Mãe de Gabriel Jesus marca firme: "Filho meu baixa a cabeça quando eu falo"

Luís Augusto Símon

Do UOL, em São Paulo

Nos gramados, Gabriel Jesus tem sido um terror para os marcadores. Com velocidade e precisão na cara do gol, tem pintado como a grande revelação do futebol brasileiro. Em casa, é diferente. Quando vai brincar com os colegas, tem de tomar cuidado para não sujar a parede. Pode ser famoso, pode ser tietado, mas em casa é Vera Lúcia Diniz de Jesus quem manda.

Ela é mãe, mas também foi pai de Gabriel, Caique, Felipe e Emanuele. Rígida, faz todo mundo dançar conforme a música. Fez todo mundo estudar – "preto e pobre precisa de estudo" – e exige respeito com filhos alheios. "Meus meninos nunca vão engravidar filha dos outros".

Palmeirense desde a adolescência, quando frequentava os bailes da Chic Show no Palestra, sabe que o filho joga muita bola, mas afasta os apressados. "Seleção é para depois, ele ainda é um menino de 18 anos".

Rivaldo Gomes/Folhapress

Vera Lúcia, a mãe zelosa de Gabriel Jesus, falou muito mais ao UOL. Leia abaixo:

Como é a relação da senhora com o futebol?

Minha família sempre jogou, irmãos, primos, sobrinhos sempre atuaram na várzea. Eu ia junto. O time da nossa família é o Vitória, meus três filhos jogaram lá, o Felipe, o Caíque e o Gabriel. Todo mundo ia até a sede do clube e depois ia no ônibus para o jogo.

E como a senhora torce?
Grito muito, levo bandeira, como toda torcedora. O Caíque tem 22 anos e ainda joga no Vitória. O Felipe tem 24 anos e jogou também.

E a senhora sempre acompanhou os filhos nos treinos?
Eles se viravam para ir. Eu não podia acompanhar não porque sempre trabalhei como faxineira. Parei agora porque tenho uma tendinite no braço. Todos foram do Pequeninos do Meio Ambiente, um time da zona norte. Os dois mais velhos desistiram com o tempo. O Gabriel nunca desistiu.

Mas era difícil ir?
Sim. Eu acordava às 6h para ir trabalhar. E chamava o Gabriel. Eu não podia levar, era meio contramão e ele ia com os colegas. Um monte de meninos juntos. Pegavam o ônibus e depois caminhavam por uma trilha de 40 minutos, o campo é perto do presídio Romão Gomes Portão.

E na rua, ele jogava?
Todo dia, toda hora. Jogava no campo, jogava na quadra, em todo lugar. E sempre jogava com gente maior, mais velha. Não queriam que ele jogasse, mas ele dizia que ia. Sempre foi bravinho e não tinha medo. Os dois mais velhos também o ajudavam a jogar.

Machucava muito?
Bastante. Um dia fui para a cidade Tiradentes e o telefone tocou. Era o Felipe, dizendo que o Gabriel tinha estourado o dedo. Foi chutar e acertou a pedra. Nem foi o dedão, foi o dedo do lado. Não sei como conseguiu. Peguei o ônibus e, enquanto eu não chegava, o Felipe já levou ele para o Posto de Saúde. Aí, cheguei e perguntei se ele estava triste porque doía. Ele respondeu que doía, mas que a tristeza é porque ia ficar dois meses sem chutar a bola.

Na escola, cabeceou um pilar e rachou a cabeça. Fomos para o hospital e ele mandou o enfermeiro furar, dar ponto que não tinha medo. Pode ver que eles têm umas marcas na cabeça. Ele caía da escada também, sabe aquelas escadas em caracol, corria muito e caía.

O futebol atrapalhou os estudos...
De jeito nenhum. Ele terminou o colegial igual os outros dois filhos. Foi mais difícil porque ficava concentrado, mas eu o fiz correr atrás dos trabalhos e das anotações dos colegas. Eu sempre falei para eles que preto e pobre tem de estudar muito.

A senhora tem ciúme de namorada?
Não tenho ciúme, mas namorada de filho meu quando entra em casa tem de ser do meu jeito. Eu que dou o ritmo, não tem nada de ficar na beijação. Dormir em casa, só de vez em quando. O Gabriel tinha uma namorada, a Isabela, que eu amava de paixão, como se fosse minha filha. Era minha companheira nos jogos da base, a gente ia junto. Ela era meu xodó. Mas ele viajava muito e não deu certo. Foi pena.

Eu digo para eles que nunca vou aceitar que desrespeitem filha dos outros. Filho meu não engravida filha dos outros. Exijo respeito porque criei os três sozinha, com a ajuda de Deus.

São só os três...
Não, tem a Emanuele Fernanda, que é a mais velha. Ela tem 30 anos e é viúva, o marido morreu em um acidente de moto. Ela veio morar comigo e ajudou a criar os outros três. Ela me deu dois netos, o Rian, de 13 anos e a Amanda Fernanda, de 14 anos. Essa menina joga demais. Bate um bolão na rua. Agora, parou porque já está mocinha.

O fato de sua filha ter engravidado cedo faz com que a senhora seja exigente com os meninos?
Ela engravidou, mas já ia casar. Mas é um motivo a mais. E eles aceitaram meu conselho. Nenhum é pai. Mas também ninguém quer casar, ficam na minha aba (dá risada).

A senhora criou o Gabriel sozinha?
Eu estava grávida dele e me separei. O pai foi embora com outra. Não foi má pessoa, mas fiquei sozinha. Pedi para Deus me dar sabedoria e saúde. Não pedi dinheiro porque não se pede dinheiro a Deus. Dinheiro, a gente corre atrás.

E ele é respeitador?
Ele sempre foi arteiro, tinha dificuldade para tirar do futebol, mas sempre foi respeitador. Tem de baixar a cabeça quando eu falo. Sou brincalhona, mas exijo respeito.

O que ele gosta de comer?
Ele gosta de tudo, mas prefere arroz, feijão e estrogonofe.  Procuro fazer comida leve, especial, mas todo mundo come. Não é só para ele. Eu ajudei também a curar as câimbras dele.

Como assim?
Na minha família, todo mundo tem câimbras. Eu também. Como achei que estava atrapalhando ele, fui pesquisar na internet. E descobri uma vitamina com iogurte, banana e aveia. Bate no liquidificador e serve.

A senhora vai aos jogos?
Na base, eu ia a quase todos. Agora, de cada três jogos no Allianz eu vou em um. Tem muita concorrência, todo mundo quer ir e a gente ganha só três ingressos, então reveza.

Mas vê pela televisão?
Vejo todos. Contra o Atlético-MG (derrota por 2 a 1), eu vi no quarto dele, prefiro assim porque fico nervosa e grito muito, peço gol.

A senhora é palmeirense?
Sempre fui. O Marcão é meu ídolo. Eu cuidava de uma tia que mora na rua Padre Chico, em Perdizes. A gente acompanhava no rádio, era uma festa. Agora é o Gabriel jogando. Quando eu tinha 17, 18 anos eu curtia baile no Chic Show, que era lá no Palmeiras. Ia muito.

O que vê no futuro dele?
Futuro a Deus pertence, ele já chegou na seleção sub-20. Meu filho sabe jogar bola, mas outros coleguinhas também sabiam. Então, eu sei que é difícil o mundo do futebol. Não fico sobrecarregando ele, não fico falando de futebol em casa. Ele fica na televisão, no videogame, traz uns amigos de infância e ficam brincando. Depois, vão jogar bola no quintal. E eu xingo para eles não sujarem a parede.

Outro dia na televisão tinha uma enquete se o Dunga devia ou não convocar o Gabriel. Como a senhora votaria?
Eu votaria não. Ele tem 18 e está na sub-20, não é hora ainda. Todo tem seu tempo. Melhor é demorar um pouco e ficar bastante tempo na seleção. A gente não pressiona ninguém. Se ele ficar na reserva do Palmeiras eu não vou lá bater boca, não vou exigir nada. Sei que o Palmeiras cuida muito bem dele.

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