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Ilsinho quer deixar Shakhtar, procura time e ataca Rafinha: "Quis aparecer"

Mike Hewitt/Getty Images
Ilsinho, do Shakhtar Donetsk, em ação pelo clube ucraniano na Liga dos Campeões Imagem: Mike Hewitt/Getty Images

Danilo Lavieri

Do UOL, em São Paulo

2015-04-08T06:00:00

08/04/2015 06h00

Ilsinho não quer mais ficar na Ucrânia. O lateral direito admitiu que está acomodado atuando pelo Shakhtar Donetsk, onde joga desde 2007, entre empréstimos para o São Paulo e para o Internacional. Em entrevista ao UOL Esporte, o brasileiro explica que o fato de ter ganhado quase tudo que disputou o faz procurar novos rumos para voltar a ter motivação.

O jogador também relembrou a polêmica que se meteu na época em que deixou o Palmeiras, em 2006, e criticou Rafinha, lateral do Bayern de Munique que foi vítima de um vazamento com gravações detonando a postura da legião de brasileiros que atuam no time de Donetsk. "Para ser nojento que nem ele falou e tomando de 7 a 0, só se a gente for muito burro", afirmou.

O Shakhtar tem Márcio Azevedo, Wellington Nem, Fred, Bernard, Marlos, Fernando, Douglas Costa, Taison, Alex Teixeira, Ilsinho, Dentinho e Luiz Adriano como representantes brasileiros. 

Ainda na entrevista, o jogador contou que considera que seu treinador Mircea Lucescu, que fala em português na palestra e faz os ucranianos entenderem seu recado por meio de tradutores, tem métodos mais antigos de trabalho e revelou que ele e seus colegas sentem bastante medo da guerra, especialmente após serem forçados a deixar Donetsk. 

Confira a entrevista de Ilsinho ao UOL Esporte:

UOL Esporte: Como você avalia sua trajetória na Ucrânia até aqui?
Ilsinho
: Foram seis anos e meio, né? Eu tive a primeira passagem de três anos e agora está terminando o ciclo de três anos e meio. Fui vitorioso. De sete campeonatos, eu ganhei seis. Uma Copa Uefa e nem lembro quantas copas da Ucrânia, nem a Supercopa. Mas para quem achou que vinha aqui só pelo financeiro, profissionalmente foi muito bom. Jogamos todos os anos a Liga dos Campeões, então foi muito bom. Estou bem adaptado, posso dizer que conheço bem o país, que o  clima aqui não me afeta e a cultura também não. Mas que acho que meu ciclo aqui se encerrou. E eu tenho que procurar novos ares, novos desafios.

UOL Esporte: Mas se você está tão bem adaptado e ganhou tanto, por que mudar agora?
Ilsinho:
Acho que já fiz tudo o que tinha para fazer por aqui. Jogamos a Liga dos Campeões, chegamos até onde poderíamos. Ganhamos Copa Uefa, ganhamos o Nacional... Eu estou acomodado aqui. Então preciso de coisa nova, para me motivar, me desafiar, para sair dessa rotina muito tranquila. Os últimos cinco anos vencemos com certa facilidade o ucraniano aqui. Tínhamos um ou outro adversário, mas no geral foi tranquilo. Já ajudei em tudo o que poderia. Eu acho que posso jogar em alto nível mais três anos e quero buscar um novo desafio. Eu gostaria de ficar aqui na Europa ou pegar um time dos Estados Unidos, um mercado novo, sei lá. Estou aberto a coisas novas, estou escutando coisas novas. Estou aberto ao Brasil também.

UOL Esporte: Falando em Brasil, você saiu do Palmeiras muito brigado, teve a polêmica entrevista que você disse que sairia antes do Titanic afundar. Acha que teria clima para voltar ao Palmeiras?
Ilsinho:
Existia a pressão. Até hoje quando um jogador troca o Palmeiras pelo São Paulo, a imprensa sempre lembra de quem pulou o muro, das quedas de braço que os clubes travaram. Existia a pressão, mas o torcedor, por ser apaixonado, não entende algumas coisas de bastidores, mas é compreensível. Meu problema da entrevista foi que eu fui mal interpretado, eu falei em tom de brincadeira, ironia e fui mal interpretado. Não tenho problema algum com o Palmeiras. Foram cinco jogos e sempre me apoiavam. Sou profissional e, por mim, não tem problema algum. Mas clima, realmente, depois de tudo isso que aconteceu, é difícil. Foi situação chata que aconteceu na época e... O torcedor não esquece. Os dirigentes da época que eu tive problema de negociação não estão mais lá, são outras pessoas, mas ia ficar aquela interrogação, né? Da minha parte não teria problema algum. Guardo mágoa só dos dirigentes da época. Vejo o Palmeiras com projeto legal, montando time forte e que tem tudo para dar certo.

Jorge Araujo/Folhapress
"Sou profissional e, por mim, não tem problema algum. Mas clima no Palmeiras, realmente, depois de tudo isso que aconteceu, é difícil", diz Ilsinho Imagem: Jorge Araujo/Folhapress

UOL Esporte: Qual foi seu melhor momento aí na Ucrânia? E o pior?
Ilsinho:
Muito bom foi o momento de ser campeão da Uefa, estávamos em total evidência, nosso time era procurado, os jogadores eram procurados. A gente estava em um momento fantástico. Onde íamos, as pessoas nos conheciam. O momento difícil foi quando a gente viu nossa cidade sendo tomada pelos separatistas. Primeiro foi uma passeata na praça, depois tomaram um prédio da prefeitura, depois tomaram a entrada da cidade onde estava o exército. Um dia com exército na entrada e no outro os separatistas lá. Não enfrentei nada de violência e tiro, eu estava tranquilo lá. Eles andavam armados e tudo, mas nunca tive problema. As pessoas falavam muito de caminhões de guerra, de tanque, nunca vi nada, mas tinha sempre muito medo. Tínhamos de ficar espertos. Era dormir com medo de acordar e ver tanque de guerra, tiroteio. Difícil ver a cidade, que já considerava nossa, sendo tomada. Saímos de férias e não poderíamos mais voltar com as nossas coisas lá.

UOL Esporte: Aqui no Brasil, se fala muito que o Mircea Lucescu, seu técnico no Shakhtar, fala português e se dá bem com brasileiros. É por aí mesmo?
Ilsinho
: Ele gosta realmente do Brasil, do estilo do brasileiro. Fala português, mas ele fala trocentas línguas. Nas preleções e palestras, ele fala em português o tempo inteiro e aí tem um tradutor para os ucranianos. Agora, como treinador, ele tem um estilo antigo, né? Para controlar essa legião de brasileiros, para manter o time vencedor aqui no ucraniano, ele exige bastante. Ele dá treino forte, todos os dias, a pré-temporada é forte, o treinamento é pesado e longo. Ele faz a gente correr, exige bastante. Também por a gente não ler jornal, não ver TV, não sabemos o que estão falando da gente, então é ele que coloca a pressão. E ele coloca mesmo. Cobra quando empata, fica p... quando perde, elogia pouco quando ganha. E sempre cobrando. Ganhar é obrigação e se perder ou empatar ele cobra. Mostra vídeo para falar onde errou, chama a atenção.... Enfim, é muito exigente. Mas é uma pessoa boa, cuida de todo mundo, tenta colocar todo mundo para jogar. Somos em 11, 12, 13 brasileiros.. E ele faz rodízio, tenta agradar a todos.

UOL Esporte: Acha que ele daria certo no Brasil?
Ilsinho: É um teste bom a ser feito. Bem curioso. Ambos os lados precisariam se adaptar. O jogador ao estilo dele, que é bem pesado e rígido, que gosta de treino. E ele também. Porque no Brasil tem muito jogo. Então, se ele desse os treinos com a intensidade daqui, os jogadores iam ficar sobrecarregados. Aí, não vou dizer que se treina pouco, mas sim o necessário, o certo, porque são muitos jogos. Jogo de quarta e sábado, viagem de avião e um calendário pesado. Então ele precisaria de uma adaptação. E também se adaptar com a imprensa. Ele não gosta muito de vocês (risos). Aqui no nosso CT, ele deixava a imprensa no máximo 10 minutos durante o treino, falava antes do treino e já mandava embora, eles não podiam assistir nada. E aí é bem diferente, né?

Rafa Rivas/AFP
"Agora, como treinador, ele tem um estilo antigo, né? Para controlar essa legião de brasileiros, para manter o time vencedor aqui no ucraniano, ele exige bastante. Ele dá treino forte, todos os dias, a pré-temporada é forte, o treinamento é pesado e longo", diz Ilsinho sobre Lucescu, treinador do Shakhtar Imagem: Rafa Rivas/AFP

UOL Esporte: E como é a relação dessa legião de brasileiros que você citou?
Ilsinho
: Como aí no time brasileiro, que quase todos são brasileiros, as pessoas são diferentes, pensam diferente, então aqui não é diferente. Somos uns mais velhos, outros mais novos, alguns solteiros, outros casados e a cabeça muda. Os estilos são diferentes, são pessoas de gerações diferentes. Eu e o Luiz Adriano somos da segunda geração do time. A primeira teve o Batista e o Brandão. E depois teve Fernandinho e Jadson. Agora, tem os meninos: Fred, Bernard e Fernando que são bem mais novos. O estilo muda, mas o clima é bom. Estamos sempre falando de futebol brasileiro. O Marlos vê mais os jogos do Sul, o Wellington Nem, do Rio, eu, de São Paulo. E falamos bastante disso. Mas não saio muito com eles, faço mais programa com a família e vou sempre aos aniversários, porque nem tem o que fazer aqui.

UOL Esporte: Você não aceitou de cara a proposta para ir para aí na época em que estava no São Paulo. Como eles te convenceram?
Ilsinho:
Eu estava em um momento bom, a ideia não era de parar na Ucrânia. Mas depois de muita conversa, entre eu meus pais e meu empresário na época e o clube, eu acabei fazendo umas exigências. Financeiras principalmente. Aí o clube falou para demonstrar interesse em conhecer tudo por lá e decidir depois se queria ir. Depois de um jogo contra o Cruzeiro, em Minas, o Juvenal Juvêncio, então presidente, me liberou. Lá, conheci a estrutura, contei com a ajuda do Fernandinho que me apresentou tudo e eu gostei. Depois eles me deram tudo o que eu precisava.

UOL Esporte: Já ouvi falar que você teve uma semana de luxo para aceitar. Teve isso?
Ilsinho
: Teve, sim. O presidente mandou jatinho me pegar em Paris. Cheguei aqui e tinha Mercedes para mim e para minha mãe e outra para o meu empresário. Fizeram de tudo para agradar. Eles fazem isso. Eles têm o poder aqui. A cidade é praticamente toda do presidente, ele tinha total acesso e sabem como agradar um jogador que querem.

Ilsinho

  • Kerstin Joensso/AP

    "Ele deve ter falado em um grupo de amigos para contar vantagem, quis aparecer, mas não entendi o motivo. Mas também, entre nós aqui na Ucrânia, todos ficaram surpresos. Mas são coisas que não têm explicação. Nem sei o que dizer. Não entendi o motivo dele ter feito aquilo. Mas não tem como ser verdade. Só pelo resultado do jogo, para ser nojento como ele falou, só se a gente fosse muito burro. Nojento perdendo de 7? Só se a gente fosse meio burro"

    Ilsinho, Lateral do Shakhtar sobre polêmica com Rafinha

UOL Esporte: Recentemente, algumas mensagens do Rafinha, do Bayern de Munique, foram colocadas em público. O que você achou disso tudo?
Ilsinho:
Os ucranianos nem souberam. A gente também recebeu as coisas do Rafinha alguns dias depois. Ninguém entendeu o motivo daquilo, o motivo de inventar aquele monte de coisa. Eu achei sem necessidade, não sei porque ele quis fazer aquilo. Ele joga em um dos melhores times do mundo, talvez o melhor. Depois do jogo que eles ganharam, com 7 a 0, falar que o Douglas menosprezou o Schweinsteiger? Que o Adriano falou besteira para O Boateng? Só se a gente fosse louco. A gente é um time que busca espaço e aí falaríamos isso? Ele deve ter falado em um grupo de amigos para contar vantagem, quis aparecer, mas não entendi o motivo. Mas também, entre nós aqui na Ucrânia, todos ficaram surpresos. Mas são coisas que não têm explicação. Nem sei o que dizer. Não entendi o motivo dele ter feito aquilo. Mas não tem como ser verdade. Só pelo resultado do jogo, para ser nojento como ele falou, só se a gente fosse muito burro. Nojento perdendo de 7? Só se a gente fosse meio burro.

UOL Esporte: Ele falou com vocês? Pediu desculpas?
Ilsinho:
Não soube que ele falou com os meninos não. Comigo ele não falou. Não fiquei sabendo que ele procurou ou não.

UOL Esporte: Um dos áudios diz que o Bernard está afastado do grupo e que sofre na mão de vocês. Procede? O treinador também já deu bronca pública nele...
Ilsinho
: Como todo menino novo, em um país completamente diferente, sofre com a situação por ser um país novo e ele ser muito jovem. Vir para um país tão diferente é muito difícil. Mas a gente é muito enturmado e vejo ele sempre rindo e brincando aqui. Treinador está sempre querendo treinar de uma forma ou de outra e acabou pressionando pela imprensa. O Bernard é menino bom, foi para a Copa, era queridinho do Felipão e é um baita jogador. Ele tem todas qualidades para ir bem aqui, fazer a sua história, mas está passando por adaptação e está sofrendo com a forte concorrência. Ele tem concorrência direta com Taison, que é queridinho do treinador aqui. A concorrência dele é grande. Mas isolado ele não está. Sempre vejo ele de bem com a vida, é menino do bem, nunca fez mal para ninguém. Quando chegou aqui, ninguém apontou uma arma e fez ele vir. Ele fez as exigências e foram aceitas. Ele está certo em aceitar tudo o que o time quis dar. Agora é questão de tempo. Ele vai ganhar confiança e vai ficar melhor.

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