Em 1982, o dia 15 levou brasileiros às urnas com a ajuda do Corinthians

Diego Salgado e Gustavo Franceschini

Do UOL, em São Paulo

Neste domingo, um grande protesto contra a presidente Dilma Rousseff foi organizado pela oposição ao Governo Federal. A mobilização para o ato, há semanas, tem criado expectativa pela chegada do "dia 15". Em outros tempos, a data também foi usada para pedir participação popular na política, e naquela ocasião a mobilização passou pelo esporte, mais precisamente pelo Corinthians.

O evento em questão ocorreu em 15 de novembro de 1982, na primeira eleição direta para o governo estadual em 17 anos. No auge da "Democracia Corintiana", o clube fez um apelo para que os brasileiros comparecessem às urnas e estampou a expressão "Dia 15 Vote" na camisa do time. A mensagem, que se tornou importante para divulgar a ocasião, foi veiculada na parte de trás do uniforme nas cinco partidas anteriores à data do pleito responsável por eleger governadores, senadores e deputados.

Um dos líderes do movimento ao lado de Sócrates e Casagrande, o lateral Wladimir lembra que a atitude corintiana ajudou no processo de redemocratização do País. "Foi importante para levar o eleitor às urnas. E também para ele votar com consciência. Para entender que estava contribuindo para o bem-estar comum do Brasil", disse o ex-lateral.

Para levar a mensagem a público, a diretoria alvinegra contou com a liberação dos patrocínios nas camisas dos clubes brasileiros. Meses antes, o Conselho Nacional de Desportos (CND) autorizou o uso de marcas às costas do camisa.

"Na falta da venda efetiva desse espaço, o Corinthians resolveu utilizar o espaço para imagens e mensagens de motivação política. Tinha espaço regulamentado e não vendido. Aí aprovou-se essa mensagem", disse o jornalista e historiador Celso Unzelte, que ressaltou o caráter suprapartidário da expressão.

Wladimir lembra que houve uma reunião para decidir sobre a inclusão da mensagem no uniforme corintiano. "Conversamos a respeito. A gente compartilhava todas as decisões. E queríamos transmitir essa experiência para toda população. Dizer que cada um tinha muita responsabilidade na hora de opinar. Nós conseguimos sensibilizar muita gente com a camisa", relembra.

No Estado de São Paulo, 10,6 milhões de eleitores, de um total de 13,1 milhões, foram às urnas e elegeram Franco Montoro, do PMDB, como governador -- com 44,9% dos votos, ele superou Reinaldo de Barros (PDS), Jânio Quadros (PTB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Rogê Ferreira (PDT). Apesar da grande mobilização, Unzelte considera a ação menos abrangente do que o esperado pelas pessoas politizadas.

"Seria um exagero a gente dizer que aquela campanha mudou as cabeças de maneira massiva. Acho que acabou sendo uma coisa muito pontual. De qualquer forma era uma vitória. O Corinthians era um outdoor popular muito importante", ressaltou.

Mais ações no futuro
O episódio ligado à eleição de 1982 foi a primeira ação política do Corinthians no período em que a Democracia se fez presente no dia a dia do elenco. "Nós entendemos que tínhamos de participar ativamente da vida política do clube. Tínhamos essa consciência", afirmou Wladimir.

Fora de campo, o sociólogo Adílson Monteiros Alves, diretor de futebol corintiano no começo da década de 1980, tornou-se o maior articulador do movimento. "O Adílson foi um dos mentores. O cara, quando está com status de diretor, tem autonomia. E ele delegou para o grupo a responsabilidade de uma gestão compartilhada", explica o ex-lateral.

Na final do Campeonato Paulista de 1983, marcado pela segunda vitória seguida sobre o São Paulo na decisão estadual, os jogadores do Corinthians entraram em campo com uma faixa às mãos. Nela, mais uma mensagem: "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia". Após o empate por 1 a 1, que garantiu o bicampeonato, Sócrates e outros jogadores vestiram uma camisa com a expressão "Democracia Corintiana" às costas - a mensagem já tinha sido usada durante alguns jogos daquela temporada.

"Atribui-se ao Washington (Olivetto) a criação do termo. O Washington atribui ao Juca Kfouri em um encontro na PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). E ali o Washington já teria bolado a marca na camisa", explica Unzelte.

No ano seguinte, o Corinthians voltou a se posicionar politicamente. Sócrates usou tornozeleiras amarelas, aderindo à campanha das Diretas Já. Wladimir, Casagrande e Adílson subiram a palanques e engrossaram o coro pelo direito do voto para presidente.

O País, porém, acabou derrotado depois de a emenda Dante de Oliveira não ser aprovada pela Câmara dos Deputados. Sócrates deixou o Corinthians rumo à Fiorentina, como havia prometido no caso de um revés. Os eleitores brasileiros, por sua vez, conseguiram votar para presidente apenas em novembro de 1989. 

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