Brasil

Thiago Silva se reafirma na seleção na cidade onde quase perdeu a vida

Arquivo Pessoal
Thiago Silva posa com camisa do Dínamo Moscou em chegada à Rússia, em 2005 Imagem: Arquivo Pessoal

Luiza Oliveira e Pedro Ivo Almeida

Do UOL, em Moscou e Sochi (Rússia)

26/06/2018 04h00

Thiago Silva chegou em Moscou na noite de segunda (26) para um jogo decisivo de Copa do Mundo. Só ele sabe dizer o que se passa na cabeça, mas é possível que a chegada à capital russa traga alguma lembrança de dor e renascimento. Assim como a seleção brasileira e a Copa do Mundo. Quatro anos atrás, ele dificilmente poderia imaginar que seria titular em uma Copa novamente, quanto mais capitão de novo. Treze anos atrás, ele não tinha certeza que estaria vivo.

Thiago volta à cidade onde viveu o pior momento de sua vida. Contraiu uma grave doença e chegou a ficar desacreditado para o futebol. Sozinho, passou por sua grande prova de superação na vida.

 “Eu, sinceramente, não sei de onde ele tirou forças para suportar a situação. Para passar o que ele passou, ele tem de ser forte. Em um total de cem pessoas, eu acho que 60 iam desistir porque ele teve coragem, um valor, ele segurou as pontas. As pessoas não têm noção do que ele passou. Falam que ele é fraco. Como vai ser fraco com a trajetória que ele tem?”, diz o técnico Ivo Wortmann, fundamental na recuperação do zagueiro.

Thiago chegou ao Dínamo Moscou em janeiro de 2005 e foi para uma pré-temporada em Lisboa, em Portugal. Ele estava na flor da idade, com só 21 anos, mas algo estava errado. Thiago estava sempre cansado, abaixo dos outros companheiros. Um exame detectou um diagnóstico incomum: tuberculose.

O tratamento parecia simples, mas se complicou. O jogador foi internado no hospital Centro Científico e Prático de Controle da Tuberculose da Cidade de Moscou, no bairro de Solkoniki, em Moscou, e lá permaneceu por quatro meses. As instalações eram precárias, e ele mal podia circular em um quarto minúsculo, de cerca de 10 m².

Marcus Mesquita/UOL
Sede do hospital onde Thiago Silva ficou internado em Moscou Imagem: Marcus Mesquita/UOL

“Ele ficou num hospital que vou te dizer: eu não ficaria. Foi um filme de terror. Comparando com hospitais de nível, era um hospital que não era coincidente com o status. Um prédio velho, tudo velho. Quando cheguei na Rússia, fomos nesse hospital e a gente tinha que fazer exame de sangue para o teste de Aids. A gente ficou pensando: ‘será que isso aí vai sair certo? Porque de repente eles só fervem [a seringa]. Eu procurei nem olhar”, conta Wortmann, que era seu técnico na época.

A solidão bateu. Thiago estava sozinho em um país diferente e, com uma doença contagiosa, ficou meses sem receber visitas. Só tinha contato com duas assistentes sociais do hospital, que tem acesso bem restrito. O UOL Esporte entrou em contato com o hospital e visitou a sede, mas foi barrado por seguranças que chegaram a ser rudes no tratamento com a reportagem.

Thiago não apresentava melhoras. Estava sempre abatido e com aparência muito inchada. “Quando eu cheguei, fui na casa dele, estava com 10 kg, 12 kg a mais. Me assustou porque estava muito inchado em função dos remédios, isso me apavorou, me deixou muito preocupado. Eu olhava para ele e não estava pensando se ia jogar, queria vê-lo saudável”, conta o empresário Paulo Tonietto.

Não bastasse o estado de Thiago, em um dia de março o médico marcou uma reunião e cravou um diagnóstico desanimador: ‘Ele está com um buraco no pulmão e precisa de cirurgia’. Seria o fim da carreira. Como um jogador iria correr sem um pulmão?

E foi ali que Ivo Wortmann se tornou anjo da guarda de Thiago. Ele nunca foi médico, mas seu instinto dizia: ‘Tem algo errado’. “Eu pensava: ninguém mais morre de tuberculose. E eu me apavorei e falei para ele: ‘Vou pedir para o Tonietto entrar em contato urgente com o [empresário português] Jorge Mendes para te tirar daqui. Ou tu vai para Portugal e se recupera ou tu vai para o Brasil. Ele não pode fazer essa cirurgia, porque aí sim ele vai ficar inapto para a prática do futebol”.

O retorno

A intervenção de Wortmann deu um basta na situação. Tonietto descobriu um médico especialista em Portugal, o doutor Antônio de Almeida. O tratamento foi agressivo e a melhora devagar. No início, ele podia andar e estava proibido de correr, mas a mudança foi transformadora.  No dia 9 de dezembro de 2005, Thiago recebeu o laudo que estava apto para jogar futebol novamente. O recomeço foi ao lado de Wortmann novamente, no Fluminense.

“Ele estava em Portugal e o Ivo foi para o Fluminense como treinador. Eu falei: ‘pô, Ivo. Vamos levar para o Fluminense’. Ele: ‘Se ele estiver bem, tenho interesse porque sei que ele joga muito'. O médico do Fluminense tinha sido aluno do Antônio de Almeida. Os dois conversaram, o Thiago está liberado, pode fazer os exames que quiser. O Ivo falou com o patrocinador da época, Celso Barros. Foram dez dias de exame, tudo o que é exame. Ele não apresentou nada, já estava liberado para assinar contrato com o Fluminense”, conta o empresário.

O resto da história todo mundo conhece. Thiago brilhou no Milan e chegou badalado ao PSG. O status lhe garantiu espaço na seleção brasileira e a Copa de 2014 surgiu junto com a braçadeira de capitão. No Mundial, ele marcou nas quartas de final contra a Colômbia e ajudou a classificar a seleção para a fatídica semifinal contra a Alemanha, mas ele sequer entrou em campo, suspenso. Ainda assim, ficou marcado como um dos “vilões” daquele Mundial pelo choro nas oitavas da final, contra o Chile.

Quase dois anos depois, andava esquecido no time brasileiro. Dunga não o queria, principalmente após uma falha na Copa América de 2015, no Chile, no jogo diante do Paraguai que definiu a eliminação da seleção. A chegada de Tite, no entanto, mudou tudo, e de novo com Moscou no meio. Admirado pelo novo treinador, voltou a ser convocado e passou a fazer parte do grupo, mas no banco de reservas. O comandante nunca escondeu dos mais próximos a vontade de ter o “Monstro” em campo, mas Marquinhos e Miranda iam bem na dupla de zaga. Até que Moscou cruza novamente o destino do jogador.

No amistoso de março deste ano, contra a Rússia, recuperou a condição de titular. E não saiu mais do time. Foi bem nos amistosos contra Rússia, Alemanha, Croácia e Áustria. E melhor ainda nos jogos da Copa, contra Suíça e Costa Rica. No último jogo, Thiago foi o líder em desarmes, acertou 95% dos passes e ganhou dez das 12 disputas contra os adversários, acumulando 11 bolas recuperadas no total.

“Me sinto muito bem hoje. Venho trabalhando muito, me sinto seguro. Nunca duvidei do meu futebol. Sempre procurei estar tranquilo, mesmo diante de todas as críticas. Elas são válidas, você está sujeito a erros. Tive vários na minha vida. E você tira tudo como aprendizado”, disse o zagueiro que carregou a faixa de capitão no último jogo e chega a Moscou como referência da equipe, com seu papel como líder reforçado.

"Sem dúvida voltar a Moscou será uma mistura de sensações. Mas acredito que será algo bom, pois foi uma grande vitória, uma conquista, que foi a vida do Thiago. E sua carreira mostra o vencedor que ele já é. Vamos em busca de novas conquistas nesta cidade que sem dúvida tem uma história com a nossa família”, acrescenta a esposa Isabelle Silva.

Para o empresário que o conhece bem, será especial. “Voltar para a Rússia hoje, jogando pela seleção e em uma Copa do Mundo vai ficar marcado. Ele vai lembrar e isso vai dar ainda mais força ainda para ele, para poder brilhar. Conheço ele, sempre que passa por alguma dificuldade sempre tem algum propósito, a vida dele vai só para cima depois disso”.

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