Interino campeão do Corinthians relembra pressão e dá conselho a Carille

Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

  • Eduardo Knapp

Passar de auxiliar a treinador interino e sofrer pressão diária no comando de um dos maiores clubes do Brasil. Essa frase descreve a situação de Fábio Carille, atual técnico do Corinthians, mas também pode ser aplicada a outro personagem da história alvinegra: Eduardo Amorim.

Em entrevista ao UOL Esporte, o ex-auxiliar de Mário Sérgio, que foi campeão do Paulistão e da Copa do Brasil em 1995 na condição de interino, falou de como foi conviver com o dia a dia em ebulição do Corinthians e deu conselhos para Carille suportar a pressão – que já começou a aparecer em partidas na Arena Corinthians e se intensificaram após a derrota por 2 a 0 para o Botafogo, no último sábado.

"É ganhar ou ganhar, porque este negócio de interino... Eu fui interino e, mesmo ganhando as duas competições de 95, eles [diretoria] me trataram como interino. Meu contrato era de interino, meu salário era de interino. Mas eu fiz um bom trabalho, esperei, e quando eu fui campeão, foi aí que eu falei: 'não, agora é assim'. Então eles vão tratar o Carille dessa mesma forma", disse Amorim.

"O Carille tem que convencer. Hoje já tem um 'zum zum' de trazer outro treinador, e o elenco é relativamente mais fraco. Mas a pessoa tem que ser inteligente para mexer no time. Tem peças em que você não pode mexer", continuou.

Para Amorim, a indefinição da diretoria corintiana sobre manter Carille ou contratar logo um novo treinador é algo que atrapalha o interino.

"Eu penso que tem que decidir logo, até porque é a carreira dele. Se for assim, seria melhor contratar logo um treinador, acaba com a especulação, decide logo. Quem banca o Carille até o final? Para o Carille isso é chato, incomoda, e ele quer a oportunidade. Com tranquilidade ele não vai ter, ninguém vai dar o respaldo. Se não deram para mim naquela época, não vai dar para ele hoje".

"Querem te derrubar"

Amorim contou que, em 1995, havia uma ameaça diária que ele perdesse o emprego no Corinthians. Ele disse que a tarefa mais complicada, além de "domar" um grupo com personalidades fortes como Marcelinho Carioca, Ronaldo e Edmundo, era suportar a pressão da diretoria.

"Era o [Alberto] Dualib presidente, e o Zezinho Mansur como diretor de futebol. Eles faziam pressão, diziam 'se não ganhar hoje, sai'. Eu ouvi isso, era uma pressão que não precisava. Em vez de dar uma força, era pressão. Havia dirigentes amadores e bons dirigentes misturados, muitos querem te derrubar, muitos te acham inexperiente", relembrou.

Na visão de Amorim, os dirigentes corintianos da época não "assumiam a bronca" quanto a problemas disciplinares e financeiros do elenco. Sobrava tudo para o treinador.

"Os jogadores tinham temperamentos diferentes uns dos outros, de esquentar o ambiente, mesmo. Às vezes, você tinha que tomar a frente de algumas coisas, que dirigentes tinham que tomar e não tomavam. Naquele tempo era muito individualizado, o jogador fazia contrato, tinha que receber luvas, acertava com os dirigentes. Eles [jogadores] viviam insatisfeitos com as coisas que não eram resolvidas, então para controlar esse time não foi fácil".

Hoje, aos 64 anos, Amorim busca voltar a trabalhar no Brasil. Após passar mais de oito anos em clubes da Grécia (Apollon Kalamarias, Messeakos e Kalamata) e treinar o pequeno Funorte – clube de sua cidade, Montes Claros (MG) –, ele admite dificuldades para se reinserir no mercado de treinadores, mas destaca a própria experiência.

"O dirigente não quer saber de currículo, e o meu currículo é bom. Eu mandei para algumas pessoas, falei com empresários que entraram em contatos com alguns clubes, e as respostas foram que eu estava fora há muito tempo. Mas o bom dirigente, o cara estudioso, ele pode olhar tranquilamente o meu currículo, analisar e falar: 'pô, eu estou dando chance para muita gente, por que para esse currículo eu não posso dar?'. Eu não entendo, isso não dá para entender".

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