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Copa 2018


Copa derruba de vez "fetiche" por posse de bola. Equilíbrio é premiado

Arte/UOL
Eficiência e equilíbrio têm pesado mais nesta Copa do Mundo do que um jogo puramente de posse de bola Imagem: Arte/UOL

Bruno Grossi e Rodrigo Mattos

Do UOL, em São Paulo (SP) e Moscou (Rússia)

2018-07-01T21:00:00

01/07/2018 21h00

Não é uma demonização da busca pela posse de bola. É um retrato do ciclo do futebol, que apresenta e resgata estratégias a cada Copa do Mundo. E a edição de 2018 vai provando que o desejo cego por manter a bola nos pés não deve mais sobreviver sem que haja mais coragem e repertório para encarar as fortes retrancas. Assim, perdidas por esse caminho já previsível, Alemanha, Argentina e Espanha já deram adeus à Rússia.

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No placar geral da Copa, foram 25 vitórias de times que tiveram mais posse de bola, contra 16 das equipes que entregaram o controle do jogo aos adversários. Além disso, foram registrados 11 empates, incluindo um 1 a 1 entre Argentina e Islândia, com 72% de posse para os sul-americanos. Só que, conforme a competição vai afunilando e os confrontos se tornam mais equilibrados tecnicamente, as seleções que apostam estilos mais objetivos começam a se sobressair. Dos quatro países já garantidos nas quartas de final, três passaram com menos posse. 

Tempo com a posse da bola:

  1. Espanha - 175min35s
  2. Argentina - 142min40s
  3. Croácia - 122min03s
  4. Alemanha - 121min33s
  5. Portugal - 116min52s
  6. Uruguai - 116min11s
  7. França - 114min36s
  8. Dinamarca - 113min52s
  9. Brasil - 111min04s
  10. Arábia Saudita - 104min18s

Só a Croácia avançou com posse maior, mas com evidente equilíbrio diante da Dinamarca: 53% a 47%, com a vaga decidida na disputa de pênaltis. O caso mais escancarado foi na classificação da Rússia contra a Espanha, também nas penalidades. A Fúria trocou mais de mil passes, cinco vezes mais do que os russos, e ainda assim caiu. 

"Foi esse caminho que nos deu êxito, que nos marcou. E tinha relação com os jogadores que tínhamos", opinou Andrés Iniesta, um dos símbolos do "tik taka", herói do título espanhol em 2010 e que se despediu da seleção neste domingo. Sergio Ramos, capitão da Espanha, também comentou as críticas ao estilo, que têm partido muito mais de outros países do que da própria mídia espanhola: "É muito relativo. Cada um tem seu estilo". 

Distância percorrida com a posse da bola:

  1. Espanha - 234km
  2. Argentina - 183km
  3. Alemanha - 168km
  4. Portugal - 162km
  5. França - 160km
  6. Dinamarca - 160km
  7. França - 160km
  8. Uruguai - 151km
  9. Brasil - 150km
  10. Rússia - 138km

Há uma semelhança entre as seleções que deram campo e bola para os rivais. Ninguém foi sufocado ou sofreu uma pressão superada pelo acaso. Essas posturas foram propositais, estratégicas, justamente para explorar fraquezas dos adversários. A França, por exemplo, sabia que poderia confiar na velocidade de seus pontas e que a Argentina tinha dificuldades para circular a bola com velocidade e para se recompor na defesa. A aposta nos contra-ataques foi certeira na vitória por 4 a 3 no último sábado.

Distância percorrida sem a posse da bola:

  1. Rússia - 230km
  2. Dinamarca -210km
  3. Uruguai - 169km
  4. Croácia - 165km
  5. França - 160km
  6. Costa rica - 157km
  7. Islândia - 152km
  8. Sérvia - 151km
  9. Irã - 151km
  10. Portugal - 151km

Portugal teve ideia semelhante contra a Espanha na primeira fase, mas "viciou" em recuar mesmo contra times mais frágeis como Marrocos e Irã e não conseguiu se encontrar quando caiu na própria armadilha diante do Uruguai. Os sul-americanos têm a melhor defesa da Copa, vacilaram apenas no gol de Pepe e passaram quase ilesos da tentativa de pressão dos portugueses, enquanto seus atacantes de alto nível tinham liberdade para decidir na frente.

Finalizações:

  1. Espanha - 70
  2. Alemanha - 67
  3. Croácia - 61
  4. Brasil - 56
  5. Argentina - 53
  6. Bélgica - 53
  7. Portugal - 52
  8. Uruguai - 50
  9. França - 45
  10. México - 44

Uruguai, França e Croácia se mostram as seleções mais versáteis e equilibradas até aqui. Propuseram o jogo quando era necessário se impor diante de equipes inferiores e optaram por um estilo reativo quando perceberam fragilidades nos rivais. Seus números na Copa evidenciam isso. Eles conseguem estar no "top 10" de distância percorrida com e sem a bola. De recuperações de bola e de chances criadas.

Entre as seleções que ainda estão vivas na Rússia, há outros dois estilos que vão superando a ideia de ter a posse e segurá-la sem pressa até os espaços aparecerem. De um lado, está a Suécia, que soma apenas 60 minutos de posse em três partidas e ainda assim avançou em primeiro do Grupo F, que tinha Alemanha e o ofensivo México. A Espanha, por exemplo, passou mais de 175 minutos com a bola no pé.

Chances criadas:

  1. Alemanha - 75
  2. Espanha - 68
  3. Brasil - 56
  4. Bélgica - 52
  5. México - 48
  6. Argentina - 48
  7. Croácia - 47
  8. Portugal - 46
  9. Sérvia - 44
  10. Uruguai - 42

Já Brasil e Bélgica confiam em um jogo mais agressivo. Há cuidado com a posse, mas a forma como os espaços são buscados é mais ostensiva, depende da movimentação intensa dos jogadores de frente e da infiltração dos meio-campistas. Os meias, aliás, têm carta branca para arriscar passes verticais. A ideia é que só assim as retrancas, principalmente aquelas com linha de cinco defensores, serão furadas. O duelo do Brasil contra a Costa Rica mostra bem a proposta, bem como o da Bélgica contra o Panamá. 

Apesar da fragilidade dos rivais, as duas seleções não se acomodaram com a superioridade técnica. Os jogos foram marcados por tentativas insistentes de furar as retrancas. Tabelas, ultrapassagens e até jogadas ensaiadas em bolas paradas. O que parece ter saído de moda, de fato, é a passividade com a bola. 

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