"Tudo estava me estressando", diz o desempregado Deola, ex-Palmeiras

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

  • Cesar Greco/Agência Palmeiras/Divulgação

    Sem clube, Deola diz estar preparado para voltar a atuar em alto nível

    Sem clube, Deola diz estar preparado para voltar a atuar em alto nível

Reserva de Marcos, um dos maiores ídolos do Palmeiras, Deola passou um bom tempo 'esperando a sua vez'. Estreou no time alviverde em 2009, chegou a ter uma boa sequência em 2010 - com a contusão do ex-goleiro - e assumiu a titularidade de vez quando o 'Marcão' se aposentou, em 2012. Foi quando a sua primeira (e longa) passagem pelo clube começou a chegar ao fim. Deola não repetiu as boas atuações dos anos anteriores, perdeu a posição para Bruno e não jogou mais pelo time. Em seguida, passou por Vitória, Atlético Sorocaba e Fortaleza, sua última equipe antes de resolver dar um tempo na carreira e colocar a cabeça no lugar.

Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o goleiro – que atualmente está sem clube e treinando forte para voltar a fazer o que mais gosta – se abriu e contou o que o fez deixar a carreira de lado, seguindo inclusive conselhos do ex-companheiro de Palmeiras, Marcos.

André VicenteFolhapress

"Eu precisava de um tempo. A minha cabeça já não estava mais 100% focada no futebol, então já não estava me fazendo bem. Tudo estava me estressando, e quando tudo está te estressando, te causando problema, quer dizer que o errado é você, e não os outros. O treinador dava outro treino, eu ficava estressado, acontecia tal coisa, eu ficava estressado... Eu estava intolerante, e o problema na verdade era comigo. Então, para continuar assim, eu poderia virar um chato, uma pessoa que só resmunga, só reclama, então tudo aquilo que eu conquistei eu poderia estar jogando pro alto. Foi quando eu falei: 'espera aí, deixa eu sair um pouquinho, deixa eu espairecer um pouco, curtir um pouco a minha família'", recorda.

Segundo Deola, a presença da família ao seu lado fez-se extremamente necessária no momento em que tudo estava dando errado na sua carreira.

"Querendo ou não, eu nunca tinha ido numa festa do Dia dos Pais na escola da minha filha, então eu precisava dar um tempo. Eu tive proposta de clubes do Brasil todo e eu acabei sendo bem sincero, eu falei: 'Para eu chegar hoje num clube e exercer esta questão de liderança, ser um jogador para motivar o clube, não vai ser eu, porque eu não estou nesta condição', e aí eles entenderam. Eu fiquei de dois a três meses parado, sem assistir jogo, sem praticar esporte, só fazendo os meus trabalhos. Então foi muito importante para mim, pessoalmente, ter dado esta parada. Profissionalmente não, é pior, porque você fica fora do mercado, todo mundo pensa que você está gordo, que você abandonou o futebol, que você se aposentou, todo mundo pensa um monte de coisa, mas pessoalmente, para mim, foi muito bom. Eu melhorei a minha cabeça e a minha parte física", contou Deola.

Encerrar a carreira não passou pela cabeça

Apesar do período de estresse que viveu por conta do futebol, Deola afirma não ter pensado em parar de vez com a carreira, e sim apenas dar um tempo para 'voltar com tudo'.

Divulgação

"Encerrar a carreira, não. Ao longo da minha profissão eu já pensei que, quando chegasse aos 33, 34 anos, eu pensava nesta possibilidade de encerrar a carreira. Isso passava na minha cabeça, por contas das lesões que eu tive e por várias circunstâncias. Eu tive um problema grave no púbis em 2014, uma fratura grave na mão em 2013, são coisas que fazem dar uma repensada, mas desta vez não. Quando eu optei em dar uma afastada eu não pensei em parar, eu pensei realmente em dar um tempo e voltar a ter aquela vontade de jogar futebol. A minha cabeça não estava preparada para encarar mais uma sequência de pré temporada, de jogos, eu não estava com cabeça para isso, eu precisava mesmo descansar mais a mente e aí, sim, voltar a ter vontade, prazer em jogar futebol", revela o ex-goleiro palmeirense.

"Eu, que fui de clube grande, a cobrança é muito grande, então às vezes aquela vontade, aquele sonho de menino que você tem de jogar futebol sai de lado por conta das cobranças. Você não pode errar e não pode fazer nada, então isso acaba te tirando um pouco a vontade, te tirando um pouco o entusiasmo, então esse tempo fora acabou me dando uma grande vontade. Hoje eu vejo que não preciso de um grande salário, de muitas coisas, não, eu preciso de algo para me manter e que me dê prazer de estar dentro de campo, que é a coisa que eu sempre quis na minha vida. Eu queria um tempo para mim e para a minha família e foi isso que eu tive", diz.

Pausa veio após 'aval' de São Marcos

Antes de resolver dar uma parada na carreira, Deola procurou conversar com algumas pessoas que pudessem lhe dar bons conselhos. Entre elas, São Marcos, que inclusive aprovou a ideia.

Fabio Braga/Folhapress

"Eu conversei com muita gente, porque as pessoas queriam saber o que aconteceu comigo, como eu estava, o que eu estava fazendo e tudo mais. Seria muito cômodo para mim: o cara está me dando um salário bom, eu vou, só que eu vou chegar lá e não estaria capacitado para dar o meu melhor, e em todos os lugares que eu fui, eu fui para dar o meu melhor. O tempo que eu fiquei no Palmeiras eu dei o meu melhor, quando eu fui para o Vitória a gente conseguiu o acesso e o Estadual, no Fortaleza eu fui o goleiro menos vazado do campeonato e fui campeão cearense, então eu não ia poder dar o meu melhor", afirmou.

"Todo mundo estava me encorajando a continuar jogando e o Marcos, conversando com ele, me entendeu perfeitamente porque ele já se viu nesta situação e passou muito por isso. Muitas vezes ele precisava de um tempo a mais para recuperar, só que não conseguia por causa de contrato, e eu não tinha mais contrato com ninguém e falei: 'vamos dar um passo atrás, por mais que fosse me prejudicar profissionalmente, mas saúde, corpo, mente e família vêm em primeiro lugar, depois a gente corre atrás', e o Marcos falou: 'Está certo, dá uma espairecida e depois volta com tudo', porque potencial eu sei que eu tenho. Eu sei aonde posso chegar, então agora é uma questão de tempo para voltar a jogar uma Série A ou B", diz.

Treino em sindicato e pronto para voltar

Passada a crise, Deola trabalha forte desde abril e já se diz pronto para voltar. Aguardando propostas de clubes, o goleiro treina no Sindicato dos Atletas Profissionais (Sapesp), na Barra Funda, em São Paulo. E ele conta como surgiu esta oportunidade.

"Logo que eu voltei para São Paulo eu dei um pulo lá no sindicato pra conversar com o pessoal e tudo mais, porque eu tenho uma boa amizade com eles. Aí o Luís Eduardo Pinella [vice-presidente da Sapesp] falou: 'Olha, tem como treinar aqui, não sei se te interessa'. Aí eu falei: 'Legal, né'? Antes, para eu estar treinado, eu tinha que pagar um professor. No sindicato eles já têm um pessoal voltado para o jogador sem clube, você não precisa pagar, você tem material, campo, um espaço para tomar banho. Aí eu falei: 'vamos lá'. Estou gostando. Estou treinando há um mês e pouco lá. Às vezes, quando você fica parado, você vai na academia, corre, faz a parte física, mas você precisa da parte técnica também. Então lá é como se fosse um clube de futebol, só que lá ninguém tem contrato e ninguém recebe", explica.

No sindicato eles já têm um pessoal voltado para o jogador sem clube, você não precisa pagar"

Apesar de já estar aberto a propostas, Deola acha difícil que consiga algum contrato ainda este ano. Segundo ele, sua imagem ainda é a de um jogador que não está preparado para atuar.

"Agora é difícil aparecer alguma coisa esse ano. Qualquer outro nome que esteja treinando, esteja atuando, eles acabarão optando pelo outro nome, por que? O Deola está parado, então na cabeça deles este parado representa: 'o Deola está gordo, o Deola está fora de forma, vai levar aí mais de um mês para entrar em forma e a gente precisa resolver o nosso problema de urgência'. Só que na verdade eu não estou parado, eu estou em forma, eu estou com a parte física melhor que quando eu jogava no Palmeiras. Então eu estou preparado. Se algum clube hoje precisar eu estou pronto, se precisar para a semana que vem eu estou pronto para jogar, mas o foco é para o ano que vem, então a cabeça está para o ano que vem", acrescenta.

Sonho de voltar ao Palmeiras

Cesar Crego/Divulgação/Agência

Hoje com 33 anos, Deola não descarta retornar ao Palmeiras em um futuro não muito distante. E garante ter potencial para voltar ao gol alviverde.

"Sim [sonha em voltar ao Palmeiras], eu sei do meu potencial. Não existe nada descartado. Eu tenho muita vontade, é o lugar onde eu me criei. Eu penso que as portas estão abertas para qualquer momento, se eu de novo voltar por merecer. É logico que o Palmeiras vai querer o que tiver de melhor no mercado, e se eu for um desses é obvio que a chance de voltar é grande, então eu tenho a vontade de voltar é um lugar onde eu fui muito feliz", conta.

Injustiça no Palmeiras e Prass 'beneficiado'?

Conhecido por formar bons goleiros e utilizá-los no time principal ao longo de sua história, o Palmeiras conta hoje com goleiros não revelados em suas categorias de base, como o experiente Fernando Prass e o hoje titular Jaílson. Para Deola, isso acontece porque o clube não vem tendo paciência com os pratas da casa – ao contrário dos arqueiros vindos de fora.

Cesar Greco/Ag Palmeiras

"O Palmeiras continua tendo goleiros bons. A questão é que o jogador da base está no clube, sei lá, há cinco, dez anos. É um custo praticamente muito baixo para o clube, e o clube não sente este custo no jogador. E quando você contrata, você vai lá e paga de uma vez só por este jogador, então automaticamente ele custou milhões de reais e o clube não vai querer perder ele de qualquer jeito. Então, se ele não for tão bem, ele vai ter uma segunda chance, terceira, quarta, até ele se estabilizar. Já na base é diferente: o jogador que sobe para o profissional subiu porque o clube não está bem o clube está passando por algum problema, e ele é colocado como um salvador, então ele sobe com o status que ele não tem, num momento que o clube não poderia colocar ele, e acaba automaticamente se queimando", analisa.

"Por mais que eu tenha tido 107 jogos no Palmeiras como profissional, foi na hora que o Marcos realmente encerrou a carreira que começaram a me cobrar. O gol que não era culpa minha... Lógico que eu tive as minhas falhas e todo jogo que eu tomava gol eu tinha que sair explicando, então aconteceu muito isso comigo e também com o Bruno e o Fábio", diz.

De acordo com Deola, Fernando Prass poderia ter tido outra história no Palmeiras se, por acaso, tivesse subido das categorias de base - já que não teriam tido a mesma paciência.

O Prass, quando chegou, tomou alguns gol e fez alguns jogos que, se fosse qualquer goleiro da base, seria fatal"

"O Prass, quando chegou, tomou alguns gols, fez alguns jogos que se fosse qualquer goleiro da base seria fatal, a gente seria trocado sem titubear, mas como o Prass foi contratado era um dinheiro, era um custo, então ele teve esse tempo. Ele foi ganhando confiança e num curto espaço de tempo ganhou a confiança. Ele chegou numa fase muito ruim do Palmeiras que os goleiros estavam sendo mesmo contestados, e deram crédito pra ele, e nisso o Prass cresceu muito rápido, virou o líder do time, conquistou título e hoje é goleiro de seleção brasileira e respeitado, líder dentro do clube. Não tem o que questioná-lo", opinou o goleiro.

Jaílson x Vágner

Deola analisou ainda a recente disputa que houve no gol palmeirense. Segundo ele, Vágner, que jogou algumas partidas e acabou barrado, entrou com mais pressão que Jaílson, que acumulou uma boa sequência de jogos e assumiu a titularidade na ausência de Prass.

Cesar Greco/Agência Palmeiras

"Ele [Jaílson] está aproveitando a oportunidade. Eu já tinha jogado contra ele, é um excelente goleiro, mas é difícil você entrar numa furada... digo, num momento em que o time vinha de derrota, mas ele estava numa situação um pouco mais tranquila entre aspas, porque como o Vagner teve alguns erros, ele não precisava fazer muita coisa. Se o Jaílson fizesse uma defesa ou outra ele já seria visto pela torcida e por todo mundo com bons olhos. A forma que o Jailson entrou foi muito melhor do que a forma que o Vágner entrou. O Vágner entrou no lugar do Fernando Prass, um ídolo que estava indo para uma seleção brasileira nas Olimpíadas, então a responsabilidade do Vágner era muito maior", completa Deola.

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