Presidente da Portuguesa renuncia, vê time se apequenando e revela ameaças

Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

Jorge Manuel Marques Gonçalves pediu renúncia ao cargo de presidente da Portuguesa de Desportos. A decisão do cartola acontece em um período de intensa briga política, somada ao péssimo rendimento do time em campo. A Lusa está ameaça de rebaixamento para a 3ª divisão paulista.

Em entrevista ao UOL Esporte, o ex-mandatário revelou ter sido ameaçado por torcedores durante uma partida da Portuguesa. "A gota d'água foi ir assistir a um jogo com meu filho e os seguranças terem pedido para que eu fosse embora porque havia um risco grande de ser agredido. Não preciso disso", explicou.

A crise na Lusa é generalizada. No fim de semana, torcedores invadiram o CT do clube e ironizaram os jogadores, oferecendo um amistoso. Na segunda-feira, o técnico Ricardinho foi demitido.

"Os últimos dois presidentes renunciaram. A Portuguesa não está acabando, mas está se apequenando. Ela não tem as providencias para se ajustar as mudanças que estão acontecendo no futebol", continuou Gonçalves.

O Conselho Deliberativo da Portuguesa votou por unanimidade, na última terça-feira (29), a aprovação da abertura de um possível processo de impeachment de Gonçalves. O ex-presidente não teria mostrado os contratos assinados por ele em nome do clube.

Confira o comunicado de renúncia

Venho, por meio desta carta, comunicar aos funcionários, associados, conselheiros e, especialmente, torcedores da Associação Portuguesa de Desportos, minha renúncia ao cargo de Presidente do Clube.

Tomei esta decisão antes da reunião do Conselho Deliberativo desta terça-feira, e preferi não comparecer à mesma para evitar constranger os diretores que estariam ali presentes.

Estava claro que a forma de convocação para esta reunião, fora dos prazos estatutários e dirigida a poucos conselheiros, tinha o objetivo de direcionar as decisões e precipitar minha saída.

Quando assumi o desafio de presidir a Portuguesa, há um ano, convidei pessoas de minha confiança e de competência comprovada para administrar o Clube. Por sermos um grupo pequeno, unimos forças com outras correntes políticas de forma a criar um planejamento para os 20 meses seguintes.

Traçamos metas para todos departamentos e conseguimos, em 12 meses, avanços significativos em diversas áreas. Estruturamos o departamento de Futebol e especialmente o Centro de Treinamento, que agora tem hotel para concentração dos atletas. Modernizamos o Marketing e as Comunicações, angariando receitas fundamentais e ampliando os canais de contato com o torcedor e com a imprensa, entre eles o programa de sócio-torcedor, que foi totalmente remodelado.

Profissionalizamos a área jurídica e contratamos assessoria especializada para acompanhar as diversas questões trabalhistas e tributárias, o que nos protegeu de repetir erros do passado. Reduzimos e otimizamos o quadro de funcionários, de acordo com as reais necessidades do Clube. Promovemos mais eventos, além daqueles já tradicionais, de modo a movimentar a área social e gerar receita.

Além dessas e de outras medidas, buscamos manter uma relação transparente com nosso torcedor, para resgatar a identificação e o orgulho ferido depois de tantos anos de notícias ruins.

Em alguns momentos, atingimos esse objetivo parcialmente, mas na maioria do tempo encontramos obstáculos enormes. Lutamos contra problemas antigos e atuais, internos e externos, com todas nossas forças.

Tive ao meu lado diretores íntegros e que enfrentaram, junto comigo, a desconfiança e a má vontade de boa parte daqueles que se julgam os grandes homens da Portuguesa. Por outro lado percebi, ainda que tardiamente, as mesmas atitudes traiçoeiras dentro da nossa própria diretoria.

Entendi, finalmente, que jamais seríamos aceitos. Não nos encaixamos nos parâmetros vigentes, em que o sobrenome correto ou determinadas relações pessoais definem seu destino político no Clube. Brigamos o quanto pudemos, mas esgotamos nossas forças. A Portuguesa, infelizmente, continua dominada pelas mesmas atitudes que a levaram a este estágio.

Enquanto nos aproximamos de um momento crucial, em que avançam as negociações para que nosso patrimônio imobiliário seja requalificado, interesses pessoais escusos ressurgem com força.

O mau rendimento dentro de campo criou o cenário desejado por alguns, e a falta de escrúpulos afetou a vida particular de dirigentes reconhecidamente honestos e trabalhadores, vítimas de vandalismo e ameaças. Entre inimigos conhecidos e ocultos, tornou-se impossível manter nosso projeto.

Gostaria de agradecer o apoio vindo dos associados e torcedores, que entenderam nossa mensagem e neste momento, compreensivelmente, estão revoltados e magoados com os resultados da equipe de futebol.

Agradeço principalmente aos funcionários, que mesmo com dificuldades e salários atrasados, e apesar dos homens da Portuguesa, trabalham com dignidade para manter o Clube funcionando. Vi exemplos de entrega e desprendimento que levarei por toda a vida.

Espero que esta decisão pacifique o Clube e que, com a minha saída, aquelas pessoas que não ajudaram, ou mesmo que tentaram colocar obstáculos, se sintam confortáveis para finalmente ajudar – pelo bem da Portuguesa.

Todos conhecem pessoas sérias e competentes que se afastaram do Canindé. Esta passagem pela presidência serviu para compreender melhor o que expulsou e segue a expulsar essas pessoas. A Portuguesa parece ter donos que, mesmo após apequenarem o Clube continuamente nos últimos anos, seguem se dedicando a dividir, rejeitando e inviabilizando qualquer tentativa de modernização e profissionalização.

Espero um dia ver essa Lusa moderna, e tenho certeza que isso só irá acontecer se nossa torcida e nossa coletividade estiverem sempre atentas e vigilantes em relação aos interesses do Clube.

Jorge Manuel Marques Gonçalves
Presidente

 

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