globo colocava no ar nos intervalos dos jogos da Copa do Mundo de 1986 do México, sempre cercado por mulheres e provocando os adversários.

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O homem por trás do personagem é José Antônio de Barros Freire, de 63 anos. Ou, como ele mesmo prefere ser chamado, Barrinhos Freire. Diferentemente de 32 anos atrás, ele hoje acompanha o Mundial da Rússia da tranquila Porangaba, cidade de menos de 10 mil habitantes a 168 km de São Paulo, onde vive longe da fama e se dedica à verdadeira paixão: os documentários.

Como um bom contador de histórias, Barrinhos Freire relata em entrevista ao UOL como o antigo personagem surgiu, fez sucesso e acabou. Confira!

Início de carreira

Barrinhos Freire deixa claro que sempre foi documentarista e que era essa a profissão que exercia antes do “fenômeno Arakem” – e que inclusive o levou a abandonar o curso de direito. Ele decidiu estudar comunicação e passou por uma produtora na qual trabalhou nas mais variadas funções, colaborando inclusive com o “Globo Repórter”.

“Carregava lata, era office-boy, era assistente... Fui estudar e ali fui aprendendo tudo. Mas no meio do curso, pelo clima político que estávamos vivendo no Brasil, com pressões e ditadura, decidir ir embora”, conta. No período no exterior, ele esteve em Munique, onde acompanhou de perto o atentado terrorista que vitimou 11 membros da delegação de Israel na Olimpíada de 1972, na Suécia e na Inglaterra.

Nestas andanças, Barrinhos conta que “percebeu que o documentário era o caminho da educação e da cultura”. Assim que voltou ao Brasil, decidiu trabalhar de forma independente e colocou mais carimbos no passaporte, tendo visitado até o Polo Sul. Ao se aventurar por países africanos que estavam em processo de independência, porém, frustrou-se e se mudou para a Ilha de Itaparica, na Bahia. “Não ia conseguir mudar o mundo. Desisti de tudo”.

Surge o Arakem

Ser ator definitivamente não estava nos planos de Barrinhos Freire. Nos próprios documentários, diz, ele nunca aparecia - apenas atuava atrás das câmeras como produtor e/ou diretor. Alguns amigos cineastas, no entanto, o convidaram para fazer “coisinhas esparsas”, em longas-metragens como “O Homem que Virou Suco”, de João Batista de Andrade.

Em 1983, porém, a vida dele deu uma guinada depois de trabalhar, como voluntário, numa exposição do fotógrafo Pierre Verger exibida no Museu da Imagem e do Som em São Paulo, com o apoio da produtora dos amigos Mimito Gomes e José Amâncio.

“Quando fui à produtora para agradecer o convite antes de voltar para a Ilha de Itaparica, o Mimito Gomes me convidou para fazer um personagem como ator. Eles eram fornecedores da TV Globo e estavam à frente de uma campanha da nova programação, na qual cada anúncio teria um personagem diferente”.

A campanha foi idealizada por Alexandre Machado, roteirista de programas de sucesso da emissora como “Os Normais”. “Foi ele quem criou o nome ‘Arakem, o showman’, para brincar com um professor dele na época”, diz Barrinhos Freire. “A ideia era que fosse um galã global, alto, forte. Mas escolheram esse baixinho, inicialmente apenas para lançar a linha de novos shows da Globo”.

Fenômeno nacional

Mas o Arakem viria para ficar. As peças que hoje parecem até ingênuas (como você pode assistir nos vídeos ao longo do texto), com um personagem que mal falava, fizeram sucesso estrondoso e alçaram Barrinhos à fama. “Houve a identificação do telespectador exatamente porque ele não era galã, era um homem comum. Aconteceu por acaso. E a Globo antes apostava em outra imagem, de brilho, de lantejoulas. Quebrou um paradigma”, diz.

Orgulhoso, o documentarista relembra que o personagem também foi aproveitado para campanhas de interesse nacional, como doação de sangue, vacinação e leitura. Até que na Copa de 1986 o “Showman” vira “Golman” e alegra os torcedores nos intervalos das partidas, ora tirando sarro dos adversários da seleção – um clássico é o “corredor polonês”, em alusão à goleada sobre a Polônia -, ora criticando o desempenho do time. Tudo isso cercado de belas mulheres, que se encantavam com suas aparições surpreendentes.

Reprodução/Facebook Conservatório de Tatuí
Barrinhos Freire, em foto tirada em 2014 Imagem: Reprodução/Facebook Conservatório de Tatuí

“Foi um personagem que agradou a mulheres, homens, crianças... A Globo recebia uma quantidade considerável de cartas, e uma delas, enviada por uma pessoa do sertão de Sergipe, me emocionou. Dizia, em letra de garrancho, que todos da família gostavam de mim e rezavam por mim”, relembra.

Barrinhos diz que não foi difícil separar o personagem da pessoa. “Também tenho bom humor e sou brincalhão, e tenho o lado mais sério, compenetrado com os caminhos do país. Mas foi um trabalho que fiz com paixão, assim como as infinidades de outros trabalhos, de documentários”.

A esposa Ivete, com quem está casado há quase 35 anos e tem dois filhos e dois netos, também não foi problema. “Não havia ciúmes. Pelo contrário, ela sempre me incentivava a dar a sequência no trabalho, pois sabia da minha paixão pela comunicação”.

O fim de Arakem

Barrinhos, ou melhor, Arakem, ficou na Globo até 1988, quando foi para a extinta TV Manchete para ser a estrela dos intervalos da transmissão dos Jogos Olímpicos de Seul. “Estava traumatizado com o contrato da TV Globo, que era exclusivo. Eu tinha que ficar à disposição deles”, relembra. “Na Manchete, com mais experiência, fiz um contrato que só entregava as vinhetas e encerrava ali”.

Era a saudade de produzir os documentários que começava a bater. “Quando saía da Manchete, ia correndo para os meus documentários sobre patrimônio histórico. Meu trabalho como documentarista é de legado, para as atuais e futuras gerações do país. Já o Arakem era show, era circo”.

A decisão pelo fim de Arakem, portanto, foi do próprio homem que deu vida ao personagem. “O Boni (ex-diretor da Globo) mesmo me falou: não adianta chamar outro, que não vai emplacar. O personagem é seu. A última aparição foi mesmo em Seul. Muitas empresas me procuraram depois, mas o Arakem é um personagem porta-voz da educação e da cultura, uma projeção do Barrinhos, e não um personagem de consumo, que anuncia produtos. Sou anticonsumo”.

O hoje senhor de 63 anos também diz que não ganhou muito dinheiro com Arakem. “Foi um momento de tranquilidade. Tinha meu salário, não tinha preocupação”. E reforça que a decisão de parar de interpretá-lo não quer dizer que exista algum arrependimento. “Ficou marcado, né? Isso me dá um prazer muito grande. Sou reconhecido nas ruas até hoje, dou autógrafo. Estou no inconsciente coletivo de duas gerações. Foi deixada uma imagem muito boa”.

A vida atual

O antigo Arakem está longe dos holofotes. Em Porangaba, vive em uma casa próxima a uma nascente, com água pura, “coisa que só no interior você tem”. Nos documentários, seu principal projeto atual é “Porangaba, a Rota dos Tropeiros”. “Antes das ferrovias, tudo no país era transportado por tropeiros. É uma história lindíssima, que o brasileiro não conhece. Foram os animais, as mulas, os burros, que transportavam notícias, remédios e alimentos para o Brasil inteiro”, explica.

Arquivo pessoal
Barrinhos Freire se dedica atualmente à produção de documentários Imagem: Arquivo pessoal

Barrinhos Freire também esteve à frente do projeto que registrou o prato Virado a Paulista como patrimônio imaterial do Estado de São Paulo. Ele também atua, nas palavras dele, como “corretor de imóveis rurais” – dando dicas para pessoas que, como ele, querem trocar o agito da capital pela calma do interior.

Apaixonado por futebol e torcedor do 11 de Agosto de Tatuí (clube amador), ele também colocou os jogos da seleção brasileira na Copa sua rotina recente. “Vejo todos os jogos. Torço para que o hexa venha, quer queira ou quer não. Sem interpretações, sem misturar coisas”, afirma.

“Futebol é a alegria do povo. É um lenitivo para o sofrimento”, conclui aquele que, com um personagem carismático, leva isso há 35 anos.

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