UOL Esporte Futebol
 
13/01/2010 - 07h00

Andrade se conforma com arrancada sem reforços e aposta em Gil

Cauê Rademaker
Em Porto Feliz (SP)

Um time que terá de ser ajeitado com a temporada em andamento, mas que pode trazer novas “ressurreições”. Esse deve ser o Flamengo de 2010 comandado por Andrade. Em Porto Feliz-SP, o treinador dirige a pré-temporada do time lamentando a falta de reforços, mas apostando alto que pode recuperar talentos dentro do elenco rubro-negro.

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O atacante Gil, no caso, é a aposta de Andrade em obter o mesmo sucesso que teve com Zé Roberto e Petkovic em 2009. Desacreditados por todos, os dois deram a volta por cima na reta final do Brasileirão e foram fundamentais na conquista do título. “Ninguém desaprende a jogar. É preciso conversar com os caras e entendê-los”, disse Andrade, com a simplicidade que marca sua personalidade.

Simplicidade que já exibia nos tempos de jogador e que não perdeu com o passar dos anos e das conquistas, tendo vencido todos os títulos possíveis pelo Flamengo na época de atleta. Paciente, responde a todas as perguntas sem demonstrar pressa em se livrar delas. Antes de atender a reportagem do UOL Esporte, falou por mais de 30min com uma emissora de televisão. “Pediram para eu contar a minha vida inteira. Tentei resumir em 10min”, brincou o treinador, ao chegar para a entrevista.

Na conversa, Andrade, além de falar da preocupação com a falta de reforços e de elogiar Gil, afirmou que não vai priorizar competição na temporada, comentou o tratamento diferenciado de Adriano e Petkovic e mostrou não ter ficado satisfeito com a decisão da diretoria de incorporar Rogério Lourenço para a sua comissão técnica.

Confira na íntegra a entrevista do técnico Andrade ao UOL Esporte.

UOL Esporte - Pela primeira vez você inicia um ano como técnico do Flamengo. Como é trabalhar durante a pré-temporada podendo ajeitar o time da sua maneira?

Andrade - Isso é muito importante. Posso pedir o jogador que eu quiser, com o perfil que eu quero e dentro da realidade financeira do clube. Posso planejar uma equipe e treinar da minha maneira, essa é a grande vantagem. O problema é que não estou podendo contar com todo mundo ainda e temos de ter paciência para esperar os reforços.

UOL Esporte – Em relação aos reforços, você deve terminar a pré-temporada com apenas o volante Fernando contratado. Essa demora te incomoda?

Andrade - Tenho de ter paciência, mas a qualquer momento podem chegar caras novas. O ideal era que já tivéssemos todos aqui para a pré-temporada, para trabalharmos. Para a Libertadores ainda temos tempo, mas para o Carioca não. Já estreamos no domingo [17, contra o Duque de Caxias]. Mas procuro entender os problemas da diretoria e tenho de pensar nos que estão aqui. Não adianta falar em Vagner Love. Se ele vier, começo a planejar o time com ele, mas enquanto isso penso apenas nos que estão aqui.

UOL Esporte - Você recuperou o Zé Roberto e o Petkovic, jogadores que ninguém acreditava. Qual foi o segredo?

Andrade - Eu só dei a oportunidade para eles. Eles não desaprenderam a jogar. Claro que tive de conversar com os dois, especialmente com o Zé Roberto. Fiz ele ver que precisava abdicar de algumas coisas para voltar a render. Mas dependia só dele. Ele entendeu e voltou a jogar bem, ganhou confiança.

UOL Esporte - E tem algum jogador que você acredita que possa acontecer o mesmo nessa temporada?

Andrade - Agora eu aposto muito no Gil, que vai voltar a render bem. Assim como acredito no Dênis Marques. Uma pena ele não ter chegado ainda [resolve há mais de uma semana problemas particulares]. Ele precisava muito de uma pré-temporada. O Gil está aqui e com certeza vai dar um salto de qualidade.

UOL Esporte - Depois do título brasileiro, você disse que ele serviu para calar a boca de muita gente que não acreditava em você dentro do Flamengo. Pode explicar o desabafo?

Andrade - Isso é passado. Vamos deixar o hexa e esse fato para trás. É um livro com a página virada. Temos tanta coisa boa para falar, não gostaria de voltar a tocar nesse assunto. O que passou, passou.

UOL Esporte - Sua identificação com o Flamengo é muito forte. Você acha que isso pode te fechar portas em outros clubes do futebol brasileiro?

Andrade - Pelo contrário. Acho que isso abre portas para mim. Você ter no currículo uma passagem boa pelo Flamengo é maravilhoso. É como uma faculdade completa passar pelo Flamengo, é a elite profissional. Mas já estagiei com o Oswaldo de Oliveira no Fluminense, em 2001, e fui muito bem recebido por todos por lá. Não teve nenhum tipo de rivalidade.

UOL Esporte - A grande competição do Flamengo esse ano é a Libertadores. Qual é o adversário brasileiro que coloca mais medo em você?

Andrade - Medo não tenho de nenhum, mas respeito por todos. Todos são times fortes e se reforçaram. Devem estar aproveitando essa pré-temporada e vai ser uma competição muito difícil.

UOL Esporte - E como você analisa o grupo rubro-negro na competição, formado por Universidad do Chile, Caracas-VEN e pelo vencedor de Colón-ARG e Universidad Católica-CHI?

Andrade - Está difícil. Esse ano pegamos times muito qualificados. As equipes do Chile têm tradição e sempre participam bem da Libertadores. O Caracas tem alguns colombianos na equipe e ficou muitos jogos sem perder dentro de casa. Vai ser difícil e o Flamengo terá de estar bem preparado para corresponder à expectativa. Por isso temos de nos reforçar para a competição.

UOL Esporte - Em 2008 o Flamengo chegou a poupar jogador no duelo de ida contra o América do México priorizando a final do Estadual, contra o Botafogo. Depois, acabou eliminado. Você adotaria uma medida desse tipo agora em 2010?

Andrade - Sou contra poupar. Sempre que possível, vou escalar força máxima em todas as competições. Em jogo decisivo não existe isso de poupar ninguém. Vamos jogar o Carioca para ganhar e a Libertadores também. Só fica fora jogador em caso extraordinário. Não vou poupar ninguém.

UOL Esporte - Por falar naquele duelo, o América do México pode se classificar para a Libertadores desse ano. Seria especial enfrentá-los de novo e se vingar da derrota de 2008 nas oitavas-de-final?

Andrade - Não considero um jogo especial. Se houver o confronto, vai ser apenas uma partida como as outras. Daquela vez nós perdemos, mas ganhamos ao mesmo tempo. O grupo amadureceu e já sabe como se comportar em situações parecidas. Sempre que a gente perde, a gente ganha ao mesmo tempo.

UOL Esporte – Você mostrou ter grande facilidade para controlar o grupo do Flamengo, que conta com algumas estrelas, como Adriano e Petkovic. Os dois, por sinal, em determinadas situações têm um tratamento diferenciado. Como fazer o elenco entender isso e não criar problemas internos?

Andrade - Existe um respeito muito grande pelo grupo com os dois. O Petkovic, até mesmo pela idade, precisa de um tratamento diferenciado. Já o Adriano os jogadores compreendem os problemas dele, mas ele é uma referência. Disputou uma Copa do Mundo, vai disputar outra e atuou no futebol europeu. Isso é tudo o que a maioria aqui quer um dia. Então eles entendem os privilégios. Isso nunca nos atrapalhou.

UOL Esporte - A diretoria rubro-negra anunciou no fim do ano passado que o Rogério Lourenço, técnico das divisões de base do Flamengo e da seleção brasileira Sub-20, foi incorporado à sua comissão técnica. Você acha que ele será útil com dicas de jogadores mais jovens?

Andrade - Só digo uma coisa: comissão técnica é cargo de confiança. Assim como o presidente escolhe suas pessoas de confiança, o treinador tem as suas.

UOL Esporte - Fora do Flamengo, como é a sua rotina? Você se desliga do futebol ou costuma ver VT de jogos de adversários, conversar com informantes?

Andrade - Eu vejo futebol direto em casa. Minha mulher fica louca com tanto futebol. Às vezes assisto a dois jogos em duas televisões diferentes ao mesmo tempo. Mas só converso mesmo sobre o assunto com o pessoal da minha comissão técnica. Meus amigos pessoais não entendem bulhufas de futebol e sequer vão ao Maracanã. Só torcem por mim, mas não sabem nada de futebol.
 

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