"Sumido", Ney Franco assume erros na carreira e quer evoluir lado emocional

Luiza Oliveira

Do UOL, em São Paulo

  • Lucas Uebel/Getty Images

    Ney Franco tirou ano sabático para refletir sobre os doze anos de carreira

    Ney Franco tirou ano sabático para refletir sobre os doze anos de carreira

Desde o início do ano, Ney Franco acorda cedo todos os dias e vai para a aula. Estuda inglês de 8h30 às 15h40 em uma universidade da Flórida, nos Estados Unidos. A rotina tem sido bem diferente dos últimos doze anos em que respirou só futebol e viveu sob a pressão de comandar alguns dos principais times brasileiros. O técnico achou que era hora de parar depois de atravessar uma fase ruim na carreira.

Neste ano sabático, ele aproveitou para refletir sobre os erros que cometeu nos últimos trabalhos. Ele acredita que a gestão do grupo vinha sendo o seu ponto fraco e é o que mais precisa ser melhorado.

 "A gente vai pegando experiência nas vivências, aprende a saber lidar com vitórias e derrotas, tem aprendizagem de liderança de grupo. Em todos os meus trabalhos que foram sucesso, o grupo correspondia muito bem aos meus comandos e tinha qualidade técnica também. Nas últimas vezes, embora não tenha havido uma rebelião deflagrada, não consegui mobilizar o grupo plenamente", afirma ele.

O último trabalho de destaque de Ney Franco foi no São Paulo quando conquistou a Copa Sul-Americana em 2012. Mas depois teve um desentendimento com Rogério Ceni e não conseguiu repetir o sucesso do início de carreira promissora com títulos em sequência em todos os clubes. Depois do time do Morumbi, ainda trabalhou no Vitória, comandou o Flamengo por apenas sete jogos e voltou para o time baiano onde acabou rebaixado. Seu último trabalho foi sem destaque no Coritiba.

"Nos últimos dois anos, fiquei muito abaixo do meu desempenho. Depois da conquista da Sul-Americana, em 2014 e 2015, não tive uma boa sequência. Era o momento para dar uma parada, refletida, reciclada, um aprimoramento que pode ajudar a minha carreira".

O estudo será um aliado de Ney Franco. Ele quer mergulhar fundo para entender o lado emocional de cada atleta em grupos heterogêneos com pessoas de culturas, crenças e origens diferentes. E pior: com salários diferentes. E também precisa encarar outro grande maior desafio: fazer o jogador brasileiro pensar mais no coletivo que no individual, algo que ele sabe ser raro hoje em dia.

"Fechar esse grupo é complexo. É um lado que leio muito, sou formado em Educação Física, estudei psicomotricidade (ciência que estuda o homem por meio do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo), tenho muita literatura nessa área, tenho contato com pessoas. Em qualquer clube que eu chegue, tento me aproximar de psicólogos e ver esse lado emocional. É uma parte enorme para crescimento e para, além de a gente estudar, que o mercado comece a valorizar bons profissionais".

Por enquanto, nos Estados Unidos, Ney aproveita para descansar o corpo e a mente. Agora pode curtir com um pouco mais de tranquilidade a esposa e os filhos Felipe, de 10 anos, e Eduarda, de 5. Mas no segundo semestre já vai se mexer. Quer conhecer melhor o futebol dos Estados Unidos que vem crescendo. Já planeja visitar alguns clubes e até fazer trabalhos voluntários em escolinhas, já que ele não pode trabalhar porque seu visto é de estudante. Também planeja fazer o curso da Uefa para treinadores ou mesmo o da CBF.

Se alguma oportunidade surgir fora do país ele vai avaliar, mas sua meta é voltar para o Brasil e assumir um clube com uma cabeça um pouco diferente e bem mais descansada. Sobre o futebol tupiniquim, Ney reflete sobre a escola brasileira de treinadores. Ele diz ser boa, mas com necessidade de evolução, principalmente no plano tático.

"Teve um momento que a nossa geração ficou muito acomodada com a situação do futebol brasileiro, era um mercado que era só nosso dentro do Brasil. Depois dos fracassos dos clubes brasileiros em competições internacionais, principalmente na última Copa, ficou todo mundo exposto. O treinador passou a ser mais questionado, chegou o momento de todo mundo fazer uma avaliação".

Ney Franco também faz uma avaliação sobre a seleção brasileira. Foi ele quem que iniciou o trabalho da geração promissora de Casemiro, Oscar, Philippe Coutinho e Neymar. Foi sob o comando dele que esses jovens talentos conquistaram o Campeonato Sul-Americano Sub-20 e o Mundial Sub-20, ambos em 2011. Para ele, os meninos são muito talentosos, mas ainda estão em processo de amadurecimento e não poderiam carregar tanta responsabilidade.

"É uma geração que foi vencedora nas categorias de base, foi muito bem preparada. Na seleção principal, quando se tornaram adultos, chegou o momento em que precisávamos de resultados imediatos e eles chegaram com essa responsabilidade. Na Copa do Mundo, Neymar e Oscar não estavam preparados para serem os homens de frente, uma seleção brasileira precisa de homens de frente com 27, 29 anos, mais formados fisicamente e emocionalmente. Essa geração pode dar muitos frutos a partir de 2018 e 2022", avalia. 

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