Muricy conta por que disse "não" para a CBF e aplaude a escolha de Tite

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

20 de junho de 2016: a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) oficializa Tite como novo técnico da seleção brasileira. Seis anos atrás, o mesmo acontecia com Mano Menezes, mas o nome da vez poderia ter sido Muricy Ramalho, então técnico do Fluminense. Uma certa arrogância do então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e um papo pouco convincente – entre outros motivos – fizeram com que o convite para comandar o futebol do Brasil não fosse aceito.

Em entrevista ao UOL Esporte, Muricy Ramalho, que recentemente deixou o cargo de técnico do Flamengo para dar mais atenção a sua saúde, recorda o momento em que foi chamado para treinar a seleção brasileira, conta suas justificativas para a recusa e comenta a entrada de Tite, que segundo ele já deveria ter assumido o Brasil em 2014, após a queda de Felipão.

A conversa que o presidente teve comigo não foi boa. Pode ter sido boa agora com o Tite. Comigo foi uma coisa vazia.

Gilvan de Souza/Flamengo
Muricy comanda treino do Flamengo, em março

Muricy Ramalho ainda analisa a relação entre Tite e Marco Polo Del Nero (presidente da CBF) após as críticas feitas pelo treinador ao dirigente e fala sobre o futuro do craque Neymar.

Tite na seleção e as críticas do treinador a Marco Polo

Depende da conversa. Não sei qual foi a conversa que o Tite teve. Com certeza eles ficaram bastante tempo conversando, tanto é que ele não assinou contrato na primeira noite. Com certeza ele deve ter exposto o seu planejamento, a sua maneira de ser, como ele era, o que eles pensavam.

Agora pode ser que, com o Tite, as coisas foram totalmente diferentes, houve conversa diferente, entendeu? Outras pessoas... Porque eu tive reunião na CBF com outros treinadores que eu participei e eu conheço bem o Gilmar Rinaldi, essas pessoas que estavam com o Gilmar, estavam fazendo boas coisas, só que os resultados não vieram dentro do campo. Mas fora estão fazendo a parte da base, estão monitorando tudo, eles sabem tudo o que acontece com os jogadores dentro dos clubes... Mas o resultado não veio, e aí quando não vem o resultado não tem jeito.

Eu não gosto de trabalhar se tem alguma desconfiança do cara, ou se tem alguma diferença entre nós. Não é legal.

Eu sou meio assim também. Eu falo alguma coisa de uma pessoa, mas depois, quando eu encontro essa pessoa, vamos conversar e vai esclarecer. Eu também não sei se essa conversa foi longa, eu não sei se ele [Marco Polo Del Nero] cobrou a pessoa [Tite], se a pessoa se explicou, porque se eu sou essa pessoa, no caso o Marco Polo, eu cobraria o Tite: 'Meu, você falou de mim'. Fora, a nossa conversa de treinador: 'eu quero você mesmo, é o melhor do Brasil', que é assim que tem que ser mesmo, tem que separar as coisas porque nós estamos fazendo uma coisa para o bem do futebol brasileiro. No futebol a gente sabe muito pouco o que acontece dentro dos lugares. Então, se houve essa conversa foi legal, porque aí esclareceram, tiraram essas diferenças. Eu não gosto de trabalhar se tem alguma desconfiança do cara, ou se tem alguma diferença entre nós. Não é legal, porque uma hora vai parecer isso e nós vamos nos cobrar. Então é melhor, antes de começar este negócio, nos cobrarmos e tirarmos essa diferença. E 0 a 0, vamos começar tudo de novo.

Cesar Manso-22.mai.2016/AFP
Neymar comemora gol

Eu acho que o Neymar vai ser o melhor do mundo no Barcelona."

Convite para treinar a seleção e a arrogância de R. Teixeira

Na época o cara que sentou na minha frente [Ricardo Teixeira] não convenceu. Era tudo muito bonito, ou seja: você vai ser treinador da seleção brasileira, legal, puta glamour, a coisa mais bonita e importante do mundo, só que não é bem assim. Primeiro porque eu tinha um compromisso com o Fluminense, verbal, e segundo que eu tinha que ter uma coisa segura até 2014. É uma coisa muito séria ser técnico da seleção brasileira, e ficou uma coisa muito vazia, muito assim no ar, e eu falei: 'Opa, eu não estou sentindo firmeza', e também um pouco de arrogância dele de não querer falar com o presidente do Fluminense, porque eu acho que era uma obrigação dele de ligar e falar: 'Eu vou pegar o treinador de vocês'. Claro que o Fluminense ia falar: 'pode ir tranquilo', mas ele não quis falar e eu acertei, porque no futuro eles fizeram com o Mano o que poderiam ter feito comigo também. O Mano no melhor momento dele, arrumando a seleção, mandaram embora. Então, eu não me entusiasmo com as coisas.

Mas entre eu e o Tite é totalmente diferente. A conversa que o presidente teve comigo não foi boa. Pode ter sido boa agora com o Tite. Comigo foi uma coisa vazia, eu não senti uma firmeza. Ficamos num lugar aberto, num clube de golfe, tinha muita gente olhando, muita gente entrando na mesa, aquilo lá não é reunião de Copa do Mundo, aquilo é um absurdo, entendeu? A seleção brasileira é a coisa mais importante do Brasil, mas ela não é só isso, não pode ser só isso, não pode convencer você só por isso. E para me convencer é muito difícil. As pessoas falavam: 'Você é louco'. Eu falava: 'Não sou louco, não'. E o futuro mostrou que eu não sou louco. Não pelo resultado, mas pelas outras coisas que aconteceram e pelo o que aconteceu com o próprio presidente.

VANDERLEI ALMEIDA-20.jun.2016/AFP
O técnico Tite

Tite devia ter sido chamado em 2014, após queda de Felipão

Para mim era melhor quando perderam a Copa do Mundo [2014]. Eu não tenho nada contra o Dunga. Me convidaram em 2010 porque eu era o melhor mesmo, hoje o Tite é o melhor, isso agora, mas aí eu não sei as coisas que acontecem lá dentro [da CBF], e convocaram o Dunga, mas o Tite era o melhor. É por merecimento, mas às vezes, no Brasil, não é merecimento. Às vezes é por outras coisas. Às vezes a gente não entende quando contrata um técnico, quando faz alguma troca, quando manda o técnico embora, a gente não sabe como é que eles agem. Então, na época, era o melhor técnico e continua sendo o melhor técnico. Agora, eles corrigiram o que fizeram errado há dois anos.

Neymar será melhor do mundo no Barcelona

Eu acho que ele vai ser o melhor do mundo no Barcelona. Acho que optaram pelo Barcelona pela forma que o clube é com jogador brasileiro. Lá o Rivaldo, Ronaldinho e Romário foram um dos melhores do mundo. Todo jogador brasileiro deu certo lá. O futebol do Barcelona é muito parecido com o nosso, então eu mesmo opinei... Até uma vez falei para o pai dele: 'Se fosse para eu opinar, eu ia optar pelo Barcelona, porque eu acho que lá ele vai dar certo', como está dando certo. É um clube que te dá tudo para ser o melhor do mundo, tem os melhores jogadores do lado dele. Uma hora o Messi vai dar uma cansada e vai ser aí que ele vai entrar. O Suarez é só goleador. Neymar e Messi fora de série, então, para mim, ele vai ser o melhor do mundo lá mesmo.

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