Como a morte trágica de zagueiro motivou Inter de Limeira a fazer história

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução

    Zezinho Figueroa passou pelo Cruzeiro antes chegar à Inter de Limeira, seu último clube

    Zezinho Figueroa passou pelo Cruzeiro antes chegar à Inter de Limeira, seu último clube

É possível supor que o zagueiro central Zezinho Figueroa estivesse empolgado quando acordou na manhã de 18 de fevereiro de 1986, uma terça-feira.

Ele faria seu primeiro treino após se recuperar de uma cirurgia no joelho que lhe havia tirado do gramado por meses. Na véspera, seu contrato com a Inter de Limeira havia sido renovado por mais um ano. O beque tinha sido o melhor jogador do time na temporada retrasada e sonhava em repetir o feito agora que seu joelho estava inteiro novamente.

De manhã, treinou forte, como gostam de dizer os boleiros. À tarde, durante um dois-toques despretensioso, caiu no gramado "aos poucos, com a cara no chão", conforme lembraria um companheiro 30 anos depois. Um mal súbito, irreparável, quase inexplicável.

Os médicos tentaram reanimá-lo, mas Zezinho Figueroa, um zagueiro clássico e econômico de palavras, considerado imbatível em jogadas pelo alto, já estava morto.

Ele tinha acabado de fazer 33 anos. Deixava uma mulher, uma filha de dois anos e outro bebê a caminho.

Uma tragédia que virou duas

Uma parte da família da viúva Maria de Fátima, grávida de cinco meses, veio de Belo Horizonte até Colina para o enterro. Um amigo de Zezinho dos tempos de Cruzeiro emprestou aos parentes do falecido um pequeno Gol, no qual se espremeram oito pessoas para cruzar os 585 km entre a capital mineira e a cidadezinha no interior de São Paulo.

Na volta para casa, após o enterro de Zezinho, eles viram um carro correndo em sentido contrário. Um casal também voltava para casa depois de participar de outro enterro em uma cidade vizinha. Os dois carros se chocaram com violência na madrugada. Sete pessoas morreram no acidente, entre elas a sogra do zagueiro, dois cunhados e um tio.

Maria de Fátima sobreviveu, mas ficou três meses no hospital e perdeu o feto em sua barriga. Pollyanna, a filha de Figueroa, também se salvou.

A tragédia traumatizou a família, que nunca mais seria a mesma. O elenco da Inter de Limeira transformou o luto em futebol.

"Eu estava lá e na hora não pareceu nada de mais grave", disse o então técnico Pepe, que duas décadas antes formara um ataque mítico ao lado de Pelé, e havia sido contratado sem maiores expectativas pela Inter. "Foi uma tragédia que abalou todo mundo. Era um jogador experiente, que tinha comando e ia nos ajudar muito naquele ano. Depois do que aconteceu, fizemos um pacto para jogar um Campeonato Paulista lindo e oferecer como uma homenagem à memória dele".

O campeonato da Inter de Limeira foi mais do que apenas lindo. Foi histórico. Superando a perda de Figueroa, jogadores, técnico e a pequena torcida caipira se uniram e levaram, pela primeira vez desde sempre, o troféu de campeão paulista ao interior do Estado.

Arquivo/Folha Imagem
Kita disputa lance na final do Paulista de 1986 entre Inter de Limeira e Palmeiras

A Inter teve o melhor ataque, a melhor defesa e o artilheiro do campeonato, Kita, com 24 gols.

O título veio após final contra o Palmeiras, em um Morumbi lotado. "Tinha gente que se preocupava dizendo que nosso time ia tremer no Morumbi, que ia ser engolido pelo Palmeiras", lembra Pepe. Os palmeirenses estavam havia nove anos sem ganhar títulos e depois de mais uma derrota, só voltariam a ser campeões em 93. "Mas no final ninguém tremeu, e Limeira parou no dia seguinte."

"Foi uma tristeza muito grande acontecer o que aconteceu com um companheiro nosso de profissão", disse o atacante Tato, que marcou o segundo gol na vitória derradeira sobre o Palmeiras.

"Nós ficamos sem ação, sem saber como reagir. Era só meu segundo ano de profissionalismo, mas a equipe tinha outros jogadores experientes e a gente conseguiu se unir e superar a tragédia e outras dificuldades ao longo do ano".

Neste sábado, 3 de setembro de 2016, comemora-se o aniversário de 30 anos da conquista. De lá pra cá, apenas outros três clubes do interior (Bragantino, São Caetano e Ituano) superaram os gigantes da capital e do litoral e foram campeões.

Hoje, a Inter de Limeira joga a terceira divisão do futebol paulista.

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