Zagueiro explica como carros e WhatsApp ajudam a unir elenco do Palmeiras

Diego Salgado

Do UOL, em Atibaia (SP)

  • Cesar Greco/Ag Palmeiras

    Thiago Martins em Atibaia: zagueiro titular do Palmeiras

    Thiago Martins em Atibaia: zagueiro titular do Palmeiras

Voltar de empréstimo aos 20 anos e se tornar titular absoluto do Palmeiras dois meses depois é um roteiro improvável. A história do zagueiro Thiago Martins, entretanto, quebrou esse paradigma. De volta ao clube alviverde depois de uma passagem pelo Paysandu, o defensor ganhou a confiança de Cuca para atuar ao lado de Vitor Hugo.

Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte concedida em Atibaia, onde a equipe alviverde se prepara para o Brasileirão, Thiago Martins falou sobre a nova realidade no Palmeiras, clube que o contratou em 2013, quando ele tinha apenas 18 anos e defendia o Mogi Mirim.

O zagueiro também deu detalhes da convivência entre os jogadores palmeirenses. E revela: a paixão de alguns atletas por carros ajuda a unir o elenco, assim como os grupos do WhatsApp -- Thiago faz parte de dois, o da "garotada" e o do grupo inteiro.

O defensor ainda relembrou como se tornou jogador de futebol. Segundo ele, foi preciso abrir mão da infância e da adolescência para conseguir chegar ao objetivo. E encarar o desafio de mudar de cidade e deixar a família para trás em Minas Gerais antes mesmo de completar 15 anos.

Thiago, além disso, falou sobre os planos para o futuro. Ele admite sonhar com a seleção olímpica e diz que quer voltar a estudar depois de encerrar a carreira para ter um "plano b" (por ora, com o ensino médio completo, o atleta se dedica às aulas de inglês).

UOL ESPORTE: O Palmeiras é um time com muitos jovens. Isso chega a ser um problema em algumas situações?
 
Thiago Martins: O Cuca está certo ao mesclar jogadores mais experientes com os mais jovens. Vai dando uma liga. Todo mundo corre, todo mundo ajuda a marcar, todo mundo volta. Tenho certeza que hoje os que não estão sendo titulares estão brigando para chegar à titularidade. Todo mundo quer jogar, ninguém quer ficar no banco. O Cuca tem o elenco nas mãos para usar não só a molecada, mas também a galera que tem mais experiência para formar o melhor time.
 
Cuca tem implantado novos esquema táticos no time, ao contrário do Marcelo Oliveira. Qual estilo é melhor?
 
Todos os técnicos trabalham com que acha melhor. O Marcelo ajudou muito nosso time. O Cuca chegou e implantou o que ele acha o que é certo e bom. A gente acata e trabalha para cada vez melhorar. Tenho certeza que com um tempo de trabalho vamos chegar no patamar que ele quer. Para ajudar o Palmeiras a buscar títulos e ficar lá em cima.
 
O Cuca conversou com você?
 
Sim, ele conversou. O Cuca procura falar com todos e ajustar. Ele dá dicas, pois ele jogou também e tem experiência no futebol. Isso ajuda bastante. Conversou e tem conversado até hoje. Quando tem de dar dura, dá dura. Quando tem de elogiar, elogia. Isso ajuda a melhor pessoalmente e também o grupo.
 
AFP PHOTO / NELSON ALMEIDA
Thiago em ação pelo Palmeiras na Libertadores, na vitória sobre o River Plate-URU
 
É difícil substituir, de certa forma, o Leandro Almeida depois da falha dele?
 
Converso com ele. Sempre me incentivou. Não vejo como substituição. São escolhas que o técnico faz. Se não for aqui no Palmeiras, ele vai jogar bem em outro lugar, com certeza. Ele tem uma qualidade absurda. Eu brinco com ele e falo que queria ter a batida que ele tem. Fico triste pela repercussão que deu, porque ele é muito gente boa. 
 
A reação da torcida te assustou?
 
Torcedor vive o momento e tem todo direito de cobrar. Fico triste pelo o que aconteceu. Se ele acerta ali, todo mundo ia bater palma para ele e falar que ele era bom. Foi uma infelicidade no momento. Se colocar ele para jogar de novo, ele vai jogar bem e vai acertar. Ele faz aquela jogada com tranquilidade.
 
Como você encarou o fato de começar a ser titular em um jogo de Libertadores?
 
Quando comecei a ter a sequência, pensei: 'caramba, não esperava". Eu estava preparado, mas não esperava. Entrei e dei o meu melhor. Falei com a minha família, minha noiva e eles ficaram surpresos também. Aí falei: 'vou agarrar essa oportunidade, pois cavalo selado só passa uma vez'. Foi o que eu fiz, com muita vontade. Sei que a torcida cobra muito. Tem de jogar com a cabeça boa.
 
Quais os detalhes de vestiário daquele dia?
 
Eu tenho que agradecer todo mundo. Da comissão técnica que estava aqui (do técnico Marcelo Oliveira). Quando falaram que eu ia jogar, pensei: 'é hoje, hoje é meu dia'. Me concentrei muito. Os jogadores, todos eles, me deram força. O Dracena, o Vitor Hugo, o Roger Carvalho. Eles falaram para eu fazer no jogo o que fazia no treino. Não iria dar errado. Falaram para eu ter confiança, para ser feliz. Não foram alguns, foram todos. Devo muito a eles. Não foi fácil jogar uma Libertadores pela primeira vez.
 
Como recebeu a notícia da renovação?
 
Eu fui para o Paysandu e sabia que se fosse bem lá, alguma coisa aconteceria aqui, com certeza. Quando o Alexandre Mattos disse que iria me aproveitar, fiquei muito feliz. Isso é consequência de um trabalho que fiz aqui antes também e no Mogi. Ajudou e acarretou na renovação. Estou muito feliz pelo o que acontece na minha carreira. Isso é muito bom para dar confiança.
 
Cesar Greco/Ag Palmeiras
Thiago em 2014, ano em que operou o joelho
 
Temeu que pudesse ser emprestado de novo? 
 
Eu estava preparado para tudo, depois que você sai uma vez. Se acontecesse, eu iria e faria o mesmo trabalho que fiz no Paysandu, sempre com a cabeça boa. Eu iria acatar e buscar meu espaço. Estava tranquilo e com a ciência de que poderia acontecer. Mas graças a Deus estou aqui. Com sequência e brigando por posição.
 
O que você acha do número elevado de contratações no clube?
 
Todo mundo quer o melhor para o Palmeiras. Se está contratando, é porque eles acham que precisa. Como Cuca fala: se tiver 30 jogadores qualificados, vai ajudar o time. O Mina estava aqui hoje. Se ele chegar para ajudar o elenco, ótimo. Se precisar brigar pela posição, vamos brigar. Disputa sadia que levanta a moral de todo mundo. Melhora o elenco e melhora as coisas dentro de campo.
 
Como você faz para conciliar a vida profissional e a pessoal?
 
Eu não vejo isso como um problema. Mas eu perdi muitos amigos por isso. A galera achava que eu me excluía. Era um sonho. Hoje tenho amigos que entendem. Perdi vários por essa escolha. Mas é normal: a gente deixa algo para trás para colher lá na frente. Depois que acabar a carreira, aos 40 anos, tem muita coisa para viver ainda. É triste, mas não tem problema nenhum.
 
Muitos amigos da base conseguiram vingar no futebol?
 
Tem alguns que jogam ainda, como o próprio Rivaldinho, que está indo para o Inter. A gente tem um grupo no WhatsApp para manter contato. Conhecemos muita gente.
 
E no Palmeiras? Tem WhatsApp?
 
Sim. Sou mais da molecada aqui: com o João Pedro, o Nathan, que foi embora (emprestado ao Criciúma). Tem o WhatsApp do grupo e da garotada. Tem o Vinicius goleiro, o Jesus. Também tem o Leandro Almeida. Esses caras mais velhos, mais experientes, gostam da resenha também. A gente vai fechando o grupo cada vez mais por causa dessa resenha. Isso é muito bom porque ajuda o time.
 
Stringer/AFP Photo
Com Cuca no comando, o zagueiro tornou-se titular absoluto do time alviverde
 
Além do futebol, quais assuntos te interessam?
 
Eu gosto muito de carro. Eu vejo muito carro antigo. A gente fica vendo na concentração: eu, o João Pedro, o Luan, o Thiago Santos, o Jesus. A gente conta um para o outros dos carros que viu. Gosto muito disso. Depois do futebol vou correndo para o carro. Além de unir cada vez mais o grupo, aprende também.
 
Como foi a sua trajetória até o Mogi Mirim?
 
Antes de chegar no Mogi Mirim, fiz alguns testes. Passei pelo Cruzeiro, pelo Red Bull, pelo São Paulo. Fui buscando os times grandes. Como não acontecia, falei para o meu pai que queria começar pelos menores. Me pai concordou e consegui uma oportunidade no Mogi (Thiago é de São João Evangelista, cidade a aproximadamente 290 quilômetros ao norte de Belo Horizonte). 
 
Eles te acompanharam?
 
Fui sozinho, fui morar em alojamento aos 14 anos. Falei para o meu pai que queria ir. Ele sempre me apoiou. Só minha mãe que ficava com um pé atrás. Voltei para casa para pegar minhas coisas, para pegar os papéis da escola, pegar minhas roupas. Minha mãe perguntou se era aquilo mesmo que queria para minha vida. Eu falei que sim. Passei o fim de semana com eles e na hora da viagem para Mogi ela perguntou de novo. Depois, em casa, ela falou para o meu pai que mataria ele se acontecesse alguma coisa comigo. O que mais doeu nela foi que era o mais novo e fui o primeiro a sair de casa (Thiago tem uma irmã mais velha, que mora em Belo Horizonte).
 
Como conciliou estudos e futebol?
 
Estudei em Mogi Mirim, na escola pública. Vai amadurecendo, não tem como. Tem que se virar, pegar ônibus, vai aprendendo a viver. Eu estudava à noite porque treinava em dois períodos. Eu chegava da escola às 11 horas da noite, tomava um lanche e dormia para acordar cedo. Foi um aprendizado. Minha família continua em Minas, pois meus pais são professores e trabalham. Eles têm a vida deles. Sempre que dá eles ficam aqui comigo. Eles me ensinaram muito. Tudo que tenho devo a eles. 
 
Cesar Greco/Ag Palmeiras
2016: retorno ao Palmeiras e titularidade
 
Eles ajudaram de qual forma?
 
Meu pai saía de Minas Gerais e me trazia para São Paulo para fazer teste. Trocava as aulas para me ajudar nessa luta que é o futebol. Depois que você começa a viver do futebol é uma alegria. No começo é muito complicado. Não sabe se para de estudar para jogar. E se não der certo? É um dilema. Por isso que abdiquei de várias coisas da infância e da adolescência. Para estar aqui hoje. Para conquistar meu espaço dentro do futebol.
 
Qual a sua ligação atual com o Pará, a cidade de Belém e o Paysandu?
 
Eu acompanho, estou muito feliz por eles. Eles foram campeões paraenses, da Copa Verde. Toda vez que tem jogo eu ligo para os meninos, o Alberto, que jogou aqui no Palmeiras também, falo com a comissão técnica, que são parceiros desde o Mogi Mirim. É muito legal, deixei amigos no Pará, até mesmo os que são da cidade e não tem ligação com o Paysandu. Eram torcedores que viraram amigos, a gente está sempre em contato. A cidade me abraçou muito. Fico feliz com as conquistas deles e tenho certeza que eles estão de olho em mim aqui no Palmeiras.
 
Voltar a viver em São Paulo, depois de passar pelo Paysandu, é um desafio?
 
Desde que vim para o Palmeiras gosto muito de morar em São Paulo. Belém é uma cidade muito receptiva. A cidade abraça os jogadores, eles são fanáticos, vivem futebol. Lá foi muito bom também. Agora pretendo ficar muito tempo aqui em São Paulo. Eu vinha poucas vezes para cá quando estava no Paysandu. Não time muito problema para me adaptar novamente.
 
O que aprendeu no período fora do Palmeiras?
 
Foi sensacional. Se eu tivesse ficado aqui, não sei se teria essa oportunidade. Mas como fui para lá, já conhecendo a comissão, eles me ajudaram muito, sempre aperfeiçoando minhas qualidades e melhorando os defeitos. Devo muito ao Paysandu pela ajuda. Não só como atleta, mas como pessoa. Devo muito a eles e a todos que me ajudaram muito lá no Pará.
 
Você está estudando? Pretende fazer isso? 
 
Eu terminei o ensino médio e agora estou estudando inglês. Penso em ir para fora, mas não agora. Comecei agora porque é sempre bom aprender. Pretendo fazer uma faculdade. Meus pais são professores de educação física. Se eu não fosse jogador de futebol, com certeza seria professor de educação física. Eu quero fazer. Quem sabe administração ou fisioterapia. Depois que entramos no futebol queremos conhecer o nosso corpo. Acho que isso pode ajudar. É sempre bom ter um plano B.
 
Você teve uma grave lesão no joelho em 2014. Ficou algum trauma depois disso?
 
Não tenho mais nada, não sinto nada. Foi complicado, mas depois que passou foi bom. Não tenho restrições. Se for para dividir e colocar o pé, vou colocar. Só tenho a agradecer o departamento médico e a fisioterapia do Palmeiras.
 
Ficou frustrado em não ter disputado o Pan-Americano?
 
Não fiquei. Eu pensei em trabalhar muito antes e se acontecesse, ótimo. Quando fiquei sabendo que não fui, decidi continuar trabalhando firme no Paysandu. Tinha que jogar bem. Não adianta ficar chorando, não ia voltar. Mas pensar no futuro. Vou trabalhar para chegar um dia à seleção, seja de base, olímpica ou a principal. Enquanto isso vou trabalhar. 

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