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Thomas Müller é o principal expoente da nova geração alemã formada em academias

Thomas Müller é o principal expoente da nova geração alemã formada em academias

02/05/2013 - 06h00

Revolução no futebol alemão tem R$ 1,4 bilhão para formar jogadores

Rodrigo Mattos
Do UOL, em São Paulo

Com dois times classificados para a final da Liga dos Campeões, Bayern de Munique e Borussia Dortmund, o futebol alemão atingiu o topo da Europa graças a uma revolução iniciada há cerca de 13 anos por clubes, federação de futebol e a liga nacional. Seu principal foco foi o investimento na formação de novos jogadores, com gastos de R$ 1,4 bilhão só em divisões de base dos times.

Esse plano foi elaborado em 2000 quando o time nacional germânico se viu em franca decadência ao ser eliminado na primeira fase da Eurocopa. A partir daí, a Federação Alemã de Futebol (DFB) - correspondente a CBF- e a Liga Nacional - que organiza a Bundesliga, campeonato local - se organizaram para tomar medidas para mudar o futebol nacional.

Foram dois os caminhos adotados. Primeiro, a Liga Nacional impôs, a partir de 2001, que os clubes teriam de ter academias formadoras de jovens jogadores para obter a licença para entrar na primeira divisão do campeonato alemão. Essa medida foi depois estendida à segunda divisão. Segundo, a DFB passou a criar centros de treinamento para crianças abaixo de 14 anos, em integração com escolas.

Finanças controladas

  • Além da renovação em campo, a Alemanha adotou regras para controle de gastos e da administração dos clubes. É obrigatório, por exemplo, que pelo menos 51% das ações da equipe pertençam a sócios, vetada a venda para estrangeiros. Gastos excessivos, acima das receitas, podem gerar a perda da licença do clube para jogar o Nacional. "Temos sempre uma filosofia de não gastar mais do que ganhamos", afirma o chefe-executivo do Bayern, Karl-Heinz-Rummenigge, ex-jogador da seleção.

Mas, antes de instalar esse sistema, os alemães mandaram seus técnicos para os países que eram vistos como de excelência em treinamento de jovens. Houve visitas à França, à Holanda e à Espanha, que eram consideradas referências. Avaliou-se da infraestrutura à formação de profissionais para atuar no futebol.

Com o know-how aprendido, os alemães começaram a formar seus CTs. Um exemplo é que o Borussia Dortmund, hoje finalista da Liga dos Campeões, não tinha uma academia de jovens antes da obrigação imposta pela liga. O segundo passo foi criar critérios para avaliar essas academias sob o ponto de vista de infraestrutura - campos, vestiário, equipamentos técnicos- e de pessoal -exames para técnicos, psicólogos e preparadores físicos. Com isso, o investimento dos clubes crescia a cada ano em suas divisões de base.

De início, os times investiam R$ 125 milhões por ano, número que praticamente dobrou depois de 12 anos. No total, clubes da primeira e segunda divisão já gastaram R$ 1,4 bilhão com infraestrutura e pessoal para a formação de atletas.

"Uma razão crucial para o sucesso recente com certeza foi o trabalho das academias da Bundesliga. O fato é que compulsoriamente se estabeleceu esse investimento o que não pode ser elogiado o bastante. Neste temporada, foram só R$ 240 milhões", contou  Christian Seifert, executivo-chefe da Liga.

Como resultado, foi revertida a tendência de queda do número de jogadores locais na Bundesliga o que ocorria até 2001. Na temporada de 2010/2011, 275 dos 525 atletas, ou seja 57%, eram alemães. Entre eles, estão nomes como Müller, Gotze e Jerome Boateng, que brilham na seleção alemã. É claro que times como Bayern, que tem muito dinheiro, também contam com vários atletas estrangeiros de ponta como Ribery, Luiz Gustavo e Robben.

Em paralelo ao trabalho da liga, a DFB instalou 366 centro de treinamentos de excelência pelo país, em associações com escolas, que atendem garotos de 10 a 14 anos. São verdadeiras escolas de futebol em que é feito um treinamento individualizado para cada jovem atleta. Cerca de 14 mil jovens são atendidos por essas escolas. Depois dos 14 anos, eles podem ter acesso às academias dos clubes.

O programa tem como objetivo incentivar a prática do futebol, mas também tem a intenção de que isso seja feito em paralelo com a formação escolar. A DFB, por exemplo, tem uma estatística que demonstra qual o percentual de seus jovens jogadores que se dedicam prioritariamente à gramática ou a ciências exatas. Há também psicólogos para acompanhar os garotos e organizar suas tarefas de forma que não exista prejuízo à escola por conta da atividade do futebol. Assim, boa parte dos atletas que se tornam profissionais também conseguem ir para a universidade.

Estrangeiros também são bem-vindos. Há uma estimativa de que jovens de até 80 países giraram nas escolas e nas academias de futebol alemães, o que trouxe novos estilos de jogo para o país. Um exemplo é que, em 2010, quase metade do time poderia ter jogado por outros países por ter nascido fora da Alemanha. Mas é importante que se adaptem à cultura germânica.

Dentro de campo, também foram adotadas medidas inovadoras na formação do jovem como pessoa, o que afetará também a forma como praticará o futebol. Um das premissas é que deve-se encorajar atletas a tomar iniciativa e também manter comunicação intensiva entre eles. Mais revolucionário é conceito, nas escolas de futebol da DFB e nas academias dos clubes, de que os atletas devem testar várias posições.

"Você pode atuar em diferentes papéis, cobrir diferente posições, provar as suas qualidades de liderança e se defender contra a oposição", explicou o diretor da academia do Werder Bremen, Uwe Harttgen. 

Há um impacto claro neste tipo de medida: jogadores dos times alemães, hoje, defendem e atacam com eficiência quase igual, independentemente da posição. Isso pôde ser visto nos confrontos das semifinais da Liga dos Campeões.

Para implantar conceitos sofisticados, obviamente, é preciso profissionais preparados para esse nível de trabalho. Por isso, há uma federação nacional de técnicos de futebol, que dá licenças com diferentes níveis. Há 1.200 treinadores profissionais no país, 5.000 com licença A e outros 2 mil com licença B. Ou seja, há um total de cerca de 9 mil técnicos certificados.

Ser técnico da divisão de base, na Alemanha, está longe de ser sinal de desprestígio. São comuns casos de treinadores que iniciam em base e vão subindo até chegar ao profissional do clube, o que é raro no Brasil. O próprio técnico da Alemanha, Joaquim Low, era auxiliar de Jürgen Klinssman no Mundial de 2006. Entre os diretores de divisão de base mais celebrados, está Mathias Sammer, ex-jogador da seleção alemã.

Todo esse trabalho nas categorias inferiores teve impacto não só nos clubes, mas também no time nacional. Em 2002, a seleção alemã foi vice-campeã com os veteranos de Copas anteriores, e pouca renovação. Mas, a partir de 2006, a equipe começou a exibir um novo estilo, embora ainda não consolidado. Atingiu o terceiro lugar, mesma posição da Copa-2010, quando o time foi sensação e parou apenas na campeã Espanha.

"Sem o trabalho e o apoio da liga, o sucesso do time alemão seria inconcebível. Crucialmente, graças às academias, há melhores e mais jogadores educados hoje do que nunca antes", ressaltou Christian Seifert, presidente da Liga.

Da atual equipe alemã, dependendo da formação, quase 20 dos 22 jogadores são formados nas novas academias de clubes para jovens. Como característica, são multiculturais (muitas vezes nascidos no estrangeiro), adaptados a fazer mais de uma função e integrados por ter sido criados em padrão similar de treinos desde novos. 

"Não sabíamos que podíamos ser tão despreocupados, felizes e alegre", contou o técnico do Dortmund, Jurgen Kloopp, ao jornal "El País". A mudança de estilo foi tal que treinadores alemães, hoje, se preocupam com a falta de cabeceadores, o que era o forte na cultura futebolística anteriormente.

Ao estabelecer a supremacia entre os clubes, os alemães deram mais um passo, mas falta superar os espanhóis entre as seleções. Ocupam a segunda posição no ranking da Fifa, atrás dos ibéricos, e já perderam deles em Eurocopa e em Mundial. O tira-teima será no Brasil, na Copa-2014.

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