Bernardo chora no Vasco e revela pressão em casa: 'Devo aos meus filhos'

Bruno Braz

Do UOL, em Pinheiral (RJ)

  • Bruno Braz / UOL Esporte

    Bernardo se emocionou ao falar de seus filhos e de seus pais em Pinheiral

    Bernardo se emocionou ao falar de seus filhos e de seus pais em Pinheiral

Aos 24 anos, Bernardo vive um momento crucial na carreira. Mesmo ainda jovem, já passou por tudo o que se possa imaginar em sua trajetória, experimentando a louca transição do céu ao inferno. Ciente de que recebeu uma oportunidade única do Vasco para se reerguer, ele se apega à família para fazer de 2015 o ano de sua ressurreição nos gramados, após polêmicas extracampo, uma grave lesão e um 2014 com poucas chances no Palmeiras.

Atualmente casado com sua esposa Patrícia e pai de quatro filhos - Enzo, de 8 anos, Lucca, de 5, Beatriz, de 4, e Mattheo, de 2 - ele não segurou a emoção ao falar ao UOL Esporte sobre a cobrança que sofre em casa para dar a volta por cima e retornar aos melhores dias dentro das quatro linhas.

"Estou devendo a eles já há algum tempo. Digo dever no sentido de estar dentro de campo, estar jogando. Filho, irmã, pai... Todo mundo me pede para estar jogando. Principalmente as crianças, que às vezes falam: 'Poxa, pai. Não te vejo jogar ', e eu não tenho o que falar. É f...!', disse, não controlando o desabafo e as lágrimas.

Em bate-papo realizado ao fim do treino de pré-temporada em Pinheiral (RJ), Bernardo ainda revelou uma conversa em particular com o presidente Eurico Miranda, seu desejo em atuar com a camisa 10 do Vasco, os lamentos em não ter tido sequência em alguns momentos no Cruzmaltino e no Palmeiras, e falou ainda sobre sua relação com a torcida e o clube de São Januário, mostrando-se motivado.

Confira a íntegra da entrevista:

UOL Esporte: Você teve um ano em que pouco jogou no Palmeiras. Temeu não ser aproveitado pelo Vasco para a temporada de 2015?
Bernardo:
Pelo ano no Palmeiras, não me bateu aquele medo, mas aquela indefinição de saber se eu ia voltar ou não, mas acompanhei pela Internet que o técnico Doriva tinha aprovado meu nome, que ia me dar uma nova chance, então isso me deixou mais tranquilo, calmo para o dia da apresentação . Estou feliz com a nova chance. É meu último ano de contrato e espero fazer um ano maravilhoso, sem lesão, sem qualquer tipo de problema.

UOL Esporte: E você guardou mágoa dos treinadores do Palmeiras por não te darem muitas oportunidades (no período em que ficou no Alviverde, ele foi treinado por Ricardo Gareca e Dorival Júnior)?
Bernardo:
Eu fui procurando meu espaço, mesmo sabendo do número de jogadores da posição que tinha, mas acabei não tendo muitas chances, então isso atrapalhou um pouco a sequência de jogos que eu queria ter. Também teve uma negociação com o Vitória que não aconteceu, isso atrapalhou. Depois chegou o Dorival, tive alguns jogos, mas acabou não dando certo. Porém, não guardo mágoa deles, principalmente o Dorival, que trabalhei aqui no Vasco e me conhece. Mas agora isso é passado e tenho que pensar só no Vasco.

UOL Esporte: Com essas idas e vindas onde as coisas acabaram não dando certo, você se convence, hoje em dia, de que o Vasco é, de fato, sua casa (além do Palmeiras, em 2014, ele jogou no Santos,  em 2012)?
Bernardo:
Bastante. Apesar de ter sido revelado pelo Cruzeiro, não tive a oportunidade que acabei tendo no Vasco. Aqui é minha casa. Sou querido, gosto muito de jogar aqui. Todos já sabem do meu sentimento pelo clube, os jogos que eu fiz, os gols decisivos, aquela explosão na comemoração... Tudo! O Vasco representa bastante para mim, já conquistei um título aqui (Copa do Brasil) e espero que esse ano não seja diferente. Há uma diretoria nova, o Eurico voltou, tem comissão técnica nova, jogadores novos, o trabalho está sendo fortalecido e está todo mundo se empenhando, principalmente eu. Este ano vamos batalhar para conquistar alguma coisa.

UOL Esporte: E como se sente com esta confiança que lhe foi depositada?
Bernardo:
Eu estou muito feliz, motivado. Tenho amigos, família, as pessoas aqui do Vasco, todos estão depositando confiança, então só depende de mim. É colocar para fora tudo que eu sei fazer dentro de campo. O extracampo não preciso falar. Já passei uma borracha nisso daí. Deixo de lado, apago. Agora é jogar bola mesmo (Em 2013, Bernardo foi sequestrado por traficantes da favela da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro).

UOL Esporte: Como tem reagido a pressão da torcida para que você volte a apresentar seu melhor desempenho?
Bernardo:
No primeiro ano que passei aqui (2011), fiz quase 60 jogos (foram 57). Mesmo sabendo dos jogadores que tinham, como Diego Souza, Juninho Pernambucano, Felipe, entre outros, consegui me manter. Em 2012, com o Cristóvão Borges, eu não tive também aquela sequência. Por isso que teve a saída para o Santos também. O torcedor cobra, a imprensa cobra, mas, às vezes, quero estar em campo e não tenho sequência. Depois voltei do Santos, comecei bem para caramba em 2013, correndo, fazendo gol, sendo artilheiro, aí tive a lesão (rompeu o ligamento do joelho direito, que o deixou oito meses fora). Isso que o torcedor tem que ver e entender. Porque se depender de mim, eu vou estar sempre ali no campo. Quero estar ali, quero jogar, mas respeito cada treinador. Nunca tive problema com treinador, mas é aquela falta de sequência. Sei que se fizer minha parte, o torcedor estará ao meu lado. Vamos ter um duelo bom para caramba na semana que vem (contra o Flamengo, dia 21, em Manaus, pelo Torneio Super Series) e espero começar com o pé direito.

UOL Esporte: Você acha que, pela expectativa criada em torno de seu futebol, já deveria estar em outro patamar se não fossem estes problemas que enfrentou?
Bernardo:
Hoje já era para eu estar num patamar mais alto. Não deu, tenho que entender e agora a oportunidade está ai. Já me sinto mais maduro, mesmo com 24 anos, mas já tenho experiência pelo quanto rodei. Me sinto mais confiante para ter um 2015 abençoado, com a cabeça boa e tranquilo para só jogar futebol.

UOL Esporte: Você revelou ter vontade de atuar com a camisa 10 do Vasco em 2015. Este pedido já foi feito formalmente à comissão técnica e à diretoria?
Bernardo: 
Não. Vontade eu tenho, mas sabemos que chegou o Marcinho e outros. Isso é mais um sonho, uma vontade mesmo de vestir. Já usei a 10 no Cruzeiro, mas por tudo o que já passei no Vasco, é um sonho, uma vontade de usá-la, mas cabe respeitar a vontade de quem escolher. Vou respeitar. O que eu quero é só jogar futebol. Joguei para o alto, se estiver separada ou se ninguém quiser usar, eu pego essa responsabilidade aí e vou para o campo.

UOL Esporte: E você já teve algum contato pessoal com o presidente Eurico Miranda?
Bernardo:
Tive antes da viagem para Pinheiral. Foi um papinho de 20 minutinhos. Foi tranquilo. Pude bater um papo com ele, é uma pessoa firme, um vascaíno nato, que quer o melhor para o clube e só me desejou coisa boa. Ele confia em mim, acredita em mim. Ele me falou que está me dando essa oportunidade nova, que toda criança e todo jogador gostaria de ter e eu entendo. Foi basicamente isso. Agradeci a ele pela oportunidade e agora é só corresponder dentro de campo, fazendo ele e a torcida feliz.

UOL Esporte: Você é um cara que está sempre postando fotos com seus filhos e familiares em geral. O apoio dos parentes nos momentos difíceis que enfrentou foi sua grande válvula de escape para não se abater de vez?
Bernardo: 
(pausa e emoção). Cara, família é tudo. A gente fica emocionado porque... (pausa para choro). Dá uma segurada aí na entrevista... (Bernardo faz uma pausa de cerca de dez segundos e chora). Acho que família é basicamente tudo no nosso coração. Tem que saber reconhecer o que eles fazem por nós, ainda mais os meus filhos. Todo mundo fala: 'Bernardo é maluco de ter quatro filhos', mas meus filhos são tudo na minha vida. Tenho certeza de que esse período que fiquei em São Paulo foi fundamental. Fiquei próximo deles, os levava na escola... Meu pai e minha mãe também são pessoas que são fundamentais para mim. Estou devendo a eles já há algum tempo. Digo dever no sentido de estar dentro de campo, estar jogando. Filho, irmão, pai... Todo mundo me pede para estar jogando. Principalmente as crianças, que às vezes falam: 'Poxa, pai. Não te vejo jogar '. E eu não tenho o que falar. É f...!' (desabafa falando um palavrão e chorando).

UOL Esporte: E seus filhos já pegaram carinho pelo Vasco também?

Bernardo: Sim, claro. O Lucca principalmente. Enzo também. A Bia é menininha ainda, só quer saber de boneca, e o Mattheo  está naquela fase de bola, chutando, falando gol e tal.  O Enzo e o Lucca conviveram comigo  no Vasco e sabem o carinho que tenho. Mesmo eles sendo pequenos, sabem o que é o Vasco, o que representa. O que eu quero para eles é fazê-los felizes, jogando e fazendo gol, porque tudo vai voltar ao normal.

UOL Esporte: Você sabe explicar por qual motivo, diante de tantas voltas que sua carreira já deu, o torcedor do Vasco se identifica contigo?
Bernardo:
Foi o que fiz dentro de campo. Às vezes pego um pouco pesado nas comemorações, mas é o estilo de jogo que eles gostam. Muitos jogadores passaram por aqui e eles se identificaram pela raça e entrega em campo. E eu sou assim. Eu acho que por isso há o carinho. Isso que passo para eles e acho que por isso eles têm este sentimento por mim.


UOL Esporte: Nesta sua trajetória de Vasco de 2011 para cá, qual você considera que tenha sido seu momento mais marcante pelo clube?
Bernardo:
Tiveram vários momentos. O título da Copa do Brasil (2011), o gol na semifinal do Carioca (2012), mas o mais marcante foi aquele contra o Fluminense, na penúltima rodada rodada do Campeonato Brasileiro (2011). Se o Corinthians tivesse tido outro resultado, poderíamos ter sido campeões. Espero que este ano tenham mais momentos com este (Nota da redação: neste jogo, o Vasco estava empatando até aos 45 minutos do segundo tempo e o resultado estava dando o título ao Corinthians, foi quando Bernardo aproveitou um rebote e fez o gol da vitória, que deixou o Cruzmaltino ainda vivo na disputa para a última rodada).
 

Bruno Braz / UOL Esporte
Bernardo garante estar motivado para dar a volta por cima em 2015

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