UOL Esporte Futebol
 
17/03/2010 - 07h01

Infiltrações fazem ex-jogadores entrarem em grupo de risco da hepatite

Aurélio Nunes
Em Salvador*
  • Ex-jogador de Palmeiras e Vitória, Nilson Gomes está com hepatite

    Ex-jogador de Palmeiras e Vitória, Nilson Gomes está com hepatite

“Eu não sinto nada”. Esta é a frase mais ouvida por Nilson Gomes, 65, quando tenta convencer um colega de profissão a submeter-se ao teste anti-HCV, que detecta o contato com o vírus da hepatite C. Aos 65 anos, o ex-centroavante de Palmeiras e Vitória soube em 2004 que contraiu a doença, quando tentou doar sangue. Portador de uma rara resistência ao tratamento, ele tenta transformar sua cruzada pessoal em uma campanha nacional para sensibilizar ex-atletas das décadas de 60, 70 e 80 enquanto aguarda a chegada de novos e mais potentes medicamentos.

A prática corriqueira de fazer infiltrações e compartilhar seringas nos clubes de futebol profissionais e amadores entre os anos 1960 a 1980 transformou os Brasil no único caso conhecido do mundo em que ex-atletas estão inseridos no grupo de risco da hepatite C ao lado de usuários de drogas, pessoas submetidas a transfusão de sangue ou hemodiálise antes de 1994 ou que fizeram tatuagem em locais sem inspeção da vigilância sanitária.

A campanha de conscientização de ex-jogadores é respaldada pelo presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, Raymundo Paraná, e conta com o aval da Federação das Associações de Atletas Profissionais (Faap), entidade presidida pelo zagueiro do tricampeonato mundial da seleção brasileira Wilson Piazza.

“Os atletas de uma forma geral pensam que são imunes a qualquer tipo de doença, de vírus. Por serem esportistas, estarem sempre bem fisicamente, acreditam que são inatingíveis. Mas a verdade não é essa. Temos ao longo dos anos exemplos de ex-atletas que morreram por causa da hepatite e nem sabiam que tinham esta doença”, analisa Piazza.

MÉDICO QUER CAMPANHA NACIONAL

Raymundo Paraná trata de pelo menos 55 veteranos da bola no Ambulatório do Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia. E tem notícias de outros 71 ex-atletas em tratamento no Rio Grande do Sul e 30 no Mato Grosso, além de seis pacientes que morreram nos últimos meses no Ceará e casos já confirmados em São Paulo e Rio de Janeiro.

“Era comum no final do treino a gente fazer fila para o massagista aplicar energizan e vitamina B12. Tinha duas seringas de vidro e três agulhas para 30 pessoas”, lembra Nilson. “Na Europa, 70% dos homens infectados foram ou são usuários de drogas ilícitas. No Brasil, a maioria é de usuários de drogas lícitas. Durante o Carnaval, era muito frequente a aplicação de glicose na veia em farmácias com o objetivo de curar a ressaca”, lembra Paraná, citando outro grupo de risco tipicamente brasileiro.

Estima-se que 170 milhões de pessoas em todo o mundo estejam infectadas pelo HCV, sendo 2,7 milhões no Brasil, ou seja, uma população cinco vezes maior que a que contraiu o HIV.  Segundo Nilson Gomes, ex-jogadores resistem a fazer o teste anti-HCV com medo de ver sua imagem ligada ao alcoolismo – causador de outros tipos de hepatite - ou mesmo ao doping.

PRINCIPAIS TIPOS DO VÍRUS DA HEPATITE

A O vírus é transmitido pela ingestão de alimentos contaminados ou fezes e causa uma infecção aguda que se cura espontaneamente, geralmente com evolução benigna
B Pode ser transmitida através do contato sexual, do sangue contaminado e de mãe para filho durante a gestação ou parto. Pode provocar cirrose e câncer de fígado
C É geralmente assintomática e silenciosa. A principal via de transmissão é através do contato com sangue contaminado

O fato de ser uma doença assintomática e silenciosa, cujos efeitos demoram décadas para se manifestar, também contribui para aumentar a resistência dos ex-jogadores.  “Tenho muita dificuldade de trazer colegas para o ambulatório”, relata Nilson. “Eles dizem que não sentem nada, e eu sempre respondo que esse é o principal sintoma da hepatite C. Eu também nunca senti nada, nem dor de cabeça”.

Para mudar essa visão, os ex-jogadores e a Sociedade Brasileira de Hepatologia querem que o Ministério da Saúde faça uma campanha nacional de conscientização.

“A nossa ideia é utilizar um jogador, campeão, famoso, conhecido por todos, da década de 60, ou 70, para poder incentivar e divulgar a campanha da hepatite. Ainda não decidimos quem será, nem quantos, mas estamos em constantes conversas com o Ministério da Saúde, conseguimos apoio importante do governo, de ex-atletas e isso é importante para a nossa divulgação. O que mais queremos é que os ex-atletas e também os atuais, façam o exame, descubram se têm o vírus, para poder procurar ajuda. É uma doença de fácil ajuda, que todos conseguem sem grande custo”, revela Piazza.

* Colaborou Bernardo Lacerda, em Belo Horizonte

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