Festa por seleção tenta reduzir dor no Equador após tremor que matou 600

Pedro Ivo Almeida

Do UOL, em Quito (Equador)

  • AFP PHOTO / RODRIGO BUENDIA

O clima nos arredores do Estádio Olímpico Atahualpa lembra o de uma Copa do Mundo. Por onde se passa, bandeiras, faixas e torcedores com a camisa do Equador mostram o orgulho de uma seleção que lidera as Eliminatórias e se prepara para encarar o aguardado Brasil de Tite, Neymar e companhia. A festa se explica: o protagonismo em campo é algo raro para uma equipe acostumada a ser coadjuvante no continente. Passadas seis rodadas do torneio que dá vaga na Copa do Mundo de 2018, estar à frente de equipes como Argentina, Colômbia e até Brasil mexe com todos.

Não muito longe dali, no entanto, uma rápida conversa com trabalhadores não tão empolgados com o clima esportivo mostra uma outra parte da população bem mexida também. Mas em sintonia diferente. O terremoto de magnitude 7,8 do último mês de abril que matou mais de 600 pessoas – deixou quase 13 mil feridas – no litoral equatoriano ainda não saiu da cabeça do povo.

"Acho digno que se fale tanto e se faça tanta festa para o povo. Mas a situação não é tão feliz. Todos se abalaram recentemente. O que acontece é uma tentativa de se levantar. Acho que essa seleção, que nos dá alegrias novas, tem conseguido isso", explicou o taxista e guia turístico Luiz Zelaya.

Ao lado do ponto de Zelaya, ele mostra à reportagem uma personagem fiel que se divide entre as duas emoções. Francesca Cataño vende camisas da seleção de futebol na rua. "Vou vendendo o que dá. Às vezes é bala, biscoito, hoje é camisa", explica a jovem de 22 anos que tenta se reerguer após perder amigos e familiares na tragédia do litoral.

"Vim para Quito dias depois. Precisava mudar. Não conseguiria viver lá. São meses difíceis desde o terremoto, mas confesso que esta semana está sendo especial. Não via o povo feliz assim há muito tempo", disse Francesca, que admitiu desconhecer Neymar ou qualquer outro astro que estará em campo nesta quinta.

Como um bom guia local, Luiz Zelaya conta a nova realidade equatoriana com o futebol. E não se trata de um momento vitorioso apenas pela liderança da seleção nas Eliminatórias.

"É a seleção ganhando, time na final da Libertadores [Independiente Del Valle] e alguns jogadores atuando bem na Europa. Já vi muitas pessoas chegando a Quito recentemente e falando mais de futebol. Agora até nos dá orgulho", contou.

Se a tragédia de abril pode ser dimensionada em números, o bom momento também é refletido nas estatísticas. O "novo" Equador não perde em casa há sete anos – sem falar no jejum mais antigo de 33 anos sem derrotas para os brasileiros em Quito.

Nesta quinta, o objetivo local é esquecer números e viver intensamente a nova felicidade do país. "Não sei quem joga amanhã, quem vai ganhar, como será. Só quero que o ambiente permaneça assim por aqui", finalizou a sofrida Francesca Cataño.

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