Ex-Corinthians e Inter só andava de bicicleta e aprendeu a dirigir "velho"

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

Nada de carro. Ir treinar de bicicleta virou uma constante na carreira de Simão, ex-jogador de Corinthians, Internacional e São Caetano, hoje com 47 anos. Ele foi aprender a dirigir já no fim da carreira, aos 30, pelo simples fato de 'se sentir bem' andando no veículo pouco usual entre os jogadores de futebol. E só se rendeu aos carros 'para levar as crianças para a escola'.

"Não dava para levar as crianças na bicicleta, né?", brinca o bem-humorado Simão durante entrevista exclusiva concedida ao UOL Esporte. Ainda pequeno, o ex-volante ganhou a primeira bicicleta de sua avó, quando morava em Barretos – cidade onde vive hoje. Ganhou gosto pelo meio de transporte, e passou a utilizá-la para tudo que fazia.

"Eu trabalhei aqui [em Barretos] em uma padaria e sempre fui de bicicleta. Quando eu fui para o Internacional e consegui o primeiro salário, eu comprei uma bicicleta. E eu ia me cansando, tinha que pedalar [risos]... Sempre os caras querem um carro, e eu disse: 'eu quero a minha bicicleta', entendeu? Porque a minha avó foi tudo para mim, uma mãezona. Sabe aquela coisa? Ir treinar de bicicleta e sentir-se bem... Eu me sentia bem. Os jogadores andavam de carro nas ruas e falavam: 'Simão, se a gente vir você de bicicleta na rua vamos te atropelar' [risos]", lembra Simão, que durante toda carreira fez de tudo para não abandonar a 'magrela'.

Divulgação

"Quando eu fui para o Corinthians não deu [para andar de bicicleta], mas quando eu fui vendido para a Portuguesa aí eu voltei a andar e treinar de bicicleta. Eu morava ao lado do Corinthians, no Tatuapé, e eu ia pela Marginal [Tietê] de bicicleta até ao Canindé. Depois eu morei na Vila Maria, eu ia de bicicleta... A gente morava com o Jorginho Baiano, irmão do Junior Baiano, e de vez em quando ele falava: 'entra no meu veículo, sai da bicicleta' [risos]. Ele me dava carona, eu me lembro que tinha uma subidona grande... Depois morei no Tatuapé, quando eu casei, e morei perto do Palmeiras... Na Vila Madalena também, na casa do Evair, somos amigos... E em todos esses lugares eu ia de bicicleta, eu não dirigia. Aprendi a dirigir com 30 anos porque eu já tinha as minhas filhas, e não dava para levar as crianças na bicicleta, né? [risos] Mas a paixão aqui em Barretos é pela bicicleta [risos]", acrescenta.

Bola de prata, Corinthians e substituto de Dener

E entre suas andanças de bicicleta ao longo da carreira, não faltaram bons momentos e boas histórias a Simão, que passou por Juventude, Inter, Corinthians, Bellmare (Japão), Portuguesa, São Caetano, Fenerbahçe (Turquia), Ankaragüçü (Turquia) e Goiás, seu último clube. Mas ele não esconde que foi no clube do ABC onde viveu um dos momentos mais especiais.

"Foi a melhor coisa que aconteceu. Fomos vice-campeões brasileiro [em 2000], eu ganhei a bola de prata como melhor volante do Campeonato Paulista de 2001...", recorda Simão, para depois contar como foi parar no Fenerbahçe, da Turquia, mesmo 'contra sua vontade'.

"Eu tinha três anos de contrato com o São Caetano, já estava com 36 anos, e os caras do Fenerbahçe vieram desesperados querendo me comprar. E eu: 'não, eu não quero sair, eu quero ficar aqui no Brasil, o São Caetano está excelente... Começou o Campeonato Paulista e os caras vieram para conversar, veio um diretor deles e falou assim: 'Simão, eu vim aqui e se eu não te levar para lá eu não vou poder entrar na Turquia'. Eu falei: 'Rapaz, você está louco'. Aí eu falei: 'Eu vou conversar com a minha esposa', porque na Turquia a gente sabe que é como a Arábia... Eu tenho duas filhas, eu não vou judiar da minha esposa, colocar burca, estas coisas todas, e aí minha esposa disse: 'Não tem problema não', e fomos para lá. Eu fui o primeiro brasileiro a jogar no Fenerbahçe, a ser contratado, isso em 2002", recorda.

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Jogador de poucos gols, Simão aponta o único feito pelo Corinthians como um dos mais marcantes da carreira. Foi em outubro de 1993, pelo Campeonato Brasileiro, no Pacaembu. E diante de um dos maiores rivais, o São Paulo: vitória de 1 a 0, gol de Simão.

"Este gol foi o único que marquei com a camisa do Corinthians, é o que marcou a minha passagem. Fazia um tempo que o Corinthians não ganhava do São Paulo. O Leandro Silva, lateral direito, foi pela ponta, cruzou e eu antecipei na frente de todos... A bola ainda bateu no tornozelo e foi bom porque tirou o Zetti [risos]. A bola entrou no cantinho", conta Simão, que recorda ainda da forte concorrência que enfrentou logo na sua chegada ao Corinthians.

"Quem eram os volantes do Corinthians? Tinha o Zé da Fiel, o Zé Elias, Ezequiel... Aí eu falei: 'Eu estou morto, como eu vou jogar neste time, cara?'. No meio-campo tinha o Válber, tinha o Rivaldo, tinha o Viola, e o que sobrava era a ponta direita. Aí ficaram brigando eu, o Leto e o Tupãzinho por essa posição, e foi aquela loucura. Eu joguei praticamente a maioria dos jogos, joguei na ponta direita, o Mário Sergio [técnico] pedia sempre para eu fechar ali [na direita], como eu tinha passadas largas eu ia e voltava, não tinha problema nenhum para mim", diz.

Outra passagem marcante de Simão foi pela Portuguesa, clube do qual é ídolo até os dias de hoje. Sua chegada, porém, foi curiosa. Segundo palavras do próprio ex-jogador, sua contratação seria para suprir a ausência de um certo craque chamado Dener. Como assim?

"A Portuguesa vendeu (na verdade emprestou) o Dener para o Vasco da Gama e a Portuguesa me contratou, e quando eu cheguei lá os caras falaram: 'Você veio para substituir o Dener'. Aí eu falei: 'Vocês estão de brincadeira comigo' [risos], porque eles me viram no Corinthians de ponta direita, jogando com a camisa 7... Eu falei: 'Não, eu sou volante, não tem nada a ver [risos]. E eu fiz um ano muito bom. Apareceu um monte de time de fora me querendo, e a Portuguesa me vendeu para o Japão", lembra Simão, que por pouco não voltou a trabalhar pela Lusa já depois de pendurar as chuteiras, com as categorias de base.

Hoje em dia...

Hoje, de volta a Barretos, trabalha no clube da cidade justamente com a base, além de auxiliar o técnico do time profissional.

"Eu tive a oportunidade de trabalhar na base da Portuguesa... Os caras me convidaram duas, três vezes, mas o meu avô teve AVC e eu fiquei tratando dele aqui [em Barretos]. Falei: 'não, eu vou cuidar dele', e treinei o time aqui", conta Simão, para depois revelar qual foi sua maior motivação para trabalhar com as categorias de base do time de sua cidade.

"O delegado fez uma reportagem com as crianças, com os adolescentes, falando que os marginais estavam pegando as crianças para vender drogas. Quando eu vi isso comecei a chorar, eu falei: 'É a minha cidade'. Quando era criança eu andava na rua, brincava de bola, e eu falei: 'Tenho que fazer alguma coisa, eu tenho nome na cidade e posso contar as minhas histórias'. E aí comecei a fazer trabalho aqui na base do Barretos, que não tinha, e faz quatro anos que a gente está trabalhando na base, e também sou auxiliar no profissional", completa.

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