Perto da aposentadoria, Totti declara amor à Roma em carta

Do UOL, em São Paulo

  • AP Photo/Gregorio Borgia

Após 25 anos na Roma, Francesco Totti está prestes a se despedir dos gramados. O ídolo do futebol italiano já anunciou que se aposentará após o final dessa temporada, quando terá 40 anos completos, mas publicou na última quarta-feira (31) uma carta de amor ao clube no site "Players' Tribune".

Nela, o meia-atacante contou fatos curiosos de sua carreira, com destaque para um "não" dado ao Milan antes mesmo de se tornar adolescente. Nascido em Roma e criado por uma mãe protetora, Totti lembrou que ela negou a proposta milanesa quando o atleta tinha apenas 13 anos e destacou a importância do papel dela ao longo de sua carreira.

A paixão pelo futebol e ao clube desde pequeno, com origem no avô, também foram temas abordados pelo jogador, que chegou perto de deixar a Roma para o Real Madrid, mas optou por ficar no clube do coração, que defenderia na integridade da sua vida como atleta.

Confira a íntegra da carta de Totti:

Há 27 anos, alguém bateu na porta do nosso apartamento em Roma. Minha mãe, Fiorella, foi atender. Quem estava do outro lado iria definir minha carreira no futebol.

Quando ela abriu a porta, um grupo de homens se apresentou como diretores de futebol.

Mas eles não eram de Roma. Eles estavam vestidos de vermelho e preto. Eles eram do Milan. E eles queriam que eu fosse jogar para o time deles. A qualquer custo.
Minha mãe levantou os braços. O que você acha que ela disse aos cavalheiros?

Quando você é uma criança em Roma, existem apenas duas escolhas possíveis: ou você é vermelho ou azul. Roma ou Lazio. Mas na nossa família, só havia uma escolha.

Eu infelizmente não pude conhecer meu avô porque ele morreu quando eu era um menino pequeno. Mas ele me deixou um grande presente. Para minha sorte, meu avô Gianluca era um enorme torcedor da Roma, e ele passou esse amor para meu pai, que então passou para meu irmão e eu. Nosso amor pela Roma era algo que foi passado adiante. Roma era mais do que um time de futebol. Era parte da nossa família, nosso sangue, nossa alma.

Não pudemos assistir muitas partidas na televisão porque mesmo em Roma elas não eram exibidas nos anos 80. Mas quando eu tinha sete anos, meu pai conseguiu ingressos e eu finalmente pude ver I Lupe, osLobos, no Stadio Olimpico.

Eu posso fechar meus olhos e lembrar a sensação. As cores, os gritos, a fumaça de bombas explodindo. Eu era uma criança tão animada que só de estar no estádio ao lado de todos aqueles torcedores da Roma algo acendeu dentro de mim. Eu não sei descrever a experiência...

Bellissimo.

É a única palavra para isso.

Em torno da nossa parte da cidade, em San Giovanni, eu não acho que alguém tenha me visto sem uma bola de futebol nas minhas mãos ou nos meus pés. Nas ruas de pedra, entre as catedrais, nos becos, em qualquer lugar – nós jogávamos futebol.

Mesmo quando eu era um menino pequeno, era mais do que um amor pelo futebol para mim. Eu já tinha a ambição de fazer uma carreira. Eu comecei a jogar em clubes para jovens. Eu tinha pôsteres e recortes de jornais de Giannini, o capitão da Roma, na parede do meu quarto. Ele era um ícone, um símbolo. Ele era uma criança de Roma. Como a gente.

Então, quando eu tinha 13 anos, bateram na nossa porta.

Os homens do Milan estavam pedindo para eu me juntar ao clube deles. Uma oportunidade de jogar em um clube grande italiano. O que eu escolheria?
Bem, não era minha decisão, é claro.

Minha mamma era a chefe. Ela ainda é a chefe. E ela era levemente apegada aos filhos delas, digamos. Como qualquer outra mãe italiana, ela era um pouco superprotetora. Ela não queria que eu deixasse a casa com medo de que algo fosse acontecer.

"Não, Não", ela disse aos diretores. Foi tudo o que ela tinha a dizer. "Mi dispiace. No, no."

Esse foi o fim. Minha primeira transferência negada pela chefe.

Meu pai levava a mim e meu irmão às nossas partidas no fim de semana. Mas de segunda a sexta, Mamma estava no comando. Foi difícil dizer não ao Milan. Significaria um monte de dinheiro para nossa família. Mas minha mãe me ensinou uma lição aquele dia. Sua casa é a coisa mais importante na vida.

Apenas algumas semanas depois, após ser observado em um dos meus jogos, a Roma fez uma proposta. Eu ia vestir amarelo e vermelho.

Mamma sabia. Ela ajudou minha carreira de várias formas. Sim, ela foi protetora – ela ainda é! – mas ela fez tantos sacrifícios para ter certeza que eu estaria no campo todo dia. Eu sei que aqueles primeiros anos foram difíceis para ela.

Era minha mãe que me levava para treinar. Fora do centro de treinamento, ela me esperaria. Ela esperava duas, três, às vezes quatro horas enquanto eu treinava. Esperava na chuva, no frio, não importava.

Ela esperava para que eu pudesse ter meu sonho.

Eu não sabia que ia estrear pela Roma no Stadio Olimpico até 90 minutos antes do jogo. Eu sentei no ônibus que ia do nosso CT para o estário e minha empolgação só cresceu. Qualquer paz que que eu tive na noite de sono anterior foi embora. Torcedores da Roma são diferentes de todos os outros. Espera-se muito de você quando você veste uma camisa da Roma. Você tem que provar seu valor, e não há muito espaço para cometer erros.

Quando eu entrei em campo para meu primeiro jogo, eu estava cheio de orgulho de jogar pela minha casa. Pelo meu avô. Pela minha família.

Por 25 anos, a pressão – o privilégio – não mudou nunca.

Claro, houve erros. E inclusive houve um momento há 12 anos que eu pensei em deixar a Roma para o Real Madrid. Quando um time de tanto sucesso, talvez o mais forte do mundo, te pede para vir, você começa a pensar como a vida pode ser em outro lugar. Eu conversei com o presidente da Roma e aquilo fez a diferença.

Mas no fim, a conversa que eu tive com a minha família me lembro o que significa a vida.

Nossa casa é tudo.

Por 39 anos, Roma foi minha casa. Por 25 anos como jogador, Roma tem sido minha casa. Seja vencendo o Campeonato Italiano ou jogando na Liga dos Campeões, eu espero que tenha representado e levantado as cores da Roma o mais alto que eu pude. Espero que eu tenha feito vocês orgulhosos.

Você pode dizer que eu sou um homem que define seus caminhos. Eu não saí da casa dos meus pais até noivar minha mulher, Ilary. Então quando eu olho para trás no meu tempo aqui e o que eu vou sentir falta, eu sei que será a rotina, o dia a dia. As várias horas treinando, as várias conversas no vestiário. Talvez o que eu vá sentir mais falta é tomar café com meus colegas de time todo dia. Talvez se eu voltar como diretor um dia, esses momentos ainda estarão ali.

As pessoas me perguntam, por que ficar toda sua vida em Roma?

Roma é minha família, meus amigos, as pessoas que eu amo. Roma é o mar, as montanhas, os monumentos. Roma, é claro, é os romanos.

Roma é amarela e vermelha.

Roma, para mim, é o mundo.

Esse clube, essa cidade, tem sido minha vida.

Sempre.

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