Herói de 2007 deixou Santos em baixa. Hoje supera guerra e brilha na Europa

Emanuel Colombari*

Do UOL, em São Paulo

  • Rubens Cavallari/Folhapress

    Moraes fez o gol do título paulista do Santos em 2007, mas deixou o clube pouco depois

    Moraes fez o gol do título paulista do Santos em 2007, mas deixou o clube pouco depois

O São Caetano esteve bem perto de conquistar o Campeonato Paulista de 2007. Depois de vencer o Santos por 2 a 0 no primeiro jogo das finais, perdia o segundo por 1 a 0. No placar agregado, o time do ABC Paulista vencia por 2 a 1, e só perderia o título estadual - o segundo de sua história - caso o time da Vila Belmiro marcasse um gol nos minutos finais.

Mas o gol saiu, graças a um herói inesperado: o jovem Moraes. Aos 36 minutos do segundo tempo, o lateral esquerdo Kléber foi à linha de fundo e cruzou a bola para a área; sozinho, o camisa 18 cabeceou e superou o goleiro Luiz. Com a vitória por 2 a 0, Santos e São Caetano empataram no placar agregado, mas os santistas levaram a melhor, já que tiveram melhor campanha ao longo de todo o campeonato.

O gol de cabeça promoveu a carreira de Aluísio Chaves Ribeiro Moraes Júnior, então com 20 anos. Promovido aos profissionais do Santos naquele ano pelo técnico Vanderlei Luxemburgo, o atacante era reserva do time, e só entrou quando o treinador decidiu tirar Jonas – atualmente no Benfica – do campo. Naquele ano, conquistou a confiança de Luxemburgo.

"Ele que me revelou, me deu oportunidade de jogar no profissional, então acredito que eu devo muito a ele por essa oportunidade - por ter sido campeão paulista, vice do Brasileiro e ido até as semifinais da Libertadores. Foi um ano muito importante da minha carreira", contou Moraes, hoje no Dínamo de Kiev, em ao UOL Esporte.

A situação, porém, mudou de ares em dezembro de 2007, quando Luxemburgo deixou o clube e deu lugar a Emerson Leão. Com o novo técnico, Moraes perdeu espaço e a chance de se transferir para o futebol português, de onde recebeu propostas. Após o Paulista de 2008, Moraes - filho de Aluísio Guerreiro, atacante de Santos e Flamengo - acabou emprestado para a Ponte Preta.

"Ele já teve alguns problemas com meu pai, com meu irmão (o atacante Bruno Moraes, atualmente no futebol português). Eles já tinham me avisado que ia ser bem complicado para mim. Como eu vinha crescendo e meu primeiro ano profissional foi muito bom, eu ainda tinha uma esperança de jogar", contou Moraes.

"Não guardo nenhuma mágoa. Ele teve a escolha dele para não me dar a oportunidade de jogar, é opção do treinador. Mas, na época, eu fiquei bem chateado. Tive propostas para sair. Na época, ele disse que ia me dar oportunidade. Depois que passaram essas propostas, ele deixou bem claro que não ia me utilizar. Isso foi um pouco triste", completou.

Em 2009, Moraes acertou com o Santo André. Ficou no clube do ABC Paulista até o fim do ano, quando recebeu novas propostas do futebol europeu. Desta vez, acertou e foi para a Romênia e passou pela Bulgária antes de fazer sucesso na Ucrânia. 

Na Ucrânia, a guerra fechou seu clube

Pelo Metalurh, da Ucrânia, foram três temporadas, de 2012 a 2015, com 35 gols em 63 partidas. Neste período, Moraes não conquistou títulos, e ainda viu o país entrar em conflitos territoriais com a Rússia em 2014. A equipe do brasileiro deixou a região de Donetsk (leste do país, palco de conflitos entre insurgentes e forças de segurança) e foi realocada em Lviv (extremo oeste da Ucrânia).

O conflito, segundo o jogador, teve impacto direto no Campeonato Ucraniano. "Eu vivi a parte boa, tudo bem, estável. Os clubes pagavam muito mais do que agora. Depois que aconteceu essa guerra, essa crise no país, mudou bastante. Muitos clubes pararam de investir. Aconteceu mais ou menos como outros países: ficaram dois, três clubes brigando pelo título. Antes não era assim, era bem nivelado o campeonato", explicou.

O Metalurh foi justamente o clube mais afetado pela situação. Embora tenha terminado o Campeonato Ucraniano 2014/2015 na 10ª colocação (dentre 14 equipes), o time fechou as portas antes da temporada seguinte. Moraes, então, acabou se transferindo para o Dínamo de Kiev.

Divulgação
Júnior Moraes chegou ao Dínamo de Kiev no início da temporada 2015/2016, após três temporadas no Metalurh Donetsk
Embora a guerra tenha fechado as portas de seu clube, Moraes leva uma vida bastante tranquila na Ucrânia. "O estrangeiro acaba não vendo muito a diferença. O Dínamo de Kiev vive na capital, então a comodidade é bem tranquila. Não vi nada de diferente, de perigo, risco. Quem mais sente é o pessoal do Shakhtar, do Olimpik Donetsk, que mudaram de cidade", avalia o jogador, que vai além e garante só ter problemas com a culinária ucraniana.

"Desde que saí do Brasil, minha então namorada - hoje minha esposa - está comigo. Temos um filho de de um ano e dois meses. Ela sempre se adaptou bem. Todos os países pelos quais a gente passou, não teve dificuldade. Lógico, (a Ucrânia) é um país com menos opções de comida, então outros países são melhores para se viver. Mas não atrapalha", completa.

Chance para defender a seleção (mas não a do Brasil)

Pelo Dínamo de Kiev, campeão ucraniano em 2015, Moraes ganhou a chance de disputar a Liga dos Campeões da Europa. E a equipe não decepcionou: classificou-se com o segundo lugar no Grupo G (11 pontos, atrás do Chelsea, com 13) e avançou às oitavas de final da competição.

A equipe não chegava ao mata-mata do torneio desde a temporada 1998/1999, quando contava com Andriy Shevchenko e Serhiy Rebrov. Na ocasião, passou pelo Real Madrid nas quartas de final e caiu diante do Bayern de Munique nas semis.

"Estou muito feliz de jogar a Champions League. Acabei recusando propostas, e aceitei a do Dínamo porque (a Liga dos Campeões) era um dos objetivos que eu tinha na minha carreira. Acredito que já está valendo a pena, de jogar a Champions e jogar as oitavas de final. O clube não fazia esse sucesso nos últimos 16 anos", relembra.

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Na Ucrânia desde 2011, Júnior Moraes está cotado para defender a seleção local
Os bons resultados das últimas temporadas abriram portas inesperadas a Moraes. Sondado para defender a seleção da Bulgária, recebeu contatos semelhantes na Ucrânia. A possibilidade agrada, mas o jogador ainda espera ser lembrado por Dunga para jogar pela seleção brasileira.

"Tem conversas sobre isso com o pessoal da Federação (de Futebol da Ucrânia). Mas até agora não é nada oficial. Levo isso com muita cautela. Tenho o sonho de vestir a camisa da seleção brasileira. Acredito que nesses próximos meses são o tempo que eu tenho para pensar bem", afirmou.

Hoje, aos 28 anos, Moraes curte o bom momento na Europa. Embora queira defender o Brasil, as chances de voltar ao futebol brasileiro são pequenas. E nem um pedido do pai, hoje técnico, facilitaria.

"Tenho saudades do Brasil, acompanho o futebol brasileiro. Mas acredito que é bem difícil retornar tão cedo, pelo rumo que minha carreira tem tomado. Às vezes eu penso como seria se eu voltasse, porque eu joguei pouco. Trabalhar com meu pai como treinador? Acredito que não. A gente leva como profissional - seria um pouco pesado trabalhar com ele como treinador", diz o hoje camisa 11 do Dínamo de Kiev - que, no entanto, não fecha as portas para uma nova parceria com Bruno Moraes, revelado como ele no Santos.

"Acredito que seria muito legal. Joguei com meu irmão por seis meses na Romênia. Sou fã do futebol do meu irmão", elogiou.

Do frio da Romênia e o sucesso na Bulgária

Antes da Ucrânia, porém, a porta de entrada para o futebol europeu foi o Gloria Bistrita, então na primeira divisão romena. Foi lá que Moraes virou Júnior Moraes, justamente para se diferenciar do irmão - Bruno Moraes atuou no mesmo clube em 2010. O herói do título santista no Paulista de 2007 defendeu o time apenas na temporada 2010/2011, na qual a equipe acabou rebaixada.

"Tive uma proposta para Portugal e uma da Romênia. Só que a proposta da Romênia foi mais interessante", contou Moraes, que se informou a respeito do novo clube na época pela internet. "Era uma equipe de meio de tabela do campeonato, o campo tinha aquecimento subterrâneo. A Romênia não é um dos grandes centros que os brasileiros e o mundo conhecem, mas foi um ano muito bom para mim. Pude mostrar meu futebol, fui muito feliz lá", analisou.

No time de Bistrita, atualmente disputando competições regionais da Romênia por conta de graves problemas financeiros, Moraes conseguiu se adaptar - mesmo sem o irmão, que voltou ao futebol português no início de 2011. No novo clube, não raro, o atacante enfrentava temperaturas negativas no inverno. A língua romena, de radical latina, não foi problema.

"Quando cheguei em janeiro, era bem frio. Como eu era muito novo, eu levei tudo pelo lado bom. Era muita novidade, olhando pelas coisas boas. Me adaptei bem rápido. Não tinha nenhum brasileiro no time, só um português (o atacante Diogo Ramos, hoje no Freamunde-POR). Fiz amizade e aprendi a língua", contou.

Ainda em 2011, em fevereiro, o clube romeno negociou Moraes com o futebol ucraniano. No segundo semestre, o jogador chegou ao Metalurh Donetsk, que optou por repassá-lo ao CSKA Sofia. E foi na Bulgária que o jogador finalmente conseguiu explodir: com 16 gols, foi um dos artilheiros da temporada 2011/2012 do Campeonato Búlgaro, ao lado de Ivan Stoyanov (Ludogorets Razgrad).

Da temporada na Bulgária, Moraes guarda saudades. "A torcida do CSKA é realmente diferente de todas as que eu vi na Europa. São fantásticos. Gosto muito do jeito deles. Eles apoiam o tempo todo, são mesmo fanáticos. Eu nunca vi uma torcida que faz de tudo para ajudar o clube, até na parte financeira - o clube teve problemas financeiros e a torcida tentou ajudar de todas as formas. Foi um ano maravilhoso lá também. Fui o melhor jogador e o artilheiro do campeonato. A gente construiu esse elo legal. Dei a vida, o sangue pelo clube. A torcida reconheceu isso. Foi um ano que me entreguei dentro de campo", disse o jogador, recebido com festa na torcida quando retornou ao clube a passeio.

No meio de 2012, porém, Moraes fez novamente as malas. Era hora de voltar ao Metalurh Donetsk e tentar brilhar no futebol ucraniano.

Colaboração para o UOL, Pedro A. Lopes

 

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