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Popperfoto/Getty Images

Pelé, Rivellino e Tostão - o Brasil é tricampeão mundial de futebol em 1970

20/07/2010 - 16h25

Livro mostra como craques do passado se impunham sobre os técnicos

Mauricio Stycer
Em São Paulo

Ainda é cedo para avaliar o fiasco da seleção brasileira na África do Sul em todas as suas dimensões. Mas é possível arriscar algumas hipóteses. Entre os vários sinais de que havia muita coisa errada naquela seleção, um que chamava a atenção era o fato de o técnico assumir um papel absolutamente preponderante, muito maior do que dos próprios jogadores e supostas estrelas do espetáculo.

BRASILEIROS CONTAM SUAS HISTÓRIAS

  • Djalma fotografa o goleiro Gilmar - e antecipa a era dos jogadores com câmeras a tiracolo -, em 1958

  • Meia Sócrates durante a Copa do Mundo de 1986

  • Capa do livro, organizado por Jorge Vasconcellos

Alguém poderá argumentar que este é um problema geral, a afligir todo o futebol contemporâneo. Pode ser. Mas, depois de ouvir entrevistas dos 23 jogadores da seleção de Dunga, creio não estar cometendo nenhuma injustiça se afirmar que não havia ali um único atleta capaz de discutir futebol de igual para igual com o técnico. Estamos falando não apenas de uma seleção de jogadores submissos, mas inapetentes e de talento limitado dentro e fora de campo.

Esta introdução vem a propósito do lançamento de “Recados da Bola”, um livro espetacular, lançado durante a Copa do Mundo, mas que só tive a oportunidade de ler agora. Com o subtítulo “Depoimentos de doze mestres do futebol brasileiro”, a obra organizada por Jorge Vasconcellos traz entrevistas realizadas para a BBC, em 1994, com Barbosa, Domingos da Guia, Jair Rosa Pinto, Zizinho, Ademir Menezes, Djalma Santos, Bellini, Nilton Santos, Zito, Didi, Rivellino e Sócrates.

Haveria várias questões a destacar, mas vou sublinhar apenas alguns pontos, que expõem o contraste entre os jogadores das diferentes gerações do passado e os Kakás e Robinhos de hoje.

Jair Rosa Pinto (1921-2005), um dos craques da seleção de 1950, diz que no seu tempo o craque “ajeitava” o time. “Quando eu falo sobre ajeitar um time, no meu caso o Palmeiras, quero dizer que eu ajudava a contratar, sempre indicava outros jogadores. O Palmeiras contratou o Liminha, o Dema e muitos outros por indicação minha, porque eu achava que o meu aproveitamento não estava bom com os caras que jogavam lá. Então, para fazer do Palmeiras um bom time, eu mandava trazer de fora”.

Djalma Santos e Zito confirmam uma história conhecida da seleção de 1962. No auge da forma o zagueiro Mauro ameaçou voltar ao Brasil se não fosse titular – uma exigência aceita não apenas pelo treinador, Aymoré Moreira, como pelo craque ele substituiu, Bellini, assumindo também o posto de capitão.

Nilton Santos fala abertamente do seu conflito com Flavio Costa em 1950. “Era muito autoritário. A consagração do técnico só acontece quando o time ganha, e quem ganha sou eu e não ele”. Didi descreve em detalhes o seu famoso gesto, de ir ao fundo do gol e buscar a bola, depois que a Suécia abriu o placar na Copa de 1958, para tranqüilizar e dar moral aos demais jogadores. Quem fez isso depois do primeiro gol da Holanda em 2010?

Sócrates, com a sinceridade de sempre, diz que nunca teve um ídolo no futebol. “Só recentemente tive meu primeiro ídolo esportivo, o Tiger Woods. Nunca joguei golfe na vida, mas é meu ídolo, ele é um cara que vou atrás para assistir”.

Jogador a quem se atribui conselhos fundamentais a Pelé no início de sua carreira, Jair Rosa Pinto conta: “O futebol é a minha paixão. Meu maior prazer não era fazer o gol nem chutar forte, ficava satisfeito de botar um companheiro na cara do gol para ele marcar.” É dele também esta constatação perfeita: “No meu tempo, eram dois no meio-campo. Hoje são cinco. Não vou dizer que os jogadores de antigamente eram melhores do que os de hoje, só que na minha época de oito bolas lançadas, sete eram aproveitadas. Hoje esse número é muito menor”.

Zizinho (1921-2002) diz algo semelhante: “Nunca dei muito valor ao gol, sabe? O meu prazer sempre foi dar o último passe, o companheiro metia a bola pra dentro e corria pra abraçar a gente, agradecer. Hoje, o cara sai correndo na direção da torcida, não entendo isso. Botar a bola pra dentro é só um detalhe, devia agradecer ao amigo que deu o passe. O público não tem nada com isso”.

Didi (1928-2001) também fala algo genial sobre o drible: “Eu não gostava de driblar, porque o drible é uma emergência do futebol. Às vezes, quando não é possível fazer uma tabela ou dar um passe, aí a gente precisa do drible.” Até mesmo Rivellino, famoso pelo “drible do elástico”, fala da sua paixão pelo passe perfeito: “Meter uma rosca, a bola fazer a curva e deixar o companheiro na cara do gol, isso é uma coisa linda. Alguns companheiros falavam: pô, Riva, às vezes não tem necessidade de meter uma rosca. Então eu explicava a eles que era minha característica”.

As entrevista de “Recados da Bola” (cosacNaify, 240 págs., R$ 99) foram realizadas por Jorge Vasconcellos e Claudiney Ferreira e transmitidas, originalmente, numa série de rádio, intitulada “Brasil: um século de futebol (1894-1994)”. Além das entrevistas, o livro reúne centenas de imagens magníficas, pouco conhecidas, do mundo do futebol brasileiro.

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