Racismo e prisão em campo. Caso Grafite e Desábato completa 10 anos

Diego Salgado e Vagner Magalhães

Do UOL, em São Paulo

Desábato nem conseguiu chegar ao túnel de acesso ao vestiário do Morumbi. Ainda no grande círculo do gramado, o zagueiro do Quilmes começou a responder pelo ato racista cometido contra o atacante Grafite, ainda no primeiro tempo da partida contra o São Paulo, na Libertadores 2005. Ao receber voz de prisão, Desábato deixou o estádio no carro da Polícia Civil e só pôde voltar à Argentina dali a 43 horas, após passar duas noites na cadeia e pagar fiança de R$ 10 mil.

"Foi o primeiro caso de racismo aqui no Brasil em que se tomaram providências. Nunca ninguém tinha tomado", relembra o delegado Osvaldo Nico Gonçalves em entrevista ao UOL Esporte, exatos 10 anos depois do caso.

O delegado, conhecido com Dr. Nico, estava no Morumbi naquela noite por outro motivo: combatia a ação dos flanelinhas no entorno do estádio. Mas, ao ver o desentendimento entre Grafite e Desábato na televisão, resolveu agir. "Vi aquela cena, em que ele (Desábato) chamou o Grafite de macaco. Aí eu consultei os meus superiores hierárquicos e falei: 'o que ele cometeu é crime'. Não é porque ele está nas quatro linhas que ele pode cometer crime e ficar impune", relembra.

O racismo ocorreu ainda no primeiro tempo (o São Paulo venceu o jogo por 3 a 1), após uma dividida entre Grafite e Arano, na linha lateral, bem próximo ao auxiliar. Desábato, então, chamou Grafite de "negro de merda", segundo contou o próprio atacante depois. O zagueiro Fabão, ainda no campo, confirmou a história. "Ele tava chamando de macaco, de negrito", disse na ocasião.

A reportagem procurou Grafite, mas não obteve resposta até o fechamento do texto. Quatro anos depois do caso, em entrevista à Folha de S. Paulo, o jogador chegou a afirmar que errou ao ter "proporcionado tudo aquilo, porque virou um espetáculo do que um caso".

Expulso de campo após a briga, Grafite, que chegou a empurrar a cabeça de Desábato após ouvir o xingamento, foi abordado pelo delegado quando deixava o estádio. De acordo com o atacante, Dr. Nico disse que subiria ao gramado porque não tinha sido justo o que Desábato tinha feito. "O Nico disse que ia prender o cara", afirmou.

"Consultei o delegado geral de polícia, na época era o Marco Antônio Desgualdo. Ele estava vendo na televisão. Falou com o secretário, falou com todo mundo e disse que era crime. Eu falei com o Juvenal Juvêncio (então diretor de futebol do São Paulo) e ele concordou. O Grafite estava muito ofendido por terem chamado ele de macaco. Ele representou e nós fizemos o caso", ressalta Dr. Nico.

O delegado descarta qualquer pressão para dar voz de prisão ainda no gramado. "Fizemos o flagrante, que correu bem. Não teve nenhuma pressão. Mas durante o flagrante eles (os argentinos) não se conformavam", disse.

Duas noites na prisão

Desábato, que chegou a ser algemado naquela noite de quarta-feira, foi denunciado por injúria qualificada. O depoimento de Grafite durou 4h30 -- o atacante deixou o 34º DP, localizado nas ruas próximas ao Morumbi, depois das 5h30. O zagueiro, por sua vez, passou ali a primeira noite na prisão.

No dia seguinte, Desábato foi transferido ao 13º DP, no bairro da Casa Verde, zona norte de São Paulo. Na sexta-feira, após o pagamento da fiança, o zagueiro embarcou rumo a Buenos Aires, com outros 14 jogadores do Quilmes.

Em outubro daquele ano, o jogador brasileiro retirou a queixa de racismo contra Desábato e o caso foi encerrado. "O Grafite tinha seis meses para representar na queixa-crime, mas me parece que ele desistiu de representar", disse Dr. Nico.

Grafite e Desábato nunca mais voltaram a se encontrar. O atacante, que hoje está no Al-Sadd, do Catar, deixou o São Paulo em janeiro de 2006 para defender o Le Mans -- depois, vestiu as camisas de Wolfsburg e Al-Ahli, dos Emirados Árabes. Já o zagueiro, após uma breve passagem pelo Argentinos Juniors, voltou a atuar pelo Estudiantes, clube no qual começou a carreira e ainda defende.

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