Copa 2018

Ex-Corinthians diz que VAR muda dinâmica dos zagueiros: "virou outro jogo"

Simon Hofmann - FIFA/FIFA via Getty Images
Árbitro consulta o vídeo durante Dinamarca x Austrália, na Copa do Mundo Imagem: Simon Hofmann - FIFA/FIFA via Getty Images

Eduardo Carneiro e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

25/06/2018 20h00

Os craques da Copa do Mundo estão dividindo a atenção com três letrinhas que já revolucionam o futebol: VAR, a sigla em inglês para “Video Assistant Referee”, ou simplesmente o sistema de árbitro de vídeo.

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Desde que a bola rolou na Rússia, a tecnologia foi consultada para validar ou anular gols, rever lances faltosos passíveis de cartão e, principalmente, para definir a marcação ou não de pênaltis.

O Mundial de 2018, ainda na primeira fase, já contabiliza 19 penalidades assinaladas, superando o recorde da edição de 1990, que, com 18, era a que teve mais penais na história.

O VAR, portanto, virou um “monstro” para os zagueiros? Como esta influência externa está mudando e vai mudar a forma dos jogadores da posição atuarem? Que precauções eles devem tomar? Fomos atrás das respostas:

"Cobaia", Leandro Castán diz que falta critério

Se o VAR ainda é novidade para muitos jogadores, este não é o caso de Leandro Castán. O ex-zagueiro do Corinthians atua no futebol italiano (Cagliari, emprestado pela Roma), que foi pioneiro no uso do sistema de vídeo, e ainda não se convenceu de que a iniciativa foi boa.

“Virou um outro jogo. Foi uma mudança muito brusca”, afirmou o jogador, que, embora admita que houve melhoras desde que a tecnologia foi adotada, em meados do ano passado, ainda apresenta uma lista grande de pontos negativos.

ALBERTO PIZZOLI/AFP
Imagem: ALBERTO PIZZOLI/AFP

Primeiramente, Castán afirma que se perdeu muito tempo na análise de lances que, na visão dele, deveriam ser decididos exclusivamente pelo árbitro de campo. “Usaria o VAR por exemplo se um jogador recebe uma cotovelada e ninguém vê, mas a câmera mostra. Eu sou a favor do jogo limpo. Mas na Itália levavam cinco minutos para definir se houve um toque na área ou não, e com o árbitro lá perto. Agora melhorou a questão do tempo, mas é complicado”.

O ex-corintiano também chama atenção para o que considera uma falta de critério do árbitro de vídeo e sua utilização, citando o polêmico lance de Miranda e Zuber na partida entre Brasil e Suíça na Copa do Mundo – o brasileiro diz ter sido empurrado pelo suíço, que marcou de cabeça e teve o lance validado.

"A gente fica de mãos atadas. Uma hora veem um toque de um milímetro e marcam pênalti. Outra, como no caso do Miranda, todo mundo viu que ele foi empurrado, mas o VAR não é usado. E se fosse o contrário? Se ele empurrasse e o árbitro vai lá e marca pênalti? A gente acaba não entendendo. Não se sabe se pode dar uma ‘empurradinha’ com o ombro. Não é falta, mas vendo no vídeo podem achar que é".

Fato é que Castán já está mudando a forma de atuar em virtude dos olhos da tecnologia. “Tem que mudar os gestos na marcação dentro da área, para tentar um jogo de corpo por exemplo, porque você sabe que qualquer coisa pode acontecer. Em câmera lenta pode parecer que é pênalti. É preciso evitar o choque”, afirma. “E na hora de antecipar, há um pouco de receio, digamos assim. Precisa só pegar a bola, porque se encostar no cara e ele cair o vídeo pode dizer que foi pênalti”.

O zagueiro do Cagliari também critica a necessidade de evitar a todo custo tocar a bola com a mão ou o braço dentro da área, temendo que a arbitragem considere intencional. “Você tem que tentar esconder os braços dentro da camisa (risos). Tem atacante que não quer mais driblar, ele tenta chutar a bola na sua mão”.

Leandro Castán esclarece que tem achado a experiência do VAR positiva no Mundial em linhas gerais, bem superior ao início na Itália. “Lá fomos meio que cobaias”, relembra. “Se for para o bem do futebol, tem meu apoio total”. Mas este dia ainda não chegou. “Tem todos estes prós e contras. E mesmo com o VAR, os erros continuam, e a gente fica mais revoltado ainda. Para mim o futebol é sem VAR”.

Fim do "agarra-agarra"?

SAEED KHAN/AFP
Imagem: SAEED KHAN/AFP

E os ex-zagueiros? Será que consideram o VAR um “monstro”? Ricardo Rocha, atualmente comentarista da Fox na Copa e coordenador de futebol do São Paulo, discorda. “Não é um monstro. Sabe por quê? Estão com uma mania de falar de busca por espaço (na marcação dentro da área), mas os caras agarram escandalosamente. Amigo, isso é pênalti. Tem horas que você vê o replay e aquilo ali é caratê, jiu-jitsu, judô. Tudo, menos luta por espaço”, diz o ex-jogador de Santos, Fluminense, São Paulo, Real Madrid, Vasco e seleção brasileira. 

Para ele, o VAR pode ajudar (e até obrigar) os zagueiros a marcarem de outra maneira. “É um quesito a mais para se preocupar. Segurar um pouquinho é uma coisa, mas só nessa Copa foram cinco, seis lances de pênaltis escandalosos. O zagueiro tem que treinar marcação, posicionamento, mudar isso”, afirma, fazendo um mea-culpa na sequência. “Não quero dar uma de bonzinho, não. Também já segurei, fiz pênalti, e o juiz não marcou. Mas a gente fala tanto em moralização... O VAR vem para ajudar a melhorar isso”.

Márcio Santos, titular do Brasil na conquista do tetra em 1994, também chamou a atenção para a questão do “agarra-agarra”. “Nunca fui a favor disso. Tinha confiança na minha impulsão e quando vinha a bola eu me posicionava bem e evitava o choque. O VAR vai ajudar a fazer isso acabar”.

O ex-zagueiro de Inter, São Paulo, Santos, Ajax, Fiorentina, dentre outros, analisou especificamente o lance de Miranda na estreia do Brasil na Copa da Rússia e viu mais falha do jogador do que erro de arbitragem. “Eu não ficaria nem na frente nem atrás, estaria ombro a ombro, colado no suíço. Acho que foi distração, e em Copa do Mundo isso pode ser fatal”, comentou ele.

Mauro Galvão, ídolo de Vasco e Grêmio e titular do Brasil na Copa de 1990, dá dicas para os zagueiros evitarem as penalidades. “Dentro da área é um lugar que você tem que procurar cercar. Todo o zagueiro de bom nível tem que ter a atenção. Entrou dentro da área, você não pode combater o atacante como combate fora da área, porque se der algum problema vão acabar dando o pênalti. E também ter o cuidado de deixar os braços numa posição em que eles fiquem colados no corpo. Venho notando que muitos zagueiros já fazem isso”.

Márcio Santos conclui que o árbitro de vídeo muda muito mais a forma de jogar dos atacantes do que dos defensores. “O VAR intimida o zagueiro, mas o atacante não, que vai para a jogada no mesmo ritmo. Num escanteio, o atacante é sempre o primeiro a ir de encontro com a bola. O zagueiro que não tem recurso vai ter dificuldade em lances assim. E, para mim, zagueiro que fica agarrando não tem confiança”.

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