Trabalhando com 'sócios', técnico sueco ajudou a Islândia a fazer história

Do UOL, em São Paulo

  • Eddie Keogh/Reuters

    Na Euro 2016, Lars Lagerbäck (esq) comanda a Islândia com Heimir Hallgrímsson (dir)

    Na Euro 2016, Lars Lagerbäck (esq) comanda a Islândia com Heimir Hallgrímsson (dir)

Colocar a Islândia nas (inéditas) oitavas de final da Eurocopa é um feito, mas que reforça o bom momento por trás do futebol do país - antes de se classificar pela primeira vez para o torneio, a seleção islandesa passou perto de conquistar uma vaga para a Copa do Mundo de 2014, perdendo a vaga para a Croácia. E boa parte deste sucesso pode ser atribuído a Lars Lagerbäck, um técnico com métodos pouco ortodoxos de trabalho.

Nascido na cidade sueca de Katrineholm em 16 de julho de 1948, Lagerbäck atuou como jogador entre as décadas de 1960 e 1970, sem brilhar. Em 1977, iniciou sua carreira como treinador, trabalhando até 1989 em equipes menores do futebol de seu país.

O trabalho de Lagerbäck mudou de patamar, porém, em 1990, quando passou a trabalhar na Associação de Futebol da Suécia (SvFF). Naquele ano, assumiu o comando da seleção sub-20 do país, sendo substituído em 1995 por Tommy Söderberg; na segunda metade da década, comandou a seleção B da Suécia (1996 a 1997) e foi assistente técnico do próprio Söderberg na seleção principal (1998 a 1999).

Koji Sasahara/AP Photo
Entre 2000 e 2004, Lagerbäck (foto) trabalhou ao lado de Tommy Söderberg na seleção da Suécia
Até que, em 2000, a SvFF resolveu inovar e definiu que ambos - Lagerbäck e Söderberg - seriam os treinadores da seleção local. Sim, uma dupla. Daria certo?

Tudo indica que deu. Naquele ano, a Suécia se classificou para a disputa da Eurocopa. Dois anos depois, foi à Copa do Mundo. Curiosamente, os suecos haviam ficado de fora das edições anteriores dos dois torneios. Söderberg deixou a comissão técnica em 2004 para assumir a seleção sub-20 e foi substituído na principal por Roland Andersson - que, porém, ocupava o posto de assistente técnico, abaixo do treinador na hierarquia da comissão.

Arrependimento? Nada disso. Para Lägerback, a experiência foi proveitosa e não mudou muito sua forma de trabalho. "Para ser honesto, não há diferença para o jeito como as coisas são agora. A parceria que eu tenho com Roland é muito parecida com a que eu tinha com Tommy em termos práticos. Nunca tive problemas com esta situação, nem preciso ter o título de 'número um'. Mas Roland prefere o título de assistente técnico. Eu estaria perfeitamente feliz em tê-lo como co-treinador, da mesma forma que Tommy e eu éramos", disse, em entrevista publicada pelo site da Fifa em 2007.

Com a dupla formada por Lagerbäck e Andersson, a Suécia foi à Copa do Mundo de 2006 (caiu nas oitavas de final) e à Eurocopa de 2008 (caiu na fase de grupos). Entretanto, em 2009, a equipe fez uma fraca campanha nas eliminatórias para a Copa de 2010 e acabou eliminada. Lagerbäck então deixou o cargo, sendo substituído por Erik Hámren.

A vida pós-Suécia

Em 2010, Lars Lagerbäck recebeu uma oferta para assumir a seleção da Nigéria que disputaria a Copa do Mundo de 2010. Aceitou, sem um co-treinador, mas os nigerianos decepcionaram na África do Sul: um ponto em três jogos e a eliminação prematura. Pior: o técnico foi acusado de subornar dirigentes nigerianos e, para evitar um maior desgaste, decidiu fazer as malas.

Rick Bowmer/AP Photo
Sem 'co-treinador', Lagerbäck comandou Nigéria na Copa do Mundo de 2010

Na época, o sueco tinha a opção de renovar com a Nigéria e ainda era cotado para assumir a seleção do País de Gales. Mesmo assim, esperou por uma oferta que o satisfizesse. Ela chegou em outubro de 2011: assumir a seleção da Islândia, país que jamais havia disputado um grande torneio com sua seleção principal masculina.

Na chegada de Lagerbäck, a Associação de Futebol da Islândia (KSI) contratou também Heimir Hallgrímsson (então treinador do ÍBV, clube local) para ser seu assistente técnico. Este quadro permaneceu inalterado até 2013, quando a KSI renovou os contratos da comissão técnica; desta vez, porém, com uma dupla de treinador: Lagerbäck e Hallgrímsson.

Com a dupla, a Islândia fez história. Chegou à repescagem da Copa do Mundo de 2014, e só não veio ao Brasil porque perdeu a vaga para a Croácia. Depois, em 2016, garantiu vaga na Eurocopa e passou pela fase de grupos, chegando às oitavas de final. Pouco? Não para um país de 330 mil habitantes - população equivalente à de cidades como Vitória da Conquista (BA), Franca (SP), Ponta Grossa (PR) ou Blumenau (SC).

Filip Horvat/AP Photo
Lars Lagerbäck assumiu a Islândia em 2011
O segredo para este sucesso? Para Lagerbäck, é fazer o trabalho da maneira mais simples possível. Com a responsabilidade dividida, cada co-treinador pode se concentrar em passar aos jogadores o que sabe de melhor, deixando ao companheiro a tarefa de completar o trabalho.

"O mais importante para preparar uma partida é o que se faz no treinamento. Se conservamos nossa organização e os jogadores sabem exatamente o que têm que fazer, então jogam com confiança e podem realizar grandes coisas", disse o sueco, em declarações divulgadas pelo jornal espanhol Sport.

Antes das oitavas de final da Eurocopa contra a Inglaterra, Lagerbäck e Hallgrímsson conversaram com seus jogadores. Na conversa, reproduziram uma máxima de Albert Einstein para indicar o caminho das pedras contra os ingleses: "Se você não pode explicar uma coisa de maneira simples, é porque não a compreendeu bem".

Lagerbäck já anunciou que deixa a seleção da Islândia tão logo termine sua participação na Euro 2016 - seja com queda nas oitavas, seja com o título. O cargo será ocupado, em tese, apenas por Hallgrímsson. E o sueco vai procurar uma nova oportunidade de trabalho - e se alguém se habilitar a trabalhar com dois treinadores, as chances de um acordo com ele são maiores.

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