Presidente da FPF descarta paulistas na Primeira Liga e gosta de Globo x EI

Danilo Lavieri

Do UOL, em São Paulo

  • Rodrigo Corsi/FPF

    Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da FPF, concedeu exclusiva ao UOL Esporte

    Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da FPF, concedeu exclusiva ao UOL Esporte

Os paulistas não terão o menor interesse de aderirem à Primeira Liga. A afirmação categórica dada ao UOL Esporte é do presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos.

Em sua primeira entrevista exclusiva desde que assumiu o cargo, o dirigente reconheceu que precisa se mexer para modernizar a gestão, mas vê parte da transformação comandada pelos clubes parar apenas na mudança de nome.

"Este modelo que eu participei e que existe até hoje de futebol esgotou. Este tipo de gestão, acabou. Vai chegar mais rápido e ser reconhecido mais rápido o clube e a federação que saírem da zona de conforto. As pessoas precisam se reinventar", disse. "As pessoas falam que a Federação não presta, mas parece que se a gente mudar de nome para Liga Paulista tudo vai estar resolvido".

Ainda na linha de novidades no futebol, Reinaldo elogiou a concorrência entre Globo e Esporte Interativo pelos direitos de transmissão e revelou preocupação com medidas para que os estádios fiquem sempre cheios. Até a volta da cerveja está em pauta na FPF.

Confira a entrevista exclusiva de Reinaldo Carneiro Bastos ao UOL Esporte:

UOL Esporte: Qual o seu balanço do Paulistão de 2016?
Reinaldo Carneiro Bastos:
 É positivo. Fiquei apreensivo esses dias porque eu precisaria rebaixar 18 equipes (somando todas as divisões). Os clubes acreditaram na FPF, acreditaram que a gente precisava fazer campeonato mais interessante. Chegamos ao fim sem problemas. Tirei um peso das costas, porque foi sem trauma. Fiquei muito feliz com a arbitragem também.

É ruim não ter nenhum representante da capital na final?
Você tem menos visibilidade, é claro. Mas mostra aos clubes em geral, para o Interior, que é possível sonhar. Você pode chegar. Ituano chegou há dois anos e o Audax está chegando agora. É bom, queremos fortalecer o Interior, onde está o fomento do futebol.

Após um ano, qual seu próximo objetivo na gestão?
Eu preciso fazer com que o torcedor volte aos estádios. Essa é a minha cabeça. Já tivemos no Interior um aumento de 25%, de outros 25% de público na A-2. Mas eu quero ver o jovem dentro do estádio.

A imagem do futebol no mundo está desgastada com escândalos de corrupção. A FPF tem sofrido com isso?
A imagem do futebol no mundo inteiro é muito ruim. Nunca vi nada parecido. Esse problema com entidades que a gente tinha como exemplo e descobrem problemas lá atrás, em relação a decisões da Copa do Mundo, de problemas no Brasil e na América do Sul. Nunca vivemos uma situação tão difícil do futebol. Temos que entender as pessoas imaginarem isso de mim também. Para acabar com essa imagem, montei uma equipe profissional, de pessoas escolhidas por competência. Isso só se reverte com trabalho.

Mas isso tem atrapalhado a federação em busca de novos parceiros, por exemplo?
Tem essa dificuldade, sim. Mas também tem a desculpa de que o país está parado. A gente enfrenta um pouco menos isso porque historicamente temos poucos parceiros, mas com imagem desgastada e economia ruim, fica mais difícil ainda.

Bruno Domingos / Mowa Press

Você já presenciou, ouviu falar ou participou de esquemas que foram desvendados recentemente?
Não, em nenhum momento. Comecei na FPF como diretor administrativo, há 30 anos ou mais. Participei de todos os departamentos da entidade e sempre fui de muito contato com clubes, atletas, treinador e dirigente... É isso que eu gosto de fazer, amo futebol, gosto de ter contato com gente, ver o futebol crescendo. Então, graças a Deus, eu nunca tive, não participei, não senti e não vi qualquer assunto que não fosse correto. Eu falo aos meus filhos: se tiver dúvida do que está fazendo, pensa e se pergunta. Você pode contar para todo mundo? Se não puder, analisa, porque você pode estar errado.

O Marin esteve por um tempo na FPF e agora está preso em Nova York. Como você vê essa situação?
É muito triste. É lamentável. É uma tristeza. Nunca imaginei que isso fosse acontecer com ele. Ele não pode nem falar com a gente.

Apesar de estar sendo investigado por corrupção, Del Nero te ensinou algo durante a convivência na FPF?
O Marco Polo, quando assumiu o cargo, pegou a FPF em um desgaste da administração do Farah. Ele é advogado conceituado, respeitado e isso ajudou o futebol de São Paulo, a melhorar a imagem, a recuperar a credibilidade com os clubes. E ele foi mais democrático para tratar de todos os assuntos, fez contratos melhores e passou a caminhar de uma forma mais serena.

Qual é hoje a relação entre FPF e CBF? E entre Reinaldo e Del Nero?
Como tem que ser: institucional. Falando de futebol, dando ideia, solicitando ações da CBF, em benefício do futebol de São Paulo. É uma relação absolutamente normal, institucional.

Os clubes reclamaram bastante de não ter com quem falar durante o período de licença de Del Nero. As federações sofreram também?
É óbvio que clubes sentiram, tem federações que sentiram também. Mas eu estou muito tempo no futebol. Eu tenho o respeito das pessoas e respeito as pessoas.  A FPF não teve problema, mas em alguns momentos eu interferi, sim, por filiados, por competições nacionais, para as coisas andarem mais. E as coisas estão mais calmas agora.

Você tem o desejo de ser presidente da CBF?
Qualquer um que disser que não quer ser presidente da CBF, a chance de ser verdade pequena. Mas não faz parte do meu projeto chegar à presidência da CBF neste momento. Não fizemos 10% do que precisamos fazer com os clubes para sermos diferentes dos outros. Para sermos muito (levanta a voz) diferentes e modernos.

Os representantes da Primeira Liga falam a todo momento que aguardam os paulistas. Você aprovaria essa participação?
Esta questão, não é como a FPF trabalha, mas como os clubes querem trabalhar. As pessoas falam que a Federação não presta, mas parece que se a gente mudar de nome para Liga Paulista tudo vai estar resolvido, vai ser a revolução. Não é isso. O nome da instituição não te faz nem com mais nem com menos, mas é o trabalho. Não faz sentido os paulistas participarem da Primeira Liga. O Estado de SP tem 40% do PIB (Produto Interno Bruto) do país. Não tem porque entrar em competições que envolvam outros clubes, de outros estados, porque isso não geraria receita parecida com os clubes daqui. A torcida dos clubes de São Paulo está no Estado. Todas as vezes que clubes vão ao interior, fazem sócio torcedor, vendem mais camisas e acessórios, muito mais do que ir para outros estados. Por isso eu digo: não é a FPF querer ou não, mas não tem como os clubes enxergarem algo melhor ou até parecido do que temos aqui. E eles (clubes) falam isso a todo momento.

Divulgação Esporte Interativo


E como você tem acompanhado a concorrência entre Globo e Esporte Interativo?
Acho bom para o futebol. Um lugar só para vender o produto, você vai vender por menos. Apesar da Globo sempre reconhecer muito o futebol paulista. Mas é óbvio que quando há uma disputa, há  a lei da oferta e da procura. Os clubes têm que analisar.

Você sentiu os clubes com medo da novidade? Com receio de assinar com o Esporte Interativo?
Não achei, não, viu? Achei eles gostando da ideia. Eu não senti receio, não. Senti eles gostando, escutando, negociando. O Corinthians foi o que menos negociou, foi mais para a Globo mesmo. O Palmeiras está negociando com os dois e o São Paulo negociou bastante antes de fechar com a Globo.

Alguns Estados têm liberado a cerveja nos estádios. Qual sua opinião sobre o caso?
Eu sou favorável. Há o interesse do consumidor, que é o torcedor, da empresa que está comercializando, interesse do fabricante, e do clube, que vai ter aumento de arrecadação significativo. O Botafogo de Ribeirão vendeu cerveja na Série D do ano passado. E temos dados fantásticos. O torcedor entra mais cedo no estádio e melhora o acesso. Como estavam com filho, passaram na loja do Botafogo e compraram a loja inteira. Porque quem entra só na hora do jogo nem quer saber disso.

E como você trabalha para que isso volte a acontecer?
Nós conversamos com vereadores. Aqui temos uma lei antiga no Estado e outra na Câmara, na cidade. E mesmo que a lei Estadual seja modificada, na cidade de SP, não pode. São dois caminhos que estamos percorrendo. Estamos em um momento difícil do país e temos de respeitar o momento.

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