Vice-mundial no futsal se arrisca nos campos aos 39. E desiste após 15 dias

Emanuel Colombari

Do UOL, em São Paulo

  • Diógenes Baracho/Alecrim FC

    Joan jogou futsal por 20 anos antes de estrear nos gramados pelo Alecrim-RN

    Joan jogou futsal por 20 anos antes de estrear nos gramados pelo Alecrim-RN

Joan esperou por duas décadas, até que chegasse o dia de estrear como jogador profissional de futebol. E o dia chegou em um domingo, 24 de janeiro. Vestindo a camisa 10, foi titular do Alecrim na derrota por 4 a 0 para o América-RN pela primeira rodada do Campeonato Potiguar. Deixou o campo aos 15 min do segundo tempo, dando lugar a Henrique Eduardo.

A trama seria bastante comum, não fosse por alguns detalhes. O primeiro deles: Joan tem 39 anos, e fez sua estreia no futebol de campo depois de 20 anos como jogador de futebol de salão – fez parte inclusive da seleção brasileira que foi vice-campeã mundial em 2000, em uma equipe que reuniu nomes como Manoel Tobias, Falcão, Lenísio e Vander. O segundo: Joan abandonou a carreira nos gramados duas semanas após iniciá-la.

A história, entretanto, poderia ter sido bem diferente. Em 1995, Joan deixou Natal, onde nasceu, para jogar no time júnior do Santos. "Eu treinava de manhã no futsal e à tarde no campo. No final do ano, o treinador de juniores (Coutinho) subiu para o profissional, no lugar do Serginho Chulapa. A equipe de futsal tinha terminado o campeonato. Eu ganhava salário de futsal, não pelo campo. Como o Coutinho levou a galera dele de juvenil para os juniores, ficou bastante gente (no time júnior) e eu voltei para Natal", contou Joan, em entrevista ao UOL Esporte.

Em 1997, aos 20, Joan já estava na seleção brasileira de futsal. Ainda assim, teve mais uma chance no futebol de campo, no Santa Cruz – e também não se acertou.

"O primeiro contrato era muito pouco, e eu estava na seleção brasileira de futsal. Ganhava bem melhor, ao lado de (Manoel) Tobias e Falcão, todos. Eu estava no auge, tive que largar o campo mais uma vez. Depois rodei o Brasil", contou.

No final da década de 90, Joan atuou como ala de equipes como Ulbra (RS), Vasco da Gama, AABB (SP) e Carlos Barbosa. Até que veio o convite para jogar no futsal europeu. Em 2003, foi para a Rússia, onde passou 10 anos – foram sete temporadas no Dínamo Moscou e três no Sibir, separados apenas por uma rápida passagem pelo Iberia Tbilisi (Geórgia). Entre 2012 e 2015, atuou no Cazaquistão pelo Kairat Almaty FC.

UEFA.com
Na Europa, Joan jogou futsal por equipes de Rússia e Cazaquistão
O resultado da aventura no Leste Europeu? Foram três títulos de campeão europeu (2007, 2013 e 2015) e um Intercontinental (2014). Em dez anos, conheceu a glória nas quadras – e o frio.

"Já tinha morado no Rio Grande do Sul quando jogava pelo Carlos Barbosa, e tinha uma noção do frio de 0 grau. Mas nunca tinha pegado 40 graus negativos. Chegando lá no frio forte, a adaptação foi difícil", relembrou. "Para deixar o apartamento, o clube vinha buscar e deixar. Depois de um mês é que podia sair sozinho, porque a gente tinha receio do frio. A gente foi aprendendo um pouco o russo, fomos esquecendo o frio", completou.

O período na Rússia serviu também para aumentar o círculo de amizades. "Sempre tive grandes amigos no futebol de campo. Em Moscou, tinha o Vagner Love, o Daniel Carvalho (à época, ambos no CSKA Moscou). A gente se encontrava em restaurante, conversava", relembra. "Em Natal, tem o Souza, que jogou no América-RN, no São Paulo, no Corinthians. É um amigo que eu. No Vasco, quando eu jogava no futsal, tinha o Juninho e o Felipe, que jogaram futsal também."

Nos gramados, uma carreira de 15 dias

No fim de 2015, Joan deixou o Cazaquistão e voltou a Natal para passar férias. Em meio a reencontros com amigos e familiares, recebeu uma proposta do Alecrim para defender a equipe no Campeonato Potiguar. E como não era o primeiro convite do time, resolveu aceitar.

Diógenes Baracho/Alecrim FC
No futsal, Joan foi vice-campeão mundial pela seleção brasileira; em 2016, acertou com o Alecrim para jogar futebol de campo pela primeira vez
"Sempre estava jogando os campeonatos europeus (de futsal) e não tinha como ficar. Sempre que vinha para Natal, me convidavam para jogar ao Alecrim. Agora no fim de ano, resolvi ficar", contou o ala das quadras que virou meia nos gramados. "Você sabe, futebol de campo é chegar no estádio, bastante gente assistindo... Qualquer carreira de jogador é gratificante."

A estreia, com a derrota por 4 a 0 para o América, não foi a desejada. Na segunda rodada, Joan não foi relacionado para a partida frente ao Baraúnas – nova derrota do Alecrim, 2 a 0. Na terceira rodada, viu do banco de reservas a vitória por 2 a 0 sobre o Palmeira.

Mas antes mesmo da quarta rodada, em jogo fora de casa contra o ABC, veio a reviravolta. O próprio Alecrim anunciou a despedida de Joan, que acertou na quarta-feira (3) sua volta ao futsal russo. O destino: o Sibir, clube da região da Sibéria que defendeu por três temporadas. A liberação estava prevista em cláusula do contrato do jogador, que admitia voltar para o futebol de salão na Europa após o Potiguar.

"Queria muito ficar, muito mesmo. Estou cansado do frio, onde já peguei -40 graus, e das viagens longas", contou Joan, nas redes sociais do Alecrim. Embora já tivesse recusado uma proposta do Sibir no início do ano, Joan admite que o lado financeiro influenciou na decisão de interromper o sonho.

"Na última semana o presidente do Sibir me ligou e convidou novamente. Estou com 39 anos, terminando minha carreira e tudo o que eu consegui, na parte financeira, foi fora do Brasil, e não posso me dar ao luxo de jogar fora essa proposta. É um time que já joguei, a torcida me conhece" , completou.

No adeus ao Alecrim, Joan ficou novamente no banco de reservas e viu a equipe vencer o ABC em pleno Frasqueirão por 1 a 0. Já na quinta-feira, o ala - que já é avô - embarcou para a Rússia, deixando para trás a terceira chance de atuar no futebol de campo.

"Queria ficar, queria terminar o Campeonato Potiguar, gostei muito do Alecrim", disse Joan, ainda no Facebook do clube. "Aqui realizei um sonho, joguei futebol profissional. Cheguei e, com apenas três dias de trabalho, já fui o camisa 10 contra o América na Arena das Dunas. Fico muito feliz por ter passado esse período aqui. Quem sabe um dia eu não volte novamente?", encerrou.

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