Copa 2018

Russa assediada diz que este é comportamento padrão: "não é só nesta Copa"

Arquivo pessoal
Jornalista fazia um vídeo quando brasileiro tentou beijá-la a força Imagem: Arquivo pessoal

Felipe Pereira

Do UOL, em Kaliningrado (Rússia)

26/06/2018 04h00

No dia 19 de junho, Barbara Gerneza, 24 anos, foi cercada por um grupo de brasileiros que cantavam uma música machista. Jornalista russa que viveu no Brasil, ela compreendia português, mas não entendeu exatamente o que eles gritavam - a música mencionava algumas vezes o órgão sexual feminino e sugeria um pedido de sexo oral.

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Trabalhando para o portal de internet IG, ela filmava com seu celular a movimentação. Após tentar entrevistar um dos brasileiros, o homem tentou beijá-la. “Não gostei porque ele queria me beijar. Um grupo grande de homens queria tirar vantagem da situação”, contou a garota, em entrevista ao UOL Esporte.
Foi apenas um dos muitos casos de assédios a mulheres que estão sendo reportados na Rússia durante a Copa do Mundo. "Eu gravei e todo mundo descobriu. Agora, na época de internet, as coisas ficam expostas. Todo mundo grava as coisas e por isso nós sabemos. (Assédio) Não é só nesta Copa do Mundo”, analisa.

Conversa com os pais

Logo após o ocorrido, ela contou o episódio aos pais. Era uma medida para que eles não ficassem chocados com o que ela sofreu. Segundo ela, a violência não é exclusiva dos torcedores que a assediaram. “Não só brasileiros. Tenho certeza que torcedores russos se comportam assim quando estão fora do país. Eles não têm este direito de beijar mulher quase a força. Acontecem milhões de situações (assim) no mundo. Acho que todos os torcedores querem pegar meninas quando estão bêbados.”

O IG identificou o agressor como Alfredo Cardoso Daumal Miranda. O Fantástico, da Globo, conversou com Barbara horas antes da entrevista ao UOL Esporte e conseguiu encontrar Alfredo e o grupo de torcedores que aparece no vídeo – o grupo de 14 homens viajava pela Rússia durante a primeira fase do Mundial.

reprodução/iG
O torcedor brasileiro Fred Miranda tentou beijar a jornalista Barbara Gerneza à força Imagem: reprodução/iG

Na matéria, sem saber que o vídeo publicado por Barbara mostrava a tentativa de beijar a repórter, ele fez uma pergunta ao repórter do Fantástico: “somos pais de família. Ninguém assediou ninguém, nós não tocamos ninguém. Por que ela não se mostra na imagem?”

Ao contrário do que ele insinua, a jornalista russa mostra o rosto durante a gravação, justamente no momento em que Fred tenta beijá-la. Outro homem envolvido no vídeo se identifica apenas como Osvaldo: “ser advogado do diabo é fácil. Somos todos homens, ninguém aqui é besta. Todo mundo veio para se divertir. Fizeram uma filmagem errada, não sei quem foi, só que nós vamos pra cima dessa mulher. Ela vai ter que explicar porque nos filmou”, afirmou ao Fantástico.

Choque tardio

A jornalista diz que, na hora, não percebeu o que estava acontecendo, já que fazia apenas seu trabalho de mostrar a movimentação de torcedores no país da Copa para o portal brasileiro. Ela fala português porque morou cinco meses em São Paulo no início do ano, mas estava tão focada no trabalho e em gravar os brasileiros cantando que não prestou atenção na letra. Explica que funk tem palavras difíceis para um estrangeiro.

Barbara se deu conta do que estavam cantando mais tarde, quando mostrou o vídeo a amigos russos. Ela afirma que tudo aconteceu porque torcedores bêbados em Copa do Mundo se sentem no direito de fazer o que não fazem em seus países.

Demitir assediador “foi exagero”

A tentativa de beijo forçado é reprovada por Barbara, mas ele vê exagero na demissão de torcedores que agem desta maneira. Em outro vídeo que viralizou, vários agressores foram punidos e um deles acabou demitido pela empresa aérea em que trabalhava. “Eu li esses artigos. Achei exagerado demitir as pessoas”.

Apesar de sofrer assédio por parte dos brasileiros, a jornalista não passou a odiar o Brasil. “Esta situação não pode mudar os sentimentos que eu tenho pelos cinco meses que morei lá. É um período longo para perceber o que é um país. Em São Paulo, a questão de racismo e gêneros é livre. A cidade é receptiva”.

A jornalista também não deixa de gostar de futebol. Barbara foi iniciada no esporte pelo pai aos 9 anos e é apaixonada. A relação com o clube faz parte da vida familiar e ela conta que passa muito tempo discutindo futebol com o pai.

Os outros casos

No fim de semana, uma repórter da Globo sofreu um caso parecido. Júlia Guimarães fazia uma passagem em frente ao estádio de Ecaterimburgo quando um homem se aproximou e tentou beijá-la. Ao vivo, a brasileira se esquivou da aproximação e deu uma bronca no agressor: "Nunca mais faça isso. Nunca mais faça isso com uma mulher. Eu não permiti que você fizesse isso", disse Julia, que ainda acrescentou: "Respeito".

Antes, a colombiana Julieth Gonzalez Theran foi agarrada e beijada no rosto por um homem quando fazia uma passagem em uma praça de Moscou e uma repórter argentina foi cercada por três torcedores do mesmo país que tentaram beijá-la enquanto ela tentava entrevista-los.

Além disso, casos que não envolviam jornalistas também causaram revolta. O que ganhou mais repercussão envolvia uma série de brasileiros incentivando uma russa a gritar junto com eles palavras que ela não entendia, mas eram ofensivas sobre o órgão sexual feminino. Em outros vídeos, torcedores incentivam russos a repetir xingamentos ou palavrões que representam órgão sexuais.

Torcedores de outras nacionalidades gravaram vídeos fazendo o mesmo. Um argentino teve sua credencial de torcedor cancelada, o que o proíbe de entrar nos jogos da Copa. Ele pediu desculpas pelo ato.

No Brasil, além da demissão do funcionário da empresa aérea, Ministério Público, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e Itamaraty avisaram que podem punir os agressores. Na esfera do futebol, a organização da Copa não se manifestou sobre o assunto, mas Maria Sol Muñoz, única sul-americana do conselho da Fifa, classificou os episódios como vergonhosos. Ela lembrou que houve sanção da Fifa para torcedores argentinos que agrediram croatas dentro do estádio, mas não sabe se houve sanção pelo assédio que ocorreu fora dos estádios. "Oxalá que tenha havido punição porque respeito merecemos todos”.

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