Goleiro do Pan não consegue clube e culpa acusação de abuso: "injustiça"

Juliana Alencar

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

Falta dinheiro para se defender. É assim que Andrey, goleiro da seleção brasileira que disputou os Jogos Pan-Americanos em Toronto, em 2015, justifica o fato de ainda responder ao processo de abuso sexual movido pela justiça canadense. De acordo com a promotoria local, o atleta e o companheiro de seleção, o meia-atacante Lucas Piazon, teriam cometido um ataque contra uma mulher de 21 anos enquanto ela estava dormindo. A suposta vítima teria conhecido os jogadores numa casa noturna e convidado os dois para sua casa.  

Piazon se livrou das acusações em janeiro deste ano, cerca de três meses depois de a acusação vir à tona. Já Andrey continua com um mandado de prisão expedido em território canadense. Caso ele viaje para algum país que tenha acordo de extradição, pode ser preso. Está sem clube e vê a situação como empecilho para uma nova casa.
 
"Eu não tenho condições financeiras de bancar um advogado para me defender. Queriam me cobrar R$ 60 mil para pegarem meu caso", afirma Andrey, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, por telefone. "Isso está prejudicando minha carreira, sem dúvida. Não posso viajar porque eu tenho medo de ser preso". 
 
Sem jogar desde o fim do empréstimo a Cabofriense, Andrey disputou o Campeonato Carioca deste ano, sua última competição oficial. Foi dispensado. Contratado pelo Botafogo-SP até 2017, o goleiro foi informado no fim do mês passado que estava livre para negociar com outros clubes.   
 
"O que meu empresário está buscando hoje é um clube que queira comprar essa briga. Um clube que me ofereça esse apoio jurídico para que eu possa me livrar dessas acusações. O fato de eu hoje estar com essa pendência prejudica muito minha vida profissional". 
 
História nebulosa
 
Andrey prefere não relatar o que exatamente aconteceu na noite que em o suposto abuso ocorreu. Afirma, no entanto, de forma categórica, que está seguro de que foi vítima de um mal-entendido. O goleiro afirma que o fato de Piazon ter se livrado da acusação só reforçou essa certeza.
 
"Fui recomendado a não falar exatamente sobre o que aconteceu. Mas eu tenho consciência muito tranquila. Não fiz nada de errado", conta ele, que de arrependimento, diz ter apenas por ter saído naquela ocasião, após confraternização com os colegas.
 
"Foi o único dia que eu saí da concentração e melhor que nem tivesse saído. A gente tinha saído para um restaurante antes. Me arrependo profundamente pelos problemas que isso me trouxe. Mas eu não poderia imaginar que isso fosse ocorrer".
 
Arquivo pessoal
Andrey na seleção brasileira
 
Quando a acusação veio à tona, Andrey e Piazon conversaram por telefone. Mas não retomaram contato depois disso. Ele soube pela imprensa que o atleta do Chelsea havia sido inocentado.  "Nunca mais falei com ele depois do episódio. No dia que a história vazou, nos falamos. A gente estava tranquilo porque sabíamos que não tínhamos feito nada de errado", diz. "Cheguei até a pedir a indicação do advogado dele, mas não deu certo". 
 
A mulher de Andrey estava grávida de Vitória, hoje com 9 meses, quando o episódio estourou. O goleiro ainda é pai de Enzo, de 3 anos, do mesmo relacionamento.  O atleta conta que a família o apoiou. "Quem me conhece sabe que eu sou incapaz de fazer qualquer coisa criminosa. Meus amigos, minha família, os colegas de trabalho me apoiaram. Não percebi nenhuma desconfiança de ninguém."
 
Institucionalmente, no entanto, Andrey diz não tido nenhum suporte. Afirma que tanto o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) como a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) não chegaram a sinalizar algum tipo de ajuda. "Acho normal, já não estava mais servindo a eles. A acusação veio quase três meses depois da competição", minimiza. O COB confirmou que não interferiu no caso. 
 
Vítima de preconceito
 
Andrey tenta hoje se reerguer da marca que a acusação deixou em sua imagem. E diz que chegou a pensar que também tenha sido vítima de preconceito social e racial.  "Não quero acreditar que a questão racial tenha afetado de verdade. Mas muita gente veio me falar sobre isso, sim. É mais fácil aceitar que um negro e de origem humilde tenha feita alguma barbaridade que um branco de classe média", diz ele, que questiona a maneira como a acusação foi tratada pela polícia canadense. 
 
"Piazon conseguiu provar na justiça que era inocente. Mas a acusação marca a pessoa para sempre, por mais que ela prove que não tenha culpa. É justo? Por que expor pessoas a esse tipo de situação sem ter provas? Eu não tive sequer oportunidade de me defender porque não tive condições financeiras para isso. Não é justo eu ficar marcado por algo que eu não fiz."
 
Enquanto não volta a jogar, Andrey se apoia na família. Órfão de pai, que era o maior entusiasta de sua carreira, ele afirma, no entanto, que antes de resolver o seu problema com a justiça canadense, pensa mesmo no bem-estar dos parentes. "Se eu tivesse R$ 60 mil hoje nas mãos só daria para um advogado se eu tivesse certeza que seria inocentado. Não tenho casa própria, minha família depende de mim. Antes de mim, a prioridade é garantir que eles tenham o mínimo de conforto".

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