Sem jogos por meses, atletas das Séries C e D buscam ganha-pão até em apps

Napoleão de Almeida

Colaboração para UOL, em Curitiba

  • Arquivo pessoal

Victor estava no banco de reservas do Tombense na partida que selou a queda da tradicional Portuguesa para a Série D, em 18 de setembro. Aquele jogo também marcou o fim da linha para o time mineiro na terceira divisão nacional, eliminado em quinto lugar na fase de grupos, com um ponto a menos que o Juventude – algo que ainda está pendente nos tribunais. Seu próximo jogo como profissional está marcado para fevereiro de 2017, quando se inicia o Campeonato Mineiro. Uma inatividade de quatro meses, motivada pelo criticadíssimo calendário da CBF, e que encontrou num aplicativo de celular um paliativo.

"Eu vi na televisão os caras comentando. Eu procurei saber como era, baixei o aplicativo. Sempre que tem jogo soçaite, eu vou. A gente ganha o dinheiro e mantém o ritmo" conta o novo Goleiro de Aluguel, nome do app que permite que peladeiros contratem goleiros, um problema frequente nas peladas. No último dia 20, dois dias depois da eliminação, Victor fechou o gol por R$ 30 por hora em uma quadra de Belo Horizonte. "Deste valor, R$ 18 vão para o goleiro, R$ 6 mantém o site e outros seis reais vão para um fundo de doação para projetos sociais ligados à posição de goleiro", contou Samuel Toaldo, um dos criadores do app. "Se eu quisesse mesmo, dava até três convocações por dia. Mas eu escolho uma só. Dá uns 150 reais por semana, se aceitar todos os dias", relata Victor, que mantém vínculo com o Tombense, mas complementa a renda assim.

"Um goleiro que ganhe uma média de R$ 18 por hora, trabalhando 40 horas por semana, vai ganhar R$ 3 mil reais. 86% recebem menos de mil reais", diz Samuel. O dinheiro porém não é o maior motivador para Victor. "Tenho medo de machucar", conta o goleiro de aluguel, "Mas como o calendário brasileiro é ruim demais, ficar parado três meses não é viável. Se tiver dividida, eu evito. Na linha eu também não jogo." Victor é apenas um entre centenas de atletas que ficam inativos com o final das atividades de seus clubes nas séries C e D.

Danilo Baía é outro. O lateral-direito encerrou o vínculo com o América-RN e retornou ao Operário de Ponta Grossa, que está nas finais da Copa FPF, uma competição sub-23 que dá vaga à Série D em 2017. Baía ficará apenas treinando até o final de fevereiro, quando deve se iniciar a segunda divisão do Paraná. "Agora não tem nada. Os clubes começam a contratar em novembro. É muito tempo sem fazer nada", conta. Tanto ele quanto Victor conhecem jogadores na mesma situação. Colegas que podem estar amparados ou não. E aí toda renda é bem vinda – desde o bico como goleiro de aluguel a tarefas como dirigir Uber ou ajudar a família em seu negócio.

Se Tombense e América-RN não cumpriram seus objetivos – afinal a Série C continua até seis de novembro – nem só clubes mal-sucedidos na temporada viverão o ócio por vários meses. Finalista da Série D no sábado 1º de outubro, o Volta Redonda já se prepara para dispensar a maioria de seus atletas até dezembro, quando iniciará a pré-temporada 2017. São dois meses a menos na folha – dois meses para vários atletas buscarem alternativas, principalmente tentarem outros clubes. "Vamos correr esse risco. A gente não tem como arcar com salários sem arrecadação. É desse maneira que tem que trabalhar, infelizmente é assim", conforma-se Leonardo Dinelli, gerente de futebol do Voltaço.

Em 2017 as coisas estarão melhores para a equipe fluminense. A Série C é um campeonato maior, menos deficitário. Mas poderia ser melhor, comenta o dirigente. "Poderia ser no formato da A e da B. Você teria 38 jogos e não 18. A gente tem atletas que estavam na C e já se apresentavam de volta, vamos absorver sem poder utilizá-los. Ainda que a D esse ano foi mais longa, teve mais vagas. Ajudou por que alongou mais, estou há mais tempo com os atletas e consigo mostrar que somos um clube que pode abrir portas."

Com as novas determinações da Conmebol, a CBF terá que adequar o calendário nacional. Enxugar os estaduais é um desejo dos grandes que vai na contramão da necessidade dos pequenos. "O Estadual é rentável pra nós. Com o dinheiro dele eu me mantenho o ano todo. Sem os grandes não dá. É isso que atrai os atletas pra gente", conta Dinelli, que mesmo estando do lado do empregador, sabe a dureza que muitos jogadores terão nos próximos meses. "É complicado, na verdade o atleta precisa se manter. Vai ter dois meses sem entrar nada? Eu sei como é ficar sem emprego. É mais comum do que se imagina."

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