Um capitão diferenciado: Paulão mostra que sabe falar mais do que futebol

Jeremias Wernek

Do UOL, em Porto Alegre

  • Ricardo Duarte/ Site do Internacional

    Paulão é capitão do Internacional e um dos destaques do time de Argel

    Paulão é capitão do Internacional e um dos destaques do time de Argel

A saída de Alisson, vendido para Roma-ITA, fará de Paulão o novo capitão do Internacional. E o zagueiro de 30 anos é a prova viva de que existe nova chance. Profissionalizado apenas aos 20 anos, ele chegou a trabalhar no polo petroquímico de Camaçari, na Bahia, e por poucos dias não trocou a carreira com a bola pela faculdade.

Em conversa com o UOL Esporte, o herdeiro da faixa que já foi de Fernandão e D'Alessandro, Paulão mostrou não ter papas na língua para falar das origens, racismo, comportamento e carreira. Do ressurgimento com Argel. Da nova fase, como capitão.

O preconceito existe, óbvio, mas eu nunca vou mudar quem eu sou. Sempre serei o Paulo Marcos, o Paulão, o Paulinho"

"Minha mãe sempre falou 'o estudo é o alimento do homem', então eu recebi incentivo para terminar o colégio. Nunca trabalhei quando pequeno. Concluí o ensino médio, fiz até estágio depois. Trabalhei como operador de máquina em uma mineradora lá do polo petroquímico de Camaçari. Foram seis meses só, mas ali eu vi que queria o futebol mesmo. Não era o cara para ficar bater cartão ponto o resto da vida", diz Paulão aos risos.

Com 18 anos, Paulo Marcos de Jesus foi chamado para uma conversa franca em casa. A família deu prazo de seis meses para que o filho mais velho definisse sua vida: o futebol ou a faculdade. De dezembro até maio, Paulão oscilou entre a esperança e a aflição. À época ele jogava um campeonato intermunicipal amador na Bahia, após passar pela base do Sport, em Recife. Quando já matutava sobre as disciplinas do curso de educação física, recebeu oferta para jogar no Rio de Janeiro. Lá, se profissionalizou pelo Independente, de Macaé, e iniciou a caminhada.

Não era o cara para ficar bater cartão ponto o resto da vida"

Em 2010 chegou ao Grêmio e viveu seu boom. Dali, foi para o Guangzhou Evergrande, da China. Voltou ao Brasil emprestado ao Cruzeiro e em 2014 chegou ao Beira-Rio. Em Belo Horizonte e Porto Alegre passou pelo processo que culminou com o status atual.

Sempre fui falante, alegre e menos político para ceder aqui ou ali. O tempo passou e eu mudei"

"Tem coisas que você só enxerga com experiência. A vivência com grandes caras me ajudou muito a olhar diferente para o jogo. O Tinga, lá no Cruzeiro, me ensinou demais. De saber ler na hora a coisa. Juan, aqui no Inter, foi um privilégio. Dida, Rafael Moura. E eles todos são meus amigos, a gente conversava além do treino e da concentração", conta. "Eu nunca sonhei ser capitão, nunca fiz nada para isso. Sempre fui falante, alegre e menos político para ceder aqui ou ali. O tempo passou e eu mudei", completa.

As experiências, mais a mudança no Internacional – ainda em 2015, mudaram a vida do zagueiro. Antes preterido por Diego Aguirre, Paulão foi resgatado por Argel. Em uma passagem usada como exemplo na vida do próprio camisa 25. Horas antes de Cruzeiro e Inter, em Belo Horizonte, Juan acusou um problema médico e foi vetado. O novo treinador cruzou com Paulão no restaurante do hotel e anunciou: "'Você vai jogar. Está pronto? ' Claro que estou, respondi. Abafei (termo usado para desgaste ou cansaço no futebol) com 15 minutos de jogo. Mas o cara me deu moral, autoestima. Como não vou correr por ele? Esse respeito mútuo me fez crescer".

O cara (Argel) quer que eu bata com a cabeça na trave? Vou lá'"

"O Argel me resgatou, me puxou e deu força sempre. E repetiu várias vezes o apoio dele. A relação entre nós não mudou, ele segue sendo o superior e eu o jogador. Existe o respeito, mas também se cria uma relação. Não digo intimidade, não é isso, mas a admiração. 'O cara quer que eu bata com a cabeça na trave? Vou lá'", analisa.

Paulão não se acanha ao falar de racismo, pelo contrário. Bem articulado, o zagueiro ataca para marcar território. Para defender a cor e retrair o contrário. Admite que já sofreu com preconceito antes da fama e garante que não se abala.

"Quando era criança, fui com minha mãe a um mercado e o segurança ficou me seguindo. Eu estava com o carrinho de compras, comendo biscoitos e minha mãe em outro corredor. Ela viu aquilo, eu nem tinha me dado conta e não entendi, e perguntou para o segurança: 'Ele está fazendo algo errado?'. O preconceito existe, óbvio, mas eu nunca vou mudar quem eu sou. Sempre serei o Paulo Marcos, o Paulão, o Paulinho", assegura. "Não machuca o coração, não trocaria minha cor por nada, mas machuca a carne. E aí, eu vou responder no mesmo tom. No mesmo linguajar e levar a situação para a esfera judicial", afirma. 

A história de Paulão se confunde com a história do Inter de 2016. Assim como o zagueiro, o Colorado recebeu um prazo para dar certo e deu. Vingou quando muitos achavam que não daria mais. O próprio Paulo Marcos já se definiu como zagueiro simplificador e também encontrou um resumo para o atual time vermelho, que talvez ele nem tenha percebido ser um conceito quase dele mesmo. "Nós nos fortalecemos e hoje somos um time cheio de vontade. Todo mundo quer e todo mundo faz junto. Tem qualidade, tem gente que decide, mas decide um jogo. No topo, é a vontade e a força do time que vai levar adiante. Isso nos deixou muito mais fortes".

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