Ato político da Gaviões começa com exaltação à paz e termina com confusão

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

Embaixo de um imenso viaduto, em cima de um caminhão de som estacionado em uma praça escura, um dos diretores da torcida organizada Gaviões da Fiel se prepara para discursar. Ele vai falar para milhares de corintianos reunidos ali em protesto contra o Estado.

Ou, como eles preferem, contra o sistema.

"Família", chama ele, "a gente achou que depois de tudo que aconteceu hoje ninguém encostaria no ato, mas foi um erro nosso. O pessoal compareceu para mostrar a força dos Gaviões. Apareceu mano de todas as quebradas!".

Havia ali gente de vários bairros da capital, da região metropolitana e de cidades do interior do Estado. Ao todo, oito sub-sedes da torcida ou cerca de 5 mil torcedores, de acordo com a conta da própria organizada.

"A gente vai respeitar todo mundo aqui. A gente é corintiano, mas pode ser que tenha palmeirense, são-paulino, santista, não importa... vamos respeitar qualquer pessoa", diz um dos líderes com o microfone na mão.

"Eles querem que isso aqui exploda", diz outro, se referindo ao sistema. "Mas isso aqui vai explodir é o caralh*! Vamos mostrar para eles que aqui só tem trabalhador, pai de família, que a gente só quer fazer festa e a paz no futebol".

Adriano Wilkson/UOL

A multidão responde com animação, com cantos que exaltam a torcida, com sambas-enredos antigos, com fogos de artifício, e desfraldar de bandeiras, pulos e festa. Eles protestam contra a corrupção no governo do Estado, cantam que não vão sossegar enquanto o presidente da Assembleia Legislativa, seu inimigo público número um, não cair.

Não há nenhum sinal de agressividade, selvageria, violência, vandalismo.

Chico Malfitani, um dos fundadores da Gaviões, também sobe no caminhão para discursar. Ele lembra o histórico de resistência da organizada durante a ditadura e exalta os companheiros a seguir resistindo.

Quando ele desce, eu me aproximo e pergunto quando havia sido a última vez que ele tinha visto tanta gente da Gaviões se reunir para um protesto político como aquele.

Politização

"Quê?", pergunta ele.

Eu repito.

"Escuta, vamos sair daqui", diz Chico, me puxando pelo braço para longe do furdunço. "Eu tô velho e não consigo ouvir nada".

Enquanto caminhamos em direção a um banco longe do centro do protesto, Chico, um sexagenário de cabelos brancos e voz vigorosa, me explica que estava em uma praia do litoral de São Paulo quando resolveu voltar às pressas para discursar no ato da torcida.

"Só para dar uma orientação ao pessoal, mas eles são espertos e sabem formar suas opiniões por conta própria", diz ele. "Essa politização pela qual eles estão passando nós também vivemos no auge da luta contra a ditadura".

Adriano Wilkson/UOL
Chico Malfitani, de camiseta branca e bermuda, se prepara para falar aos corintianos

Conversamos sobre o desempenho político da Gaviões por alguns minutos até que eu peço para ele tentar me explicar quais são as causas por trás da violência entre as torcidas organizadas. Cito a morte de um homem inocente ocorrida há duas semanas antes de um clássico contra o Palmeiras.

Ele lembra da morte do garoto Kevin Espada por um torcedor do Corinthians na Bolívia.

"São tragédias", ele diz. "A violência é parte das torcidas porque é parte do país, da vida desses garotos, do dia a dia das periferias das grandes cidades. É difícil cobrar um comportamento pacífico desses garotos quando a violência é banalizada na vida deles desde a infância".

"Mas as torcidas organizadas não deveriam agir mais incisivamente no combate aos torcedores violentos?", questiono.

Ele diz que a direção da torcida tenta fazer sua parte, mas que é muito difícil controlar mais de cem mil associados espalhados pelo país inteiro. É o mesmo argumento que qualquer líder de torcida vai usar se estiver diante da questão.

Alguns minutos depois de me despedir de Chico, eu teria uma pequena e pedagógica amostra dessa dificuldade.

"São as bichas!"

Também é difícil entender como tudo começou.

A primeira coisa que eu vi foi um corre-corre, seguido de gritos e braços apontados para o alto, na direção de uma escadaria que dava em um viaduto. De repente, uma parte da multidão que estava concentrada no centro da praça se preparando para ir embora começou a correr na mesma direção.

"São as bichas, mano!", avisou um torcedor subindo a escadaria. Bicha é como os torcedores rivais se referem aos são-paulinos.

Enquanto alguns corintianos corriam na direção de onde supostamente haviam sido vistos torcedores do São Paulo, outros caminhavam em sentido oposto, tentando convencer seus companheiros a voltar.

"Deixa quieto, mano, Gaviões não é disso", foi uma das coisas que eu ouvi.

E, então, um dos diretores da torcida, um sujeito simpático ainda vestido com o uniforme do trabalho por baixo da camisa da Gaviões, correu no meio dos homens que ameaçavam um ataque aos rivais e tentou dissuadi-los com palavras como:

"Família! Volta, família! Deixa disso, pessoal. Não vamos estragar essa noite".

Alguns torcedores deram meia-volta.

Outros não.

Adriano Wilkson/UOL
"Os terroristas vestem farda"

Em uma esquina atrás do Teatro Municipal de São Paulo, todos pararam. O diretor conseguiu articular uma espécie de cordão de isolamento humano que evitou o avanço dos Gaviões. Havia a informação de que a alguns metros dali estava a sede de uma organizada são-paulina.

Enquanto uns corintianos tentavam avançar, outros tentavam segurá-los. A tensão no ar pareceu ganhar massa e fazer pressão sobre as nossas cabeças.

E então uma pancadaria começou.

Descontrole

Um homem foi cercado por uma dezena e recebeu chutes e socos. Aqui e ali outros grupos trocavam socos ou ameaças. Eu vi mãos em pescoços, testas com testas, olhares agressivos, dedos na cara. Corintiano brigando com corintiano por nenhuma razão aparente.

No meio de tudo, puxei o celular e tentei fazer uma foto. Estava muito escuro. Um dos torcedores veio para cima e exigiu que eu parasse com aquilo. Eu parei. A foto ficou horrível. O torcedor passou a fazer ameaças até que o diretor que tentava controlar tudo tentou, e conseguiu, controlar aquele sujeito ameaçador.

Alguns minutos depois, tudo se acalmou. Ninguém foi preso, nem ficou seriamente ferido. A Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana estavam por perto e viram a cena de braços cruzados.

"Ainda bem que eles não fizeram nada", me disse o diretor, aliviado. "Se eles entrassem naquela hora imagina o que poderia acontecer...".

O que aconteceu?

Durante a noite inteira, os diretores da torcida se mostraram empenhados em evitar que um ato de violência manchasse o protesto que eles haviam programado, uma reunião que, no entender deles, seria importante para preparar os associados para as consequências que virão por eles estarem "peitando o sistema".

Eles pareciam saber que se houvesse violência talvez isso repercutisse mais do que a pauta que eles estão defendendo. O empenho deu certo até os 45 minutos do segundo tempo, quando tudo quase saiu do controle.

Mas em um balanço final, o que aconteceu é que torcedores do Corinthians se reuniram em um dia sem jogo para mostrar sua indignação com o que eles consideram injusto. Alguns, depois disso, resolveram brigar entre si.

Os primeiros eram milhares. Os segundos, algumas dezenas.

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