UOL Esporte Futebol
 
24/03/2010 - 09h01

Idolatria transforma pavio curto de Marcos em problema sem solução

Renan Cacioli
Da Folhapress
Em São Paulo

LUXEMBURGO TAMBÉM JÁ QUESTIONOU MARCOS

Desde 2008, quando se recuperou de seguidas lesões e voltou a atuar com frequência, Marcos protagonizou vários episódios polêmicos. Em outubro daquele ano, após uma derrota para o Fluminense (3 a 0), o goleiro reclamou da instabilidade da equipe. Disse que talvez um psicólogo explicasse a situação melhor do que ele. A declaração irritou o meia Diego Souza. "Roupa suja se lava em casa’’, declarou.

Vanderlei Luxemburgo, técnico na ocasião, também questionou o comportamento de Marcos. "O Marcos é ídolo do clube, mas não pode sair como ‘São Marcos’ e deixar toda a equipe exposta dessa forma", afirmou.

Treinador e goleiro voltaram a se estranhar no revés para o Grêmio (1 a 0), no mês seguinte, quando o arqueiro ignorou o técnico e subiu ao ataque faltando 15 minutos para o final do jogo. "Mais uma vez ele sai como ‘São Marcos’. Mas não sei se teria de ser dessa forma", disse Luxemburgo. Depois, o atleta veio a público pedir desculpas pela cena "ridícula", mas negou que tivesse escutado a ordem do treinador.

As polêmicas continuaram em 2009, principalmente quando o então líder do Brasileiro entrou em declínio. Depois de um empate com o Sport, o capitão da equipe reclamou, sem citar nomes, de jogadores que começam a ganhar dinheiro, mas não mostravam responsabilidade. "Tem cara que ganha R$ 40 mil, R$ 50 mil, fica rico, e vai pegar um monte de menininha por aí", disparou.

No jogo seguinte, após perder para o Grêmio, ele comparou o clube com o rival São Paulo. "Você não vê ninguém do São Paulo falando em Europa, talvez seja a diferença. Lá tem comprometimento", afirmou o arqueiro.

"Ah, mas você sabe como é o Marcos". Essa frase, ouvida de mais de uma pessoa pela reportagem, virou praticamente um mantra no Palmeiras. Mas o fato é que ninguém parece saber (ou querer) lidar com o espinhoso tema dentro do clube.

A idolatria a um dos ícones palmeirenses transformou o notório pavio curto do jogador em um problema sem solução. Assim, nos últimos tempos, um roteiro extracampo tem acompanhado a carreira vitoriosa do campeão mundial de 2002 pela seleção. Marcos fala, age e se comporta como quer. Nunca é punido. No máximo, vem a público se desculpar.

Na segunda-feira, ele abandonou o treino após ter se irritado com as falhas do time. Xingou, desabafou ali mesmo, no campo do CT, e pediu que fosse substituído. Alegou dores na virilha, que acabaram se transformando na explicação oficial do Palmeiras.

A reportagem apurou que o treinador Antônio Carlos conversou com o atleta no vestiário, logo após o episódio. Não haverá punição ao camisa 12.

"Não falei com ele, ainda", disse, na terça-feira pela manhã, o diretor de futebol Seraphim Del Grande. Questionado a respeito de uma eventual punição ao atleta, Del Grande avaliou que o gesto do arqueiro "não foi normal". Não demorou muito, porém, e veio a frase mágica: "Mas você sabe como é o Marcos".

Gente que trabalha diariamente com o goleiro diz que, além da irritação com o que houve no treino, o jogador ainda não se conforma em ter perdido o título brasileiro do ano passado após o Palmeiras ter liderado a maior parte da competição. E afirma que, após recomeçar o ano com praticamente o mesmo grupo, "ele ainda não sente confiança".

Outra fonte de insatisfação é a limitação física. Marcos sente dores nos joelhos, nos ombros, no punho. Treina e joga assim. Esse é o principal motivo apontado pelo goleiro para justificar sua intenção de parar de jogar antes do previsto. O contrato dele termina no final do ano que vem, mas o atleta já pôs janeiro como seu limite.

Em entrevista à TV Bandeirantes, o vice-presidente do clube Gilberto Cipullo classificou Marcos como "incontrolável". "A diretoria conversa com ele, mas não adianta. Estamos calejados com essa situação e sabemos que, no dia seguinte às declarações, é outra coisa", afirmou Cipullo.

O cartola negou que haja uma compreensão exagerada às atitudes do atleta. "Você pune o jogador quando percebe que ele está de má-fé. E ele não está. É uma reação espontânea", completou o vice.

 

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