Um menino da Vila está perto de defender a seleção da Ucrânia

Bruno Doro

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação / Dínamo de Kiev / V. Hasner

Em 2007, o Santos precisava de um gol contra o São Caetano para ser campeão paulista quando Vanderlei Luxemburgo olhou para o banco de reservas e viu Moraes. O jogador era uma das revelações das categorias de base que estavam aparecendo naquela temporada. O treinador não pensou duas vezes: "Entra lá e decide".

O menino da Vila entrou e decidiu. Aos 36 minutos do segundo tempo, completou um cruzamento da esquerda, colocou a bola para dentro e achou que a carreira decolaria. Não decolou. Muitas lesões apareceram e ele precisou ir para a Europa para brilhar. Foi artilheiro na Romênia, na Bulgária e na Ucrânia. Hoje, aos 29 anos, está perto da seleção.

Rubens Cavallari/Folhapress
Moraes comemora gol do Santos contra o São Caetano na final do Campeonato Paulista de 2007
O detalhe: não é a seleção brasileira, mas a ucraniana. Desde o ano passado, Junior Moraes, como é conhecido na Europa, é monitorado pela Federação Ucraniana de Futebol para defender o time nacional. Ele mora há quatro anos e meio no país e precisa de mais seis meses para conseguir a naturalização. O assédio é tão sério que Andriy Shevchenko, maior jogador da história do país e hoje técnico da seleção, já conversou com o brasileiro sobre a possibilidade.

"A gente conversou sobre a situação e o interesse [da Ucrânia]. Mas tenho até julho para pensar sobre a opção. Não é uma escolha fácil abandonar o sonho de defender a seleção brasileira", admite o jogador. "Mas tenho um bom relacionamento com Shevchenko, e principalmente, com o auxiliar técnico dele [o espanhol Raúl Riancho), que foi auxiliar do Dínamo", completa.

Amizade com craque ucraniano ajudou

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Júnior Moraes chegou ao Dínamo de Kiev no início da temporada 2015/2016, após três temporadas no Metalurh Donetsk
Para quem estranha o interesse em um brasileiro que só os fanáticos por futebol europeu conhecem em detalhes, alguns números ajudam a explicar. O primeiro: ele é o artilheiro Campeonato Ucraniano, com seis gols. Seu time, o Dínamo de Kiev, é o atual campeão nacional e está disputando a Liga dos Campeões.

Mais do que isso, a equipe é a base da seleção local e conta com o grande craque do país no momento, o também atacante Andryi Yarmolenko. O bônus? Ele é um dos jogadores que melhor receberam Moraes no ano passado, quando ele chegou à equipe e ajudou na conquista do título.

"A Ucrânia é um país fechado. O pessoal é muito patriota e não tem aquela abertura que os brasileiros têm com os estrangeiros. Quando você consegue desenvolver uma amizade com eles, porém, as coisas mudam. E na minha adaptação ao Dínamo, o Yarmolenko foi um dos jogadores que mais se esforçaram para me receber. Ele se esforçou desde o começo para me ajudar", lembra o brasileiro, que admite que isso pode pesar em sua decisão sobre a seleção, no ano que vem.

"A amizade fora de campo e dentro de campo, esse entrosamento que construímos jogando juntos no Dínamo, pesa em qualquer decisão. Pensar em uma futura dupla de seleção com ele ajuda, é claro", fala o brasileiro. "Hoje, na Ucrânia, ele é o jogador de maior destaque. É bem diferente dos outros ucranianos. Ele tem algo de improvisação e muita qualidade técnica que você não vê por aqui. E, por ser alto, consegue se sobressair. Tem um futebol bem interessante. Sou um admirador".

Gols na Ucrânia, dificuldades na Champions

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Na Ucrânia desde 2011, Júnior Moraes está cotado para defender a seleção local
Quem o ouve falar sobre Schevchenko e Yarmolenko acha que a decisão está tomada. Não é bem assim. Do mesmo modo que fala com carinho sobre o país que o acolheu, ele também não esconde aquela esperança de ser lembrado pela seleção. "Eu ainda sonho. Sei que é possível. Mas para isso, eu preciso de resultados".

Esses resultados, no caso, são o sucesso no futebol da Ucrânia e nos torneios da Europa. O primeiro ele já conseguiu. Antes de virar estrela no Dínamo, ele foi o maior artilheiro da história do Metalurg Donetsk, com 37 gols em 70 partidas pelo clube. Na Liga dos Campeões, ele ainda está devendo. O Dínamo fez três partidas até agora no Grupo B e a ainda não venceu. O brasileiro passou em branco nas três partidas.

Sem sucesso na Champions, será que o desempenho no leste europeu basta? O brasileiro aposta na história recente de estrelas do campeonato local para dizer que é possível. "O futebol ucraniano não é tão popular no Brasil e, por isso, existe o receio quando um jogador é convocado. Vi acontecer muito disso quando os jogadores do Shaktar começaram a ser chamados. As pessoas não lembravam daqueles nomes, não sabiam como o William ou o Douglas Costa jogavam, como estava a forma do Fernandinho. Hoje isso mudou. O que aconteceu com esses três jogadores que eu citei mudou a visão. Eles provaram que a Ucrânia é um bom centro de transição", explica.

Além dos brasileiros que citou, Moraes lembra do armênio Mkhitaryan, que saiu do Shaktar, fez muito sucesso no Borussia Dortmund e se transformou em uma das dez maiores transações da temporada ao chegar ao Manchester United. "A Ucrânia é uma escola muito boa para o jogador crescer. Todos que passaram por aqui estão brilhando. Acho que não existe mais o preconceito".

Foi por isso que o próprio Moraes resolveu ficar na Ucrânia no ano passado, quando recebeu sondagens de clubes brasileiros. "Ouvi rumores e sondagens de Corinthians e Atlético-PR, mas não aconteceu nenhuma proposta concreta. Meu objetivo ainda é ficar na Europa. Estou com 29 anos e ainda penso em jogar em um clube grande do centro da Europa".

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