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Filha luta para perpetuar Barbosa e fazer de túmulo atração turística em Praia Grande

Filha afetiva de Barbosa cuida de preservação de túmulo do goleiro em Praia Grande - Alex Almeida/UOL
Filha afetiva de Barbosa cuida de preservação de túmulo do goleiro em Praia Grande Imagem: Alex Almeida/UOL

Bruno Freitas

Do UOL, em São Paulo

08/05/2012 06h00

Para quem conhece a história da Copa de 1950, a primeira realizada no Brasil, existe um fascínio sobre a história de martírio de Barbosa, goleiro da seleção responsabilizado pela dramática derrota para o Uruguai na partida final no Maracanã. Personagem que viveu daquele Mundial até sua morte em 2000 lutando contra a o fantasma da suposta falha, o ídolo do Vasco da Gama está enterrado em Praia Grande, cidade no litoral de São Paulo que deseja fazer do túmulo do jogador um ponto de visitação turística.

A ideia de tonar o túmulo de Barbosa uma espécie de ponto turístico no balneário de Praia Grande partiu da cabeça de Tereza Borba, moradora local que desenvolveu uma relação de filha com o ex-jogador em seus últimos anos de vida, quando ele escolheu a cidade para residir depois de quase uma vida inteira no Rio de Janeiro. Foi ela que cuidou do goleiro em sua fase mais debilitada e que o acompanhou nas últimas visitas ao Vasco.

"Faço matérias para a França, para o Japão, já veio gente da Alemanha aqui. Tudo leva o nome da Praia Grande, é ele levando o nome da cidade para vários lugares. Por isso é de suma importância que o túmulo permaneça. Tem o Senna no [cemitério do] Morumbi, artistas em outros lugares. A ideia é colocar no roteiro turístico da cidade, perpetuar o nome dele", relata Tereza.

"Quero perpetuar ele como um ídolo do Vasco, campeão sul-americano [por Vasco e seleção], o melhor goleiro da história. Tirar esse estigma de 50, acho até que já consegui tirar um pouco", acrescenta a filha afetiva.

Barbosa foi o maior goleiro do país de seu tempo, uma das estrelas do time do Vasco conhecido nos anos 40 como "Expresso da Vitória", campeão do Sul-Americano de 1948, torneio que foi uma espécie de embrião da Libertadores [ainda levantou seis taças estaduais no Rio]. Unanimidade no gol da seleção do técnico Flávio Costa, o goleiro nascido em Campinas teve uma Copa quase irretocável até o segundo tempo da partida final contra o Uruguai.

JOVEM BOTAFOGUENSE CARREGA O LEGADO DO "GOLEIRO NEGRO"

  • Luís Guilherme tinha apenas 7 anos quando Barbosa morreu, mas conheceu sua história e resolveu homenagear o goleiro do Mundial de 50 após defender três pênaltis em uma partida do Botafogo na Copa São Paulo de 2010.

    Luís Guilherme conheceu a história de Barbosa durante uma passagem pelas seleções de base do Brasil, ao ganhar um livro que trata do martírio do ídolo do Vasco após o famoso chute de Alcides Ghiggia. O goleiro, que concilia o futebol com a universidade de psicologia, admite a inspiração no jogador da Copa de 50 e diz que carrega o "legado do goleiro negro" em seu início de carreira.

Naquela ilustre tarde de em 16 de junho de 1950, bastava apenas um empate para que a seleção anfitriã conquistasse o primeiro título mundial de sua história, na disputa de um quadrangular decisivo que ainda reunia Espanha e Suécia. O Brasil saiu em vantagem com Friaça no começo da etapa final, mas acabou cedendo a virada aos uruguaios, em gols de Juan Alberto Schiaffino e Alcides Ghiggia.  

No lance que perseguiu Barbosa até o fim de seus dias, aos 34min do segundo tempo, Ghiggia arrancou em velocidade pela ponta direita nas costas do zagueiro Bigode e bateu quase sem ângulo entre a trave e o goleiro brasileiro, que esperava o cruzamento para o centro da área, assim como na jogada do primeiro gol.

Nas décadas que sucederam o episódio batizado pelos uruguaios de Maracanazo, Barbosa conviveu com situações de constrangimento, na clássica figura de "bode expiatório" do timaço que ainda tinha os craques Zizinho e Ademir. Mais de uma vez foi identificado na rua como "o homem que fez o Brasil chorar". Tudo isso apesar de manter a boa fase pelo Vasco [só não foi ao Mundial seguinte, em 1954, em razão de uma grave fratura sofrida em jogo com o Botafogo].

Baseado nessa experiência, Barbosa desenvolveu no pós-carreira uma espécie de bordão particular, que o acompanhava onde quer que fosse e tivesse que responder sobre a Copa. Na frase, dizia que somente ele, o Papa e Frank Sinatra haviam "calado o Maracanã". Sobre o martírio da cobrança pela derrota de 50, também costumava afirmar que "a pena máxima no Brasil é de 30 anos, mas eu já enfrento a minha há quase 50".

Tereza conheceu Barbosa quando tinha um quiosque na orla da praia, pouco depois da morte de Dona Clotilde, esposa do ex-jogador desde os anos 40. Na época, começo da década de 90, o ídolo do Vasco passou rapidamente de um frequentador assíduo do estabelecimento a uma espécie de parente, adotado afetivamente pela família da "nova filha" e de seu esposo Mauro, um vascaíno fanático.

Procurada pela reportagem do UOL Esporte, a prefeitura de Praia Grande manifestou interesse em abraçar a ideia da filha adotiva de Barbosa. Representantes da secretaria de Turismo da cidade admitem ajudar na ideia de reforma e falam em incluir o túmulo do ex-jogador da seleção no roteiro turístico local, conhecido por atrair essencialmente visitantes banhistas.

Coordenador de turismo e eventos da secretaria, Aristides Faria recentemente acompanhou Tereza Borba em uma visita ao túmulo no Cemitério Morada da Grande Planície para discutir o projeto. O funcionário da Prefeitura afirmou que a ideia já está na pauta de trabalho do secretário Carlos Ananias Lobão.

Adicionalmente, a secretaria de Turismo cogitou instalar um busto em homenagem ao goleiro no lado externo do cemitério. Mas, inicialmente, a iniciativa deve se restringir mesmo à repaginada no túmulo.

Se hoje está próximo de ganhar status de atração turística em Praia Grande, o túmulo de Barbosa correu risco de desaparecer nos últimos anos, em razão do protocolo de renovação de espaço do cemitério local.

"A cada três anos recebo uma intimação para tirar o corpo dele. Em 2009 teve muita dengue na cidade, morreu muita gente em Praia Grande. Eles queriam tirar para colocar outros mortos. Fui pedir para não tirassem, era o Barbosa", relata Tereza, que contou com a intervenção de um vereador da cidade para manter o pai afetivo no local.

 

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