Sissi faz carreira de técnica, sonha com seleção, mas evita criticar Vadão

Emanuel Colombari

Do UOL, em São Paulo

  • David Cannon /Allsport

Ao fim da participação da seleção brasileira feminina de futebol nos Jogos Olímpicos de 2016, começaram a circular boatos de uma possível saída do técnico Vadão da equipe. Sissi, que defendeu a equipe entre 1988 e 1999, teve seu nome cogitado para assumir o Brasil. No fim, porém, Vadão – que está no cargo desde 2014 – acabou sendo mantido no cargo.

Mas o que Sissi acha da seleção feminina? O UOL Esporte perguntou à ex-meia-atacante, que, em primeiro lugar, evitou críticas à comissão técnica da seleção.

"É difícil falar que o problema seja só o treinador. São vários fatores. Não vou dizer que a culpa é do Vadão. Não quero ser a pessoa a apontar quem é o culpado, se o problema é ou foi ele. Eu respeito o profissional que é o Vadão, a comissão técnica. Até como treinadora, eu prefiro ficar fora disso aí. Não é fácil ficar à frente de uma seleção. A pressão sempre vai ser maior, ainda mais no Brasil. O futebol feminino vem batalhando, a gente sabe das dificuldades - desde que eu joguei pela seleção", disse Sissi à reportagem por telefone.

Com Vadão à frente, a seleção brasileira fez boa campanha na primeira fase da Copa do Mundo feminina em 2015, no Canadá (três vitórias em três jogos), mas perdeu da Austrália nas oitavas de final por 1 a 0. Na Rio-2016, mais uma vez, passou tranquila pela primeira fase (sete pontos), eliminou a Austrália nos pênaltis nas quartas e só parou diante da Suécia, nas semifinais, também nos pênaltis.

Apesar de a seleção ainda não ter alcançado um título de expressão, Sissi se mostrou satisfeita com o ciclo olímpico. "Eu estava com uma esperança danada. Achei que dessa vez a gente tinha condições de ganhar o ouro", contou Sissi, que hoje mora nos EUA.

"Acho que, quando as coisas não acontecem do jeito que a gente quer, a gente sempre vai tentar achar o motivo. Vi que a seleção estava (fisicamente) bem preparada. Mas te falar o que faltou fica difícil. Só quem estava lá dentro, quem pode responder, são as próprias jogadoras, a própria comissão. Eu achei que, desta vez, psicologicamente, a seleção era uma das favoritas", analisou.

A chance na seleção, Sissi ainda espera ter. Mas não seria necessária uma grande mudança na comissão técnica. Para ela, estaria de bom tamanho uma oportunidade como auxiliar – independente de um homem ou uma mulher comandar o Brasil.

"Quando a gente fala 'ah, essa pessoa', a pessoa acha que a gente está querendo um homem ou uma mulher como treinador. Eu sempre falei que meu sonho é ajudar de alguma forma – auxiliar, como for. Eu estou construindo minha carreira nos EUA. Tenho trabalhado como treinadora desde 2004. Acho que várias mulheres demonstraram capacidade com outras seleções", afirmou, indo além.

"Mas a esperança é a última que morre – nem que seja como auxiliar, mas (gostaria de) poder ajudar de alguma forma. Tem várias ex-jogadoras que esperam trabalhar com as categorias de base, de alguma forma. Não sei porque essas profissionais não têm essa chance. Quem pode responder isso é a CBF", acrescentou.

O trabalho feito no Brasil

Reprodução

Embora a seleção brasileira dispute a Copa do Mundo feminina desde a primeira edição, em 1991, as competições femininas de futebol no país são bem mais recentes. Rio de Janeiro e Bahia organizam torneios estaduais femininos com regularidade desde a década de 1980, enquanto estados como São Paulo, Paraná e Pará só repetiram a iniciativa no fim da década de 1990. A Copa do Brasil é jogada desde 2007, enquanto o Campeonato Brasileiro é mais recente, de 2013, e conta com apenas uma divisão de 20 clubes.

Para Sissi, "entre vários fatores", o fortalecimento da seleção brasileira feminina passa pelo estabelecimento de um calendário sólido da modalidade no Brasil – não apenas para facilitar a observação de jogadoras desde a base, mas também para dar base mais estável à modalidade no país.

"Acho que a gente deu um passo grande, dá pra ver que a coisa está melhorando. Mas quantos clubes participam dos campeonatos? Quantos clubes participam do futebol feminino? Qual é o nível? Dá para notar que, hoje, já estão pensando em fazer algo", comenta. "Mas por não estar morando no Brasil, não dá para notar. Quem está olhando? Qual é o trabalho voltado para a seleção? Essas meninas vão ter chance de fazer parte de seleção de base? Já deu para notar que tem melhorado, mas ainda não está do jeito que elas querem. Acho que é por isso que tem muita jogadora atuando fora do Brasil. É diferente. As americanas jogam aqui nos EUA. Não sei se o problema (no Brasil) é só financeiro. Não é só questão de fazer campeonato. É uma estrutura profissional? Acho que é isso que ainda está faltando", acrescentou.

Mas o futebol profissional é só uma etapa no fortalecimento da prática do futebol entre mulheres no Brasil. Para Sissi, que hoje trabalha no Walnut Creek Soccer Club, um clube voltado para jovens de até 18 anos na Califórnia, a mudança de patamar da modalidade no país passa pela inserção do futebol feminino em escolas, onde a prática é majoritariamente masculina.

"A aceitação é maior que há 20 anos. Mas a gente precisa introduzir o futebol feminino nas escolas. O futebol aqui (nos EUA) é praticado nas escolas. No meu clube, há 1,2 mil crianças registradas - não só do lado competitivo, mas também recreativo. Tem programas aqui também. Elas já trabalham visando de repente a seleção, não só de categoria de base, mas também de principal. O primeiro é introduzir o futebol feminino nas escolas", diz a treinadora. "Eu acredito que, se a gente quiser, tem que começar a ser praticado na escola. Depois, tem que se ter programas, se trabalhar com escolinhas."

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Nos EUA, trabalho desde a infância

No Walnut Creek Soccer Club, Sissi trabalha como diretora das categorias de base femininas. Além disso, comanda as equipes formadas por jogadoras de 9 anos (nascidas em 2007) e na categoria sub-15 (jogadoras de 14 e 15 anos nascidas em 2002). De quebra, ainda é assistente técnica do time do time do Solano Community College, equipe universitária da região de San Francisco.

"Eu adoro o que eu faço. Não imaginava que de repente eu ia ter a oportunidade de ficar nos EUA (após o fim da carreira como jogadora, em 2009, pelo FC Gold Pride). Um dos motivos de sair (do Brasil) foi não só jogar profissionalmente, mas também ter a oportunidade de continuar o trabalho aqui. O trabalho como diretora me dá acesso às categorias de base. Mas já trabalhei com garotas de 17, 18", conta Sissi.

"Estou pensando também, e meu sonho é trabalhar em universidade, nem que comece como assistente. Eles não querem que você tenha só educação, mas também as licenças. Muita gente pensa que treinador é só experiência; tem que se educar, saber táticas, tudo isso. Estou mais focada nisso. Se surgir alguma oportunidade... Quero começar como auxiliar. Você não vai ser considerado um grande treinador só pela experiência", completa.

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