Como ministro, Atlético-PR e Premier League formaram a sensação Ferroviária

Do UOL Esporte, em São Paulo

  • Daniel Vorley/AGIF

    Ferroviária é uma das sensações do Paulista

    Ferroviária é uma das sensações do Paulista

Destaque do Paulistão, a Ferroviária de Araraquara que bateu o Palmeiras e segurou o Corinthians é uma espécie de filial do Atlético-PR. O que pouca gente sabe é como isso começou a ser pensado, há quase oito anos, com o envolvimento entre o hoje ministro da Comunicação Social, Edinho Silva (PT), e Mario Celso Petraglia, atual presidente do conselho deliberativo e homem-forte do Furacão há mais de 20 anos.

Um dos acionistas majoritários da Inepar, empresa que atua entre outros nos segmentos de engenharia e eletroeletrônica, Petraglia era o vice-presidente do conglomerado quando da aquisição da planta industrial em Araraquara, em 1996, um ano depois de assumir a direção atleticana. Em paralelo, Edinho Silva seguia sua carreira política como vereador no município até assumir a prefeitura da cidade do interior de São Paulo em 2001. Silva sempre foi próximo da diretoria da Inepar, o que estreitou laços entre ambos. Até que Petraglia, que tem familiares na cidade, deixasse o cargo na empresa após decisão em assembleia, em 2002. O Atlético passou a ocupar todo o tempo do empresário.

Em 2008, já no fim do mandato, o então prefeito Edinho Silva mobilizou-se para quitar as dívidas da Fonte Luminosa, evitando um leilão do estádio após um concurso público de credores. Usando de sua influência junto ao antigo ministro dos Esportes Orlando Silva, Edinho conseguiu R$ 21 milhões em incentivos. A partir dali, o estádio passou por uma reforma com suporte público, cuja principal inspiração – e apoio técnico – veio do Atlético, dono do primeiro estádio em formato Arena no Brasil.

O arquiteto Lincoln Amaral ficou responsável pelo projeto. Visitou a Arena da Baixada e recebeu os atleticanos algumas vezes em Araraquara. "Foi uma parceria mais política mesmo. Estiveram aqui pra ver os projetos, mas não houve assim uma influência tão grande na obra. Teve influência de logística, transformar o estádio como se fosse um shopping, para uma vida comercial além dos jogos, com restaurantes, etc.", relembra Lincoln Amaral. "O [então] prefeito era apaixonado pela Ferroviária. O pessoal do Atlético emprestava a experiência e sempre dizia, 'façam mesmo [um estádio moderno], vale a pena'. Foi uma honra".

Um contrato entre a Ferroviária e a Prefeitura da cidade foi celebrado em 27 de dezembro de 2008, um dos últimos atos do prefeito, com duração de 20 anos e repasse de 10% da renda líquida dos jogos.

Danilo Lavieri/UOL Esporte

Idas e vindas da parceria

O acordo entre as duas equipes estremeceu em 2009. Petraglia elegeu Marcos Malucelli como seu sucessor no Atlético, mas ambos romperam. Com isso, algumas das diretrizes do clube mudaram, entre elas algumas parcerias. "Quando eu entrei em dezembro de 2008, não fiz negócios com a Ferroviária porque achava que tinha outros interesses por trás. Eu não queria saber disso no meu mandato", relembrou Malucelli. Na época, o meia Renato Cajá havia se destacado pela Ferroviária e o Furacão tinha interesse na aquisição, mas o jogador, emprestado para a Ponte Preta, acabou no Botafogo, antes de retornar à própria Ponte recentemente.

A parceria foi retomada em 2013, após a saída de Malucelli no ano anterior, com o empréstimo de 11 jogadores para a Ferroviária. Caminho aberto para que Pedro Martins, filho do ministro Edinho Silva, voltasse ao Brasil e logo tivesse a responsabilidade de trabalhar em um dos grandes clubes do País.

Durante período na Inglaterra, o filho de Edinho Silva se graduou em Gestão do Futebol em Liverpool e estagiou no Queens Park Rangers. "Consegui um estágio no QPR, rodei várias áreas do clube, vi a estruturação de um clube médio da Inglaterra. Eram líderes da Premier League e eu vivi essa experiência muito interessante, com gente como Flavio Briatore e Bernie Ecclestone, que eram acionistas do clube".

Pedro já havia passado pelo Atlético, como estagiário, entre 2006 e 2009. Ele voltou ao País para consolidar o Departamento de Inteligência de Futebol (DIF) no time rubro-negro, ao lado de outros profissionais que passaram por Arsenal e Bayern. "O objetivo do departamento é municiar informação e evitar o processo empírico", explicou Pedro Martins.

Know-how da Premier League chega à Ferroviária

Com a experiência na Premier League e após passagem pelo Atlético-PR, Pedro voltou à cidade natal. Petraglia decidiu expandir a parceria, colocando à disposição da Ferroviária vários profissionais do Atlético, desde os jogadores e técnicos até pessoas da área de gestão. "Ele viu a necessidade de um parceiro estratégico em São Paulo e o achou na Ferroviária. No começo eram só empréstimos. Aos poucos, o Atlético foi participando do processo de decisões da Ferroviária. O clube tem sua própria direção, mas conta com um parceiro, discutindo projetos e tendo sua contrapartida nas captações de atletas. A Ferroviária ganha com know-how e pode consolidar sua própria gestão. O sócio-torcedor, por exemplo, foi feito em conjunto", disse o filho do ministro.

O projeto mira a Série B do Brasileiro para o time de Araraquara. Em quanto tempo? "Não colocamos prazo. O modelo implica em consolidar a Ferroviária como clube", explica Martins, relembrando sua própria saída – e a do Atlético como todo – após a mudança de gestão no Furacão em 2009: "esse é um dos grandes desafios que os clubes tem: manter seu projeto desportivo sem ficar exposto a variações políticas".

Vitrine paulistana

Pedro Martins é o diretor executivo da Ferroviária, mas segue como funcionário do Atlético. Divide as atribuições do futebol com José Manuel Evaristo, contato do clube paulista. Além de Martins, o técnico Sérgio Vieira e 11 atletas do elenco da "Locomotiva", como é conhecida a Ferroviária, são atleticanos: os goleiros Rodolfo, Alexandre Cajuru e Hugo, o zagueiro Marcão, o lateral-esquerdo Luiz Paulo, o meia Matheus Rosseto, os volantes Juninho e Renan e os atacantes Caíque, Rafinha e Thiago Adan. Destes, seis foram titulares na vitória por 2 a 1, contra o Palmeiras. O experiente volante Rafael Miranda tem contrato com a Ferroviária, mas foi indicado por sua passagem no Atlético.

"Estar em São Paulo te dá uma serie de alternativas que podem contribuir com o crescimento do clube, como a transição de atletas. O Marcão, 19 anos, é titular; se fosse esperar para jogar no Atlético, levaria mais tempo. O próprio [técnico] Sergio Vieira, um grande potencial que poderia ficar escondido e hoje esta sendo exposto", detalhou Martins.

Enquanto isso, impulsionada pelo Furacão, a Locomotiva vai dando trabalho de sobra para os grandes no Campeonato Paulista. Além da vitória sobre o Palmeiras, o time já havia arrancado um empate do atual campeão brasileiro Corinthians. "Isso é importante para a cidade", comemora o dirigente.

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