Topo

Futebol


Técnico do Inter usa aperto de mão como filtro: "Falsidade não dá"

Jeremias Wernek/UOL
Treinador tem como meta treinar o Benfica e diz que não sonha com seleção brasileira Imagem: Jeremias Wernek/UOL

Jeremias Wernek

Do UOL, em Porto Alegre

2015-08-25T06:00:00

25/08/2015 06h00

Um aperto de mão basta para Argélico Fucks, ou simplesmente Argel, saber se pode contar ou não com a pessoa. Técnico do Inter há quase duas semanas, o ex-zagueiro sustenta sua vida em cima da lealdade e de um estilo que mistura o jeito boleiro com ritmo acelerado. E onde a falsidade é detectada de cara e fica barrada na porta de um vestiário com regras diferentes do lugar comum.

“Se eu vou cumprimentar um cara e ele baixa a cabeça, já sei. É fria. Eu identifico isso direto, direto mesmo. Tenho um feeling bom, quando eu aperto a mão já dá para sentir tudo”, conta Argel em entrevista ao UOL Esporte, concedida em meio a um almoço. A atenção durante uma garfada e outra em um carpaccio e massa quatro queijos, acompanhada por vinho tinto, é a prova de que o treinador de 40 anos não para nunca. “Está cansado? Quando morrer vai dar para descansar bastante. Isso aqui (dar entrevista) faz parte do meu trabalho”, diz aos que trabalham com ele no dia a dia.

Confira a entrevista completa com o técnico do Inter.

UOL Esporte: Qual a primeira reação ao saber do interesse do Inter?

Não foi a primeira vez que o Inter teve interesse, claro que ninguém do clube entrou em contato comigo. O que eu sabia era pela imprensa, pela rede social. Mas nunca houve um contato. Foi algo espetacular, é o time do meu coração e onde joguei muito tempo. Onde morei cinco anos debaixo da arquibancada, o lugar onde me deu a chance de começar todo. E também é um reconhecimento ao nosso trabalho.

Você é um treinador conservador?

No futebol você não pode ser só conservador. Tem momentos onde vai ter que ser conservador, em outros vai precisar ser agressivo. Eu tenho meu jeito de ver futebol, tenho três esquemas táticos que uso sempre. Tenho minha forma de comandar, eu me preparei para este desafio: oito anos como treinador, 15 clubes antes. Eu me preparei para chegar aqui, vim debaixo, subindo degrau a degrau. A gente está no caminho certo e o meu perfil é simples. Cobrando profissionalismo, empenho, compromisso. Mas sem perder a minha essência, foi ela que me trouxe aqui.

UOL Esporte: Em 2008 você levou o Caxias até a final do segundo turno do Gauchão (Inter venceu por 8 a 1 no Beira-Rio e ficou com o título antecipado do estadual). O que aquela final ensinou?

Aquele jogo foi muito difícil. Primeiro, perdi meu melhor jogador: o Muriel, goleiro, que tinha contrato com o Inter. Perdi o Daniel Baloy (também jogador do Inter, emprestado ao Caxias). Perdi Paulinho, meu volante titular. Fiquei sem três jogadores importantíssimos. Para chegarmos à final tivemos de ganhar do Grêmio por 4 a 0 no estádio Centenário, do Juventude no Alfredo Jaconi e isso não acontecia há 10 anos. Chegamos naquela final desmontados. A gente sabia que ia jogar contra o melhor time do campeonato e digo mais. Naquele momento, o Inter tinha um time fantástico. Era um dos melhores times do mundo. Coitado do rapaz, o goleiro naquele jogo nunca tinha trabalhado como profissional e entrou no Beira-Rio lotado... Não perdemos só por causa do goleiro, foi por causa de todos, mas nunca imaginei que íriamos tomar uma goleada tão grande. Tem os lado positivo, os lado negativo, mas cheguei na final sem as principais armas e se eles estivessem em campo o resultado não seria de oito...

O que irrita você? Na vida, no futebol...

O que me tira do sério na vida e no futebol? A falsidade. Não consigo trabalhar com cara falso, não consigo trabalhar com pessoas que não olham no olho. Se eu vou cumprimentar um cara e ele baixa a cabeça, já sei. É fria. Eu identifico isso direto, direto mesmo. Tenho um feeling bom, quando eu aperto a mão já dá para sentir tudo.

E se acontecer com um jogador que você espera muito, logo no primeiro dia no clube, e não der certo? Como que faz, em uma situação hipotética...

No futebol você tem que tentar mudar, mas não gosto de falar de jogador. Estou falando disso na minha vida. No futebol cada um tem sua forma de agir, eu sou um cara do futebol. Não comecei ontem nisso, estou há 25 anos nessa. Precisamos aprender muito e vamos aprender muito. E tem aquela coisa, o melhor está por vir. Existem requisitos básicos, não só no futebol, mas na vida... Nem tudo é a ferro e fogo, é preciso saber conduzir. Se adaptar.

UOL Esporte: No primeiro treino você já mostrou seu estilo, ao fazer uma brincadeira com o Valdívia. Nos dias seguintes você explicou, inclusive, disse que interpretaram da maneira errada. Mas nos outros treinos chamou atenção que isto não se repetiu e por isso eu perguntou. O futebol anda muito chato?

Olha, tu deve estar enganado. Eu repeti com Alex, Nilton e no outro dia de novo. Isso é normal do futebol, os jogadores conhecem. A gente está em um momento de trabalho, de concentração total e existe um período para descontração. No treino de hoje (sexta-feira), eu disse que o Anderson era mais bonito que o Artur e ele respondeu: “Não, professor... O Anderson não é mais bonito que eu”. Quando os treinadores brincavam comigo, sempre era para descontrair. É algo normal, sadio. O que mais me importou e me importa é aquilo que o jogador pensa. O que os outros pensam não me interessa. O Valdívia entendeu como uma brincadeira, o Alex e o Nilton também. É algo que eu brinco mesmo. Às vezes eu chego a um hotel e digo: “Pô, mas aqui só tem cama de anão”. O futebol também tem seu o seu folclore.

Perfeito, mas hoje o universo do futebol é diferente. Tudo é polêmico...

Eu acho que está mais polêmico porque a imprensa cria polêmica. Antes a imprensa tinha mais liberdade e hoje não tem. Na minha época, terminava o jogo e o cara ia te entrevistar no vestiário. Você pelado, tomando banho. Era assim. Me lembro que tinha mulher repórter e nós pelado, trocando a roupa e dando entrevista. Era mais aberto, você falava mais. E tudo que é proibido é melhor, tudo que é proibido é mais gostoso. Como os clubes começaram a se fechar, qualquer coisinha que tenha a imprensa usa. E se não tem, a imprensa vai criar. As informações diminuíram, ficaram restritas. Em 1995, 96, 97 era totalmente diferente. Jogador não tinha assessor de imprensa, não tinha celular. Na concentração tinha um telefone e com tempo marcado para cada um falar. Uns 10, 15 minutos e nada além. Os tempos mudaram, mas não acho que o futebol esteja chato. As coisas evoluíram, não posso ficar pensando como era no meu tempo. ‘Ah, aqueles dias fazia coletivo no sábado e no domingo ganhava e tudo certo’. Era outra velocidade, o jogo era mais lento, não tinha tanto contato. Cada época tem que ser respeitada, não tem o que fazer. Depois que chegou a internet a informação se espalhou. Eu sou do tempo do mimeógrafo, da datilografia...

UOL Esporte: Até em cima deste ponto da informação. Antes do jogo contra o Ituano você jogou limpo, falou naquela alternância entre Valdívia e Sasha, mas essa sinceridade toda não pode cobrar um preço muito alto? Do tipo, dar arma para o bandido de maneira involuntária e antes da partida?

Eu não escondo escalação. Não fecho treino, pode até ser antes de uma final. E não acho que isso ganha jogo. O que ganha jogo é o trabalho da semana, os fundamentos nas partes técnica, tática e física. Informação não ganha jogo, todo mundo se conhece. É só dá um enter na internet e se sabe tudo que todo mundo faz.

Tem um elemento invisível no futebol que para muitos faz toda diferença. A confiança. Como que se faz para devolver isso ao jogador, ao time?

Isso é psicologia esportiva. O treinador, além de treinador, vai ser pai e irmão. Vai ser psicólogo. E não é só no futebol, em qualquer profissão a confiança é importante. Você pode ser o pica, o fera, se você perder a confiança, fodeu. E no futebol, um esporte de alto rendimento, essa alternância de confiança existe. E isso depende do comando, de quem está ali. Por isso tem jogador que atua menos ou mais com cada treinador. Vai do treinador, do feeling. A confiança é tudo. Um treinador que contém confiança é meio caminho andado.

UOL Esporte: A postura do técnico influencia? Passar, visualmente, segurança ajuda?

A postura do treinador é importante, a conversa com o jogador e com o grupo também. Mas o mais importante é o trabalho. Confiança passa por um passe bom. E para passar bem tem que trabalhar. Confiança passa por um gol, para fazer gol tem que trabalhar finalização. O treinador não é só para dar treino, o treinador tem que dar o treino e também corrigir o atleta.

De onde vem a inspiração para o seu trabalho? Quais referências?

Eu trabalhei com (José Antonio) Camacho, (Giovanni )Trapattoni, (José) Mourinho, (Emerson) Leão, Felipão, Ênio Andrade. Tive a oportunidade de trabalhar com grandes treinadores e você vai pegando o jeito de cada um. O bom deles você traz, mas sem perder sua essência. A minha essência me trouxe aqui e vai me levar lá, onde eu quero. Não posso perder minha seriedade, meu olho no olho, meu respeito. Meu trabalho. A maneira de trabalhar tem muito do que eu fui no campo. Sempre fui um jogador intenso, não tinha qualidade técnica e compensava com raça. Transpiração. Vontade. E o futebol vive disso, dessa aliança entre raça e técnica. Eu não mudei minha forma de trabalhar, sempre dei treino como estou dando aqui.

UOL Esporte: Você sonha trabalhar no Benfica? É o sonho da sua carreira como treinador, não?

Boa pergunta (pensativo)... Olha, um dia eu gostaria de treinar o Benfica. É um clube que está no meu coração, um clube onde eu joguei por cinco temporadas e pelo qual tenho respeito muito grande. Sou muito querido lá, sou português. Tenho passaporte português, dupla nacionalidade. Eu amo Lisboa, fui muito feliz lá e tenho apartamento lá até hoje. Uma vez por ano vou lá, dou uma olhada e vejo o que estão fazendo. Vejo os treinos no Benfica, no Porto e no Sporting. É um povo que respeito demais. O Benfica eu tenho identificação muito grande.

Umas respostas atrás você falou em não perder a essência, ‘ela vai me levar lá’. O lá é o Benfica?

Não, não. Lá eu quis dizer falando de vitórias. Sempre que termina um jogo, depois de uma vitória, eu junto o grupo e digo: “rapaziada, o melhor está por vir. Vamos seguir”. E é isso. Eu tenho o sonho de treinar o Benfica, tenho. Tenho o sonho de treinar a seleção portuguesa, tenho. Não me vejo treinando a seleção brasileira...

Você já é mais português que brasileiro, né?

(risos) Um pouquinho...

UOL Esporte: Porque você não se vê treinando a seleção brasileira?

Não tenha essa ambição. Não sei, não tenho essa ambição. Só isso. É questão de ambição.

O que você pensa sobre o calendário do futebol brasileiro?

O calendário não é respeitado, primeiro de tudo. Se faz o calendário e não se cumpre. Jogo que está marcado para o Rio de Janeiro daqui a pouco vai para Manaus. Vendem um jogo para o Mato Grosso, mudam o horário. Forçam uma mudança de logística. Já começa errado por aí. Concordo que são muitos jogos, concordo. Mas o Brasil não é europa, aqui o país é muito grande e existe campeonato regional. E o torcedor dá muito valor a esta conquista. Você ganhar o Campeonato Gaúcho como o Internacional ganhou é espetacular. É a glória. É preciso achar uma fórmula de enxugar, mas é difícil. O país é muito grande. Tem estaduais, Libertadores, Copa do Brasil, Sul-Americana... Não acho que este é o problema. O maior problema não é a quantidade de jogos, mas horários e mando de campo. E que todo mundo jogue no mesmo horário. Que nas últimas duas rodadas todos joguem no mesmo horário, hoje em dia não é. Não é.

UOL Esporte: Na viagem para o jogo contra o Cruzeiro você passou a pedir aos jogadores que não utilizem o celular nas refeições. E isto causou uma repercussão grande, indo naquela história de novo universo do futebol, da realidade atual. Que outros detalhes podem fazer a diferença?

Isso não é questão de fazer a diferença, volto a dizer. Novamente entenderam diferente, como foi no caso com o Valdívia. O Internacional não é exército, é um clube de futebol. Não sou o Capitão Nascimento, do BOPE, sou treinador de futebol. Mas em qualquer coisa você tem que ter profissionalismo, seriedade e regras. Eu não proibi celular, apenas impus aos jogadores que não usem o celular no almoço e na janta. Isso aí ajuda o pessoal a conversar entre eles, sobre jogo e família. Sobre o passe, o gol que fez e que quer fazer. Eles já ficam 90% do tempo no quarto, na internet. Ninguém proibiu, essa história de cartilha do Argel não existe. Caixinha no vestiário acabou. Não existe isso, o horário do treino é 9h30 e ponto. O cara tem que estar lá. Se não estiver, o cara que se vire e depois vai ter que se explicar comigo. Na primeira vez ele vai contar uma história, na segunda vai matar a mãe, o tio e todo mundo. E na terceira? Na terceira ele já não está comigo, está fora. O cara se atrasa no trabalho dele, o que eu vou fazer? Em nenhum outro segmento o cara chega atrasado e sai ileso. Ninguém no futebol tem profissão paralela, é só futebol. Eu costumo dar liberdade ao meu grupo e cobrar responsabilidade e aí o que acontece? Um cuida do outro e se cria unidade.

O que você pensa a respeito da CBF?

É preciso fazer uma reformulação e está tendo. Tem gente competente e séria trabalhando lá dentro. O Dunga é um cara sério, muito sério. O Gilmar é um cara sério. No futebol ninguém é eterno, nem presidente de confederação e de clube. Tem que haver essa reformulação. Está na hora de mudar o comando da CBF, entendeu? Gente nova, com outro ritmo, motivação. Com ideias mais atualizadas. Reformulando. Os jogadores precisam ter peso maior na decisão, os treinadores precisam ser mais consultados. A arbitragem tem que se profissionalizar. Eles são os únicos que são amadores, se errar como vou cobrar? Ele é amador. O árbitro tem que ser igual na Inglaterra, viver do futebol. A CBF está se reformulando agora, acho que já deveria ter passado por isso.

Mais Futebol