Ex-Flamengo preso por militares só não apanhou porque tocava violão

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução Facebook

    O uruguaio Sérgio Ramirez com um capuz na cabeça ao ser preso por militares

    O uruguaio Sérgio Ramirez com um capuz na cabeça ao ser preso por militares

Jovem, jogador de futebol e em férias. Sérgio Ramirez era só alegria na festa de virada do ano de 1972. Ele mandava ver no violão no Café London, um dos dois bares ao redor da praça da cidade em que nasceu, Treinta y Tres, no Uruguai.

Mas a comemoração acontecia em época de agitação política e ditaduras na América Latina. E em tempos de arrocho militar, era preciso ter um certo cuidado com o que se dizia ou com o que se fazia. Ramirez passou a primeira manhã de 1972 dentro de um quartel com um capuz na cabeça.

O jogador foi parar lá porque no Café London um policial civil foi hostilizado duas vezes com uma garrafa explodindo perto de seus pés. Ninguém viu e ninguém sabe quem resolveu arremessar o objeto em direção ao oficial. E quando a agressão se repetiu, o homem retornou à delegacia de sua cidade soltando fogo pelas ventas.

Não demorou 10 minutos e um caminhão do Exército se aproximou do bar e dispersou o grupo. Ramirez e alguns amigos voltavam para casa a pé quando cruzaram com o veículo e aplaudiram ironicamente. Uma ideia infeliz. Eram 5h da madrugada e ele teve que correr para fugir dos militares.

Conseguiu chegar em casa, mas a segurança do lar se revelou uma ilusão. Logo a mãe avisou que tinha um soldado querendo falar com ele. Ramirez estava preso. Não se apavorou porque o pai era militar e conhecia todo mundo no quartel.

Tanto que o homem fardado que fora a sua casa tratava o jogador pelo apelido de infância, Colacho. Mas os rostos amigos sumiram assim que entrou no quartel. A região de Treinta y Tres estava repleta de guerrilheiros tupamaros, grupo que José Mujica integrava.

Vários militares de Montevidéu foram enviados a Treinta y Tres para repressão. Foi com eles que Ramirez preciso se entender. Depois de um tempão em posições desconfortáveis, como sustentar o corpo nas mãos que se apoiavam em pedras britas bem finas, o jogador foi apresentado a um álbum de fotos.

Quando disse que não reconhecia ninguém, sofreu uma ameaça. Um militar avisou que estava colocando a carreira em risco ao não colaborar. Ramirez contou que era "metido a valentão" e respondeu que se isto acontecesse, largaria o futebol e ia virar músico. Escutou um burburinho e algo tocar a parte de trás da perna. Era uma cadeira.

"Tô ali com o olho fechado e senti violão nos meus braços. Falaram: 'agora você vai cantar'. Falei que ia cantar para meus amigos. E na praça central do quartel. Peguei o violão e fiz um acorde e pensei que violão bom, que som."

Ele cantou "Afonsina y el Mar," interpretada por Mercedes Sosa. Ramirez ficou orgulhoso de sua performance. "Acho que foi a vez que cantei mais lindo na minha vida. Cantei com muita emoção, acho que interpretação como essa na minha vida nunca consegui ter."

Anos mais tarde, Ramirez soube que seu amigo Guido, um militante de esquerda, também aprovou, e muito, a música naquela manhã de 1972. Ele passou anos preso e a canção deu um pouco de alívio à rotina de torturas.

"Fiquei tão emocionado. Ele falou que foram os cinco minutos menos angustiantes dele."

O jogador passou a manhã toda no quartel e foi liberado logo depois do meio-dia. Os amigos sem habilidades musicais ficaram até o começo da noite. E ainda apanharam.


Reprodução Facebook

Rivalidade com Rivelino

Poucos dias antes de voltar a Montevidéu, Ramirez recebeu um envelope de papel pardo. Dentro, viu uma foto dele sentado em uma cadeira de vime. O pai, que era militar, pediu para tomar cuidado com o que faria. A imagem ficou guardada por mais de 40 anos até ser postada no Facebook ano passado.

O jogador estava focado na carreira e teve sucesso. Foi para a seleção uruguaia e em 1977 se tornou atleta do Flamengo. A chegada foi cercada de burburinho porque no ano anterior ele se envolveu em uma briga com Rivelino num Brasil e Uruguai no Maracanã.

Assim que o juiz apitou o final de uma partida, Ramirez correu na direção de Rivelino para revidar uma agressão que o brasileiro cometeu contra um companheiro de time noutro jogo. Lógico que Rivelino correu em direção ao banco brasileiro e quando o uruguaio percebeu, estava cercado e apanhando não só de jogadores.

"E eu caia e levantava. Era jogador, polícia e até repórter. Este tinha walk talk enorme com antena grandona".

A diretoria do Flamengo viu qualidades no lateral, contratou o jogador e ainda tentou explorar a briga para encher estádios. Ramirez conta que na conversa antes da apresentação à imprensa o presidente do clube pediu que falasse que estava no time para se vingar de Rivelino, camisa 10 do Fluminense.

"Respondi de jeito nenhum, não vou falar isso. Queriam colocar lenha na fogueira para dar renda".

Foram vários clássicos num time que teve Zico, Júnior, Mozer, Rondinelli, Claudio Adão e outros craques. O uruguaio conta que ficou muito amigo de Junior. A música aproximou a dupla e hoje eles cantam juntos quando se encontram.

"Quando estou em Curitiba (onde tem casa) e ele vai fazer jogo do Flamengo, fala: 'arranja um boteco pra nós'. Se tô no Rio, vou com ele para os pagodes".

Ramirez ainda vive do futebol. Se tornou técnico e dirigiu várias equipes e hoje está no comando do Guarani de Palhoça, time de Santa Catarina.

 

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