Tinga se lança como coach e vê ineficácia no apoio psicológico nos clubes

Juliana Alencar

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

Ídolo recente do Internacional, Paulo César Tinga assumiu um novo desafio na carreira. Aposentado desde 2015, quando deixou o Cruzeiro, o ex-volante de 38 anos agora se dedica a formação de novos talentos. Mas a missão dele passa longe de ensinar fundamentos do futebol.

Desde março, Tinga virou uma espécie de coach: ele lançou um curso online no qual ele se propõe dar o caminho das pedras para quem pretende seguir a carreira no futebol profissional. São cinco horas de vídeos nos quais ele usa a própria experiência no esporte para ajudar derrubar a ideia que talento e treino bastam para se alcançar o sucesso nos gramados. Tinga foi um dos profissionais mais respeitados do futebol, e, em grande parte, exatamente pela postura. 

"Um atleta de sucesso é, antes de tudo, um cidadão. Tudo o que eu aprendi, aprendi escutando e observando profissionais ao longo da minha carreira. Sempre fui muito atento a isso. Foi na raça. Mas, infelizmente, muita gente fica no meio do caminho ou se perde por falta de instrução", avalia Tinga, sem citar casos específicos. "O futebol pode ser muito perigoso para quem não desenvolve esse lado. Você acaba caindo em armadilhas, muitas vezes porque você não tem nem informação nem estrutura psicológica para encarar a carreira".

Tinga se cercou de consultores para desenvolver o programa do curso, disponibilizado no site bytinga.com.br, ao custo de R$ 397. Foram mais de seis meses gravando as pequenas palestras que abordam temas que não necessariamente têm a ver com a rotina do futebol. Em uma das aulas, ele trata sobre como uma boa estrutura psicológica é fundamental para lidar com o sucesso e as frustrações do dia a dia da profissão. 

"De uma partida para a outra um garoto se vê ganhando 10 vezes mais que ganhava. Isso mexe com a cabeça de uma maneira muito forte. É muito difícil não se deslumbrar", reconhece. "A maneira como as pessoas acabam lidando com frustrações também é, em geral, muito ruim. Ninguém está pronto para ouvir um 'não'".

Tinga sugere que os clubes também não estão preparados para lidar com essa geração. Não critica, mas acha pouco eficaz o trabalho desenvolvido pelos psicólogos dos clubes para minimizar os problemas que vem na esteira dessa realidade. Citando o próprio exemplo, ele crê que é muito difícil os atletas conseguirem falar suas angústias e inseguranças.

"Não funciona. O clube não pode esperar que um atleta abra opiniões que possam eventualmente prejudicá-lo. Quem vai assumir que tem problema com o técnico, por exemplo? O atleta não quer se queimar", afirma ele. "Existe um receio, sim. Em 20 anos, eu nunca falei nada".

Tinga projeta levar o seu trabalho para atletas que atuam nas bases dos clubes do país. Diz ter sido consultado pelo Cruzeiro para levar parte do trabalho para os meninos que estão dando os primeiros passos rumos ao futebol profissional. Mas, por enquanto, descarta trabalhar como funcionário do clube.

Idealista, Tinga também tem planos mais ambiciosos: ajudar a repensar o futebol no país. "A falta de gestão profissional não é o único problema do futebol brasileiro. Acho que parte também da maneira como o esporte tem sido tratado na base. Você vê garoto de 12, 13 anos, e ele já está fazendo treino tático. Não acho que é o caminho", opina. "Ninguém mais brinca de futebol, perdeu-se esse lado mais lúdico do esporte. Acho que a gente precisa resgatar um pouco esse espírito para que possamos voltar a sermos diferentes".

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