Com morte precoce, lateral do XV foi borracheiro antes de abraçar a bola

Adriano Wilkson*

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação / Inter de Lages

    Canavarros, então no Inter de Lages, morreu durante um treino do XV de Piracicaba

    Canavarros, então no Inter de Lages, morreu durante um treino do XV de Piracicaba

Por volta dos 12 anos de idade, Cláudio Canavarros Freire já tinha um trabalho de adulto. Para ter seu próprio dinheiro e por não querer depender de ninguém, batia ponto em uma borracharia da cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul.

Mas Cláudio também tinha um sonho: ser jogador de futebol. Ele jogava bola em uma escolinha famosa da cidade e um dia, quando seu time veio disputar um torneio em São Paulo, Claudinho foi convidado a fazer um teste em Jundiaí.

Era uma semana de peneira, mais de duas dezenas de competidores, mas o garoto sobressaiu pela força física e velocidade incomum para um zagueiro. Ficou dos 13 aos 17 no Paulista de Jundiaí. Longe da família, começou a dar forma a seu sonho de boleiro. Ganhou massa muscular, resistência e o apelido de Borracha.

Por ser rápido e gostar de ajudar o ataque, mudou de posição. Apesar de ter sobrenome de zagueiro campeão do mundo, foi jogar na lateral.

Estudava à noite (depois à tarde) e no resto do tempo treinava. Jogava videogame e treinava, ia à padaria comer salgadinhos e treinava. Treinava, treinava, treinava...

Até que apareceu um grupo de empresários, e esses agentes o levaram ao Santos, e então, aos 17 anos, ele se tornou um Menino da Vila.

Aos 18, foi campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Foi o grande título da sua carreira, mas também sua grande decepção porque apesar de ter sido titular durante toda a campanha, acabou sacado do time na final e viu do banco seus companheiros levantarem a taça.

Divulgação / Inter de Lages
Lateral marca Marcelinho Paraíba em treino do Inter de Lages

Aos 19, se transferiu ao Grêmio. Chegou a treinar com os profissionais, sonhando com uma chance no time de cima, o que nunca aconteceu.

Aos 20, levantou o caneco do Gaúcho sub-20.

No final do ano, seu contrato com o Grêmio acabou. Foi parar no Inter de Lages (SC) e lá fez seu primeiro jogo como profissional.

Em 29 partidas como titular, ficou fora de apenas uma, suspenso. Ele nunca se machucou. Nunca teve problema grave de saúde. Era o primeiro em todos os exames de pré-temporada.

Reprodução / Instagram

Aos 21, ficou sabendo que se tornaria pai. No dia de ano novo, postou uma foto no Instagram mostrando a barriga grávida de Priscilla, sua mulher, com a legenda: "Que 2016 seja repleto de amor, paz, saúde, alegria, sucesso pra gente."

Acabou sendo emprestado ao XV de Piracicaba para disputar o Paulista, o Estadual com maior visibilidade do país. A estreia seria logo contra o Corinthians na Arena.

No primeiro mês de 2016, treinou, treinou, treinou forte, treinou como ele sempre havia feito nos últimos dez anos, mas na quarta-feira passada, no meio de mais um treino, seu coração parou de bombear sangue aos outros órgãos e ele entrou em coma. Foi levado para o hospital e começou a lutar silenciosamente pela vida.

Doze dias antes de fazer 22 anos, com tanto jogo pela frente, Cláudio Canavarros Freire morreu, vítima de uma "arritmia súbita e inexplicável". Seus órgãos serão doados. Seu filho se chamará Caio. "É difícil de explicar e de aceitar", repetiam ontem todos os que o conheceram.

* Colaboraram Leandro Carneiro e Vanderlei Lima, de São Paulo

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