10 mandamentos que Tite pôs em prática para afastar clima ruim da era Dunga

Dassler Marques

Do UOL, em São Paulo

  • Pedro Martins/MoWa Press

    Elenco escuta Tite durante treinamento da seleção brasileira na última semana

    Elenco escuta Tite durante treinamento da seleção brasileira na última semana

Quem já trabalhou com Tite anteriormente, em especial no Corinthians, tem uma certeza.

Uma parte do êxito do técnico vem do conhecimento de futebol, treinamentos e táticas, entre outros aspectos ligados às quatro linhas. A outra parte vem da capacidade que poucos treinadores possuem para gerir uma equipe de trabalho com mais de 30 pessoas entre atletas, comissão e funcionários. A chamada gestão de grupo é um dos pontos chave e já se percebe claramente após três jogos na seleção brasileira. 

O quarto, que poderá representar a quarta vitória do treinador, será nesta terça-feira diante da Venezuela, em Mérida, a partir das 21h30 (de Brasília). As diferenças têm sido notadas não somente dentro de campo, mas também fora. Se com Dunga o ambiente era de incerteza com jogadores e ruim com vários funcionários, Tite trouxe uma atmosfera nova que também contribui para o momento atual.

Veja os mandamentos dele na gestão de grupo:

1) Zerar desavenças passadas

Em dois anos no cargo, Dunga já não tinha relação boa com alguns jogadores convocáveis. Tite foi à Europa no início de seu trabalho para, entre outros motivos, tratar disso com Marcelo e Thiago Silva. O treinador costuma dizer que não herdou desavenças anteriores e que os atletas só serão avaliados por aquilo que fizerem sob seu comando. De volta, o lateral foi um dos protagonistas das vitórias sobre Equador e Colômbia em setembro. 

2) "Competir com lealdade"

Na sequência do processo acima, está o estímulo à competição entre os atletas. Tite acredita que ter jogadores importantes eventualmente no banco de reservas pressiona os titulares a jogar cada vez melhor - e vice-versa. O treinador é rígido, entretanto, no controle da disciplina na relação entre eles. Pede, como observou positivamente em Coutinho e Willian, que a competição se dê de forma amiga e leal.  

Nelson Almeida/AFP
Thiago Silva: no banco de Marquinhos

3) Ser claro, direto e coerente com os jogadores

Uma das virtudes apontadas por comandados de Tite é sua transparência na relação. Nas recentes trocas de Willian por Coutinho e de Giuliano por Paulinho, ele explicou as razões diretamente aos atletas. Outro aspecto referente a isso é o de que quem chega com o time montado, invariavelmente, começa pelo banco de reservas. Thiago Silva, capitão em Copa do Mundo, que o diga. 

4) Telefonar muito

Tite e toda sua comissão se mantêm em contato com os jogadores quando estão fora da seleção. Por um lado, a ideia é amenizar o pouco tempo que têm para trabalhar juntos e, dessa forma, enviar e trocar informações. Por outro, o treinador também estreita o contato pessoal. Ele ligou diretamente a atletas convocados pela primeira vez, como o lateral Wendell. Também não se furta a pedir informações, como ao procurar Willian para saber sobre Oscar, que se destacava novamente pelo Chelsea. 

5) Fazer todos acreditarem que são importantes

Disseminar esse conceito dentro do grupo de atletas é uma das obsessões do treinador, que tenta de tudo para manter os jogadores motivados. Se alguém pode estar cabisbaixo ou com poucas oportunidades, recebe um agrado, como Filipe Luís. Nos tempos de Corinthians, não foram poucas as vezes em que atletas desacreditados surgiram de forma importante repentinamente - no Brasileirão 2015, por exemplo, Rodriguinho pintou com gol decisivo sobre a Ponte Preta e Romero foi homem do jogo diante do São Paulo. 

6) Dar liberdade aos jogadores

Ao contrário de Dunga, não existe um código de conduta rígido para os atletas ou qualquer tipo de cartilha. Neymar, suspenso contra a Bolívia, foi liberado de viajar à Venezuela. Todo o elenco, depois da mesma partida na última quinta, foi liberado para descansar e aproveitar Natal até o jantar do dia seguinte. Se achar necessário, Tite protege os jogadores externamente e faz de tudo para evitar que informações internas referentes a uma eventual indisciplina cheguem à imprensa. 

Rafael Ribeiro/CBF
Taffarel é o preparador de goleiros da seleção brasileira

7) Dar autonomia para os auxiliares

Em entrevistas, Tite já disse que não quer 'cordeirinhos' como auxiliares. Matheus Bachi, Sylvinho, Fábio Mahseredjian, Taffarel e principalmente Cléber Xavier, seu braço direito, têm voz ativa e participam diretamente na tomada de decisões, embora a última palavra seja a do treinador. Toda a equipe de trabalho dentro ou em torno da comissão técnica é ouvida em um regime interno em que as responsabilidades costumam ser divididas. Com Dunga, havia queixas de maus tratos e dificuldade em assimilar o que era colocado por pessoas de outras áreas da entidade para ele. 

8) Deixar Edu Gaspar ser o para-raio

O coordenador da seleções, escolhido com a ajuda de Tite, tem cumprido o papel que dele se esperava. É quem liga a comissão técnica aos jogadores e à direção da CBF. Ele é quem apresentou demandas aos superiores como, por exemplo, a necessidade de fretar um avião para quem atua na Europa. Ou quem comunicou a Neymar e à imprensa que o jogador estava liberado da viagem à Venezuela. A ideia de ter Edu é poupar a área técnica de certos desgastes. 

9) Tratar bem a imprensa...

Em geral, Tite é elogiado por quem o acompanha pela forma simples e atenciosa como trata as pessoas. Esses princípios também são aplicados na relação com a imprensa, que é muito diferente dos tempos de Dunga. O treinador tem seu assessor de imprensa pessoal e tem atendido diferentes veículos de acordo com disponibilidade em sua agenda. É solícito e procura responder as perguntas, além de estar aberto a abordagens fora das protocolares entrevistas coletivas. 

10) ...e também Galvão Bueno

Não se pode minimizar o impacto que tem a voz oficial de todos os jogos da seleção brasileira. Galvão era contrário ao trabalho de Dunga, seja pela linha que adotava como pelo futebol jogado. Tite, por esses dois motivos, tem agradado ao narrador, que chegou a puxar palmas para ele em entrevista coletiva recente. Curiosamente, Tite antigamente não tinha boa impressão de Galvão e chegou a se irritar durante participação em um programa dele, em 2005. Na ocasião, se sentiu desrespeitado após um clássico com o Santos, conforme conta a jornalista Camila Mattoso na biografia do técnico. 

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