Adepto do futebol bem jogado, Cruyff se inspirou e virou crítico do Brasil

José Ricardo Leite

Do UOL, em São Paulo

Morto nesta quinta-feira (24) aos 68 anos após travar batalha contra um câncer de pulmão, Johan Cruyff deixa como legado sua visão perfeccionista de futebol e sua ideia de que é possível jogar ofensivamente e vencer com criatividade. Foi um dos revolucionários do esporte ao ser o líder em campo do Carrossel Holandês da Copa de 74, além de ser um dos mentores do estilo de jogo praticado hoje pelo Barcelona. Jamais abriu mão da ideia que é possível jogar bonito sempre.

E boa parte desta inspiração vem do Brasil. 'Canarinho' romântico e fã da essência do futebol pentacampeão, Cruyff usou a seleção campeã em 70 como sua referência e, nas últimas décadas, passou a ser crítico ferrenho da maneira como o time verde-amarelo passou a se apresentar em campo.

O ex-zagueiro Marinho Peres conhecia Cruyff como poucos brasileiros. Foi companheiro dele no Barcelona na década de 70 e costumava ter longos diálogos sobre futebol com o holandês. Diz que ele via o Brasil com potencial para ser imbatível.

"Ele falava que o futebol brasileiro tinha uma qualidade impressionante e fazia coisas que o europeu não fazia. Os caras daquela época eram referência dele. A Copa de 70 é algo que o motiva, falava em Gérson, Rivelino, Tostão. E ele falava que nós brasileiros poderíamos evoluir ainda mais nos aspectos táticos", contou Peres ao UOL Esporte, antes da Copa de 2014.

O holandês era uma das personalidades mais respeitadas na Catalunha. Já chegou até a vestir a camisa e ser treinador da seleção local que, apesar de disputar amistosos, não é reconhecida pela Fifa e tem como objetivo apenas de ser um símbolo da região.

Essa relação começou quando ele foi contratado pelo Barça em 1973, depois de fazer o Ajax brilhar com um tricampeonato europeu. Jogou cinco anos no time azul-grená e ainda foi treinador por mais oito (1988 a 1996). Neste período, ganhou com o clube o título que era mais sonhado e único que faltava na época, a Liga dos Campeões (1992).

É visto como o grande mentor da escola de futebol do clube que se perpetua até os dias de hoje, com toque de bola e manutenção. Passou a ter status de ser intocável na cidade e a assombrar os técnicos e jogadores do clube pela relevância de seus comentários, alguns deles muitas vezes críticos.

Antes da Copa de 2014, gerou polêmica ao criticar Neymar. Mesmo classificando o brasileiro como "mágico", afirmou que um jovem de então 21 anos não poderia chegar a um clube com status de estrela e que isso poderia atrapalhar o elenco. Também duvidou do sucesso do atual trio de ataque do Barça ao afirmar que "Messi, Suárez e Neymar são individualistas".

Outro craque brasileiro também tem bagagem para falar sobre Cruyff. Hoje senador, o ex-jogador Romário foi comandado pelo holandês no Barcelona. O resultado? O então técnico simplesmente batizou o atacante de "gênio da grande área". Se alguém quisesse tirar um sorriso do crítico ex-técnico e jogador, era só perguntar de Romário. Adjetivos não faltariam.

"O melhor jogador que eu cheguei a treinar? Tem que ser o Romário. Você poderia esperar qualquer coisa dele em campo. A técnica dele era algo extraordinário", já disse Cruyff quando perguntado sobre o brasileiro.

O encanto do exigente holandês era tanto que ele já contou ao jornal francês L´equipe com bom humor um pedido do Baixinho para que fosse liberado para ficar fora do clube dois dias para curtir o Carnaval. Cruyff quis testar a genialidade do pupilo. "Falei pra ele: se você fizer dois gols no jogo, te dou dois dias a mais de descanso que o restante da equipe'. No dia seguinte, ele marcou seu segundo gol com 20 min de jogo e imediatamente fez um gesto para mim pedindo para sair."

Romário, em entrevista ao UOL Esporte antes da Copa-2014, contou que o chefe era um cara exigente. Mas era só fazer o que ele gostava, com genialidade e gols, para ele mostrar a sua faceta menos ácida. "Ele sempre me cobrou muito, mas não tinha problema porque eu sempre correspondia e ainda fazia mais do que ele me pedia", lembrou.

Mas Romário está longe de ser o único brasileiro que Cruyff enchia a boca para falar. Suas críticas às seleções do país que jogaram as últimas Copas do Mundo eram sempre por querer ver nelas o futebol de outros times que os encantaram, como as seleções brasileiras de 70 e 82.

"Nunca pagaria uma entrada para assistir a um jogo dessa seleção brasileira. Para onde desapareceu o futebol brasileiro?", questionou, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo antes da Copa de 2010. "Olho para esse time e lembro-me de pessoas como Gerson, Tostão, Falcão, Zico ou Sócrates. Agora, só vejo Gilberto, (Felipe) Melo, (Michel) Bastos, Julio Baptista", afirmou. "Onde está a mágica brasileira?", resmungou.

Uma das demonstrações de respeito de Cruyff com o futebol brasileiro foi quando o Barcelona perdeu a final do Mundial Interclubes de 1992 para o São Paulo, no Japão. "Se for pra ser atropelado, que seja por uma Ferrari. O São Paulo jogou como campeão do mundo."

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