UOL Esporte Futebol
 
02/12/2010 - 06h00

Fifa escolhe sedes de Copas em pleito inédito e em meio a crise de credibilidade

Do UOL Esporte
Em São Paulo

A Fifa não teve muito trabalho para tomar suas duas últimas decisões sobre sedes de Copa do Mundo. Agora, de uma só vez, vai escolher a casa dos Mundiais de 2018 e 2022 entre nove candidatas. O pleito, inédito, colocou em xeque o já criticado sistema de votação da entidade, agora mergulhada em uma das mais graves crises de credibilidade de sua história.

A história começa em 2000. Alemanha, África do Sul, Inglaterra e Marrocos brigavam pelo direito de sediarem a Copa de 2006. Um voto definiu a vitória germânica.

Quem evitou o empate foi Charlie Dempsey, escocês naturalizado neozelandês que presidia, à época, a Confederação de Futebol da Oceania. Alinhado com a candidatura inglesa, já eliminada, ele votaria pela África do Sul, mas preferiu abster-se por sentir-se pressionado, garantido o triunfo da Alemanha.

Após a repercussão negativa da eleição, a Fifa adotou o sistema de rodízio de continentes, que até então havia sido apenas cogitado. Neste cenário, África do Sul (2010) e Brasil (2014) entraram no calendário do futebol mundial.

A eleição dupla, adotada na sequência, tinha como objetivo evitar os atrasos e, principalmente, apagar a imagem deixada na última eleição tradicional. O efeito não poderia ter sido pior.

Desde o início, os conchavos e trocas de influências entre os países foram frequentes. O lobby no pleito para 2018 poderia render apoio na disputa seguinte, e vice-versa. Este esquema interessaria a Espanha/Portugal e Qatar e Inglaterra e EUA, respectivamente. Nenhuma candidatura envolvida, obviamente, chegou a confirmar a parceria, mas o próprio Josepp Blatter admitiu que os conluios eram inevitáveis.

Só que a corrupção foi mais longe. As sedes são escolhidas pelos membros do Comitê Executivo da Fifa, composto por 24 membros. Desta vez, dois ficarão fora. Reynald Temarii, presidente da Confederação de Futebol da Oceania, e Amos Adami, representante da Nigéria, foram suspensos de seus cargos.

Os dois foram pegos em um escândalo deflagrado pelo Sunday Times, em meados de outubro. Jornalistas do periódico fingiram ser empresários ligados à candidatura norte-americana, e comprovaram que Temarii e Adami estavam dispostos a negociar seus votos.

O Comitê da Fifa reuniu-se extraordinariamente, decidiu afastar os envolvidos e condenou as atitudes, mas recusou-se a adiar a eleição. Na última segunda-feira, o problema tornou-se maior. A rede britânica BBC veiculou denúncias contra três membros do Comitê Executivo, entre eles Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do Comitê Organizador da Copa de 2014.

Teixeira, Nicolas Leóz (presidente da Conmebol) e Issa Hayatou (presidente da Confederação Africana) teriam recebido propinas da ISL, antiga parceira de marketing da Fifa que faliu em 2001. O brasileiro, por exemplo, teria recebido cerca de R$ 17 milhões por meio de uma empresa registrada em um paraíso fiscal.

Fifa, as confederações e os cartolas envolvidos negam veementemente, mas o estrago já foi causado. As denúncias se acumulam no Comitê Executivo da Fifa. Entre os votantes está Jack Warner, de Trinidad e Tobago, que em 2006 foi acusado de ganhar US$ 1 milhão revendendo ingressos da Copa da Alemanha de maneira ilícita.

Julio Grondona, presidente da Associação Argentina de Futebol (AFA) há 22 anos e vice-presidente sênior da Fifa, também não tem ficha limpa. Entre outras coisas, o cartola é acusado de ter recebido US$ 500 mil da Fifa para construir complexos esportivos na Argentina. No fim, construiu apenas um, em seu berço político: Sarandí.

Os questionamentos à Fifa são tão grandes que a entidade-mor do futebol sai chamuscada até de uma possível comparação com o Comitê Olímpico Internacional (COI). Na disputa pelos Jogos Olímpicos, cerca de cem delegados votam, o que diminui a importância do lobby no pleito.  

Ao longo do processo, no entanto, são expressamente proibidos de receberem qualquer tipo de presente das candidatas. Na Fifa, os membros votantes podem, sim, receber certos “mimos”, desde que estes não ultrapassem um valor pré-determinado. 

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